Livro Einstein, Eddington e o Eclipse recebe prémio de BD

A historiadora de ciência Ana Simões e a artista visual Ana Matilde Sousa juntaram-se num livro de banda desenhada que assinala um marco histórico da ciência do século XX. Nele, o físico Einstein, o astrónomo Eddington e o eclipse solar de 1919 observado na ilha do Príncipe encontraram-se todos.

Foto

Nasceu a propósito dos 100 anos da confirmação da teoria da relatividade geral, celebrados a 29 de Maio de 1919, e foi agora distinguido com uma das categorias dos Prémios Banda Desenhada 2019 atribuídos pelo site português Bandas Desenhadas. Einstein, Eddington e o Eclipse – Impressões de Viagem (editora Chili Com Carne), da historiadora de ciência Ana Simões e da artista visual Ana Matilde Sousa, entrelaça ensaio e ilustrações e destina-se “a um público dos 15 aos 150 anos”, nas palavras das autoras.

Foto
Página do livro Einstein, Eddington e o Eclipse – Impressões de Viagem

O ensaio e BD levam-nos à roça Sundy e à ilha do Príncipe, então sob domínio português, e incluem ecos da cidade do Sobral, no estado brasileiro do Ceará. O ano é o de 1919. O objectivo, de duas expedições científicas britânicas à ilha do Príncipe e ao Sobral, era o de confirmar, através observação de um eclipse total do Sol, que a teoria da relatividade geral de 1915 estava certa.

Ao passar perto de uma grande massa gravitacional como o Sol, seria a luz encurvada no valor previsto pela teoria da relatividade de Einstein? Um eclipse total do Sol a 29 de Maio de 1919 oferecia a possibilidade de fotografar a luz emitida por um enxame de estrelas atrás do Sol e verificar se tal encurvamento existia de facto dessa forma, e foi assim que os britânicos organizaram duas expedições aos melhores locais de observação do fenómeno – uma chefiada à ilha do Príncipe por Arthur Eddington, astrónomo do Observatório de Cambridge; outra ao Sobral por Charles Davidson e Andrew Crommelin, astrónomos do Real Observatório de Greenwich.

Foto
Página do livro Einstein, Eddington e o Eclipse – Impressões de Viagem

O resto é sobejamente conhecido. Einstein conheceu, a partir daí, uma “fama meteórica” e a confirmação da sua teoria, como recorda Ana Simões, professora catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), “constituiu o primeiro passo no lento processo de aceitação de uma teoria física cujos conceitos e previsões desafiavam a compreensão tanto do mundo leigo como do erudito”.

A ideia deste livro, à venda por 15 euros, surgiu durante a preparação de uma exposição, E3 – Einstein, Eddington e o Eclipse, exposta em vários locais em 2019, e que teve como curadora Ana Simões. “A exposição oferece ao grande público o resultado de investigação histórica original sobre temas variados do passado das ciências. A ideia do livro começou por surgir como uma alternativa a um catálogo convencional”, recordam Ana Simões e Ana Matilde Sousa. Para isso, foi então contactada esta artista visual, também conhecida como Hetamoé.

A certa altura, no entanto, apareceram outros planos. “Emergiu a ideia de fazer uma experiência que integrasse um ensaio e uma banda desenhada”, acrescentam. “O ensaio e a BD são bilingues, em português e inglês, as duas (principais) línguas usadas durante as expedições britânicas”, destacam Ana Simões e Ana Matilde Sousa. “Este aspecto foi determinante para a estrutura e configuração final do livro, onde as versões do ensaio, primeiro em português e depois em inglês, são separadas pela banda desenhada ao centro, servindo de ‘ponte’ entre esses dois momentos”.

A narrativa histórica

Para a narrativa histórica, a pesquisa baseou-se em várias fontes impressas e manuscritas – nomeadamente correspondência trocada entre Eddington, a mãe, a irmã e o Observatório Astronómico de Lisboa –, bem como fotografias. Nos balões da banda desenhada incorporaram-se excertos dessa correspondência de Eddington, tanto em inglês (original) como em português (tradução).

Outro aspecto explorado na narrativa histórica é o das assimetrias da documentação relativas à ilha do Príncipe e ao Sobral. “Existem cartas, mas não fotografias, que permitem acompanhar a par e passo a deslocação e estada dos viajantes que fizeram observações no Príncipe; e existem fotografias, mas não cartas, no caso dos viajantes que observaram no Sobral”, ressaltam as autoras. “As assimetrias não se ficam por aqui: há por exemplo um enorme manancial de notícias de jornal saídas no Brasil, mas não em Portugal.”

Foto
Página do livro Einstein, Eddington e o Eclipse – Impressões de Viagem

Graças à pesquisa para este trabalho, emergiram também algumas “descobertas”, como por exemplo a identificação do local exacto das observações na ilha do Príncipe – “até agora assinalado incorrectamente e agora identificado por uma intervenção artística no chão da autoria de um artista local”.

As autoras de Einstein, Eddington e o Eclipse – Impressões de Viagem pretenderam que as atenções, em vez de centradas em Einstein, recaíssem nas expedições britânicas à procura da confirmação da teoria da relatividade geral em territórios de língua portuguesa, incluindo cientistas e leigos, conhecidos e desconhecidos​. Ainda que integre ecos do Sobral, a narrativa gira mais em torno dos viajantes à ilha do Príncipe, explicam as autoras. “O livro explora as relações entre história das ciências e arte”, acrescentam, notando que tanto o texto como as ilustrações possibilitam leituras a vários níveis, acessíveis a um público “que não tem de ter conhecimentos especiais de astronomia e de física”.

A narrativa gráfica

Já na narrativa gráfica, as autoras descrevem-na como sendo uma banda desenhada de “contornos experimentais e impressionistas”: “As ‘impressões’ da viagem assumem um duplo significado, referindo-se tanto ao relato de Eddington por palavras – excertos da correspondência à mãe, à irmã e ao Observatório Astronómico de Lisboa – como às marcas materiais dos lugares visitados.” Essas marcas transbordam para as páginas através de imagens trabalhadas a partir de fotografias, nas cores fortes usadas (ora quentes, ora frias), na forma de impressão que distorce as imagens ou nos balões das falas em forma de post-its – convergindo tudo para “recriar um universo de impressões múltiplas sobre pessoas, animais, plantas e ambientes, aproximando os leitores das vivências dos viajantes”.

Em suma, é um livro que combina a banda desenhada com a narrativa histórica para divulgar um dos grandes marcos da história da ciência. Também no ano passado, por altura do centenário da confirmação da teoria da relatividade, foi publicado outro livro de banda desenhada português sobre as experiências realizadas na ilha do Príncipe em 1919, As Luzes do Príncipe, com argumento de João Ramalho-Santos, ilustração de Rui Tavares e distribuição gratuita. Já este livro resultou de um desafio lançado pela agência Ciência Viva ao biólogo João Ramalho-Santos, presidente do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e apaixonado por BD.

Enquanto as livrarias não reabrem, Einstein, Eddington e o Eclipse pode ser encomendado online através do site da editora Chili Com Carne. Lançado em Dezembro do ano passado na FCUL, foi distinguido há dias com o Prémio de Melhor Publicação Nacional com Distribuição Comercial, uma das categorias dos Prémios Banda Desenhada 2019, atribuídos pelo site português Bandas Desenhadas e que identificou no ano passado mais de 315 publicações de banda desenhada em Portugal.