Presidente do Benfica acusa Pedro Proença de ocultar apoios para a II Liga

Líder da Liga terá omitido verba de um milhão de euros atribuída pela FPF aos clubes do segundo escalão, que viram a época encerrada administrativamente.

Pedro Proença tem sofrido forte contestação nas últimas semanas
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Pedro Proença tem sofrido forte contestação nas últimas semanas LUSA/MANUEL ARAÚJO

A pandemia de coronavírus está a ter efeitos perversos no futebol, mas começa a tomar proporções particularmente nefastas para o presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP). Depois de ter sido convidado à última hora pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) para o encontro com o primeiro-ministro, na última terça-feira, Pedro Proença é agora acusado pelo presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, de ocultar uma verba de um milhão de euros atribuída pela FPF para apoiar os clubes da II Liga.

Já se aguardava uma reunião tensa na Liga, mas, mesmo por videoconferência, o clima foi especialmente quente na tarde desta sexta-feira, segundo apurou o PÚBLICO. No centro da discórdia estava Pedro Proença, acusado de não ter conduzido bem o processo do reatamento das competições e de ter contribuído para a decisão de encerramento administrativo da temporada da II Liga. Nesta prova não haverá descidas e subirão ao primeiro escalão os actuais dois primeiros classificados, Nacional e Farense.

Uma decisão que implicará uma perda de receitas de aproximadamente 1,2 milhões de euros, resultantes principalmente de direitos televisivos. Para minimizar esta situação, os clubes da I Liga criaram um fundo de solidariedade no valor de 550 mil euros, a que se juntou o milhão atribuído pela FPF, depois de uma reunião do seu Comité de Emergência, na quinta-feira.

Este valor resulta de um fundo para o desenvolvimento e melhoria de infraestruturas destinado aos participantes do segundo escalão profissional, que é anualmente entregue à Liga, de 500 mil euros. A este montante, juntou-se soma idêntica relativa ao próximo ano, totalizando um milhão de euros. Uma verba que a FPF permitiu que fosse utilizada para outras necessidades urgentes, como os compromissos salariais.

O problema foi que Pedro Proença não mencionou a existência deste fundo durante a reunião com os clubes. O presidente da LPFP garantiu que o organismo não tem dinheiro e está sob uma pressão financeira muito forte, especialmente após a NOS ter deixado de pagar o contrato de patrocínio (de 600 mil euros mensais, segundo o PÚBLICO apurou), mas pediu a confiança dos clubes e garantiu-lhes que iria arranjar soluções.

Foi nesta altura interrompido por Luís Filipe Vieira, que o acusou de estar a omitir a verba da FPF. Gerou-se então o caos na reunião, com alguns dirigentes contactados pelo PÚBLICO a manifestarem perplexidade em relação ao comportamento de Pedro Proença, acusando-o de fazer “teatro” para surgir depois como “salvador” dos clubes da II Liga.

A atitude do presidente da Liga foi criticada por quase todos os clubes, que acabaram por deixá-lo isolado. Aguarda-se agora a convocação de uma assembleia-geral do organismo para os próximos dias, um encontro no qual vão ser definidas as alterações extraordinárias aos regulamentos competitivos, fruto da paragem provocada pela pandemia de covid-19.

Esclarecimento do Sindicato

Horas antes da reunião dos clubes, o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) esclareceu que foram os peritos de saúde a determinar o encerramento da época da II Liga, respondendo a algumas críticas que surgiram após ser conhecida a decisão. O organismo, em comunicado, disse ainda partilhar do “sentimento de desilusão e preocupação” que afecta todos os profissionais que competem neste escalão.

“O sindicato acredita na boa-fé de todos os intervenientes na defesa do futebol. Subjacente a esta decisão não esteve qualquer discriminação entre profissionais da I e II Ligas, nem sequer razões relacionadas com a capacidade económica dos clubes”, clarificou Joaquim Evangelista, presidente do organismo.

O dirigente garante que os peritos de saúde consideraram não ser “possível implementar, com a segurança exigida para todos, um novo plano de funcionamento da competição para os dois escalões”. 

O Governo autorizou na quinta-feira a retoma à porta fechada da I Liga a partir de 30 de Maio, mais de dois meses após a suspensão, ficando também aberta a via para a realização da final da Taça de Portugal.

O esclarecimento do sindicato segue-se às críticas de dirigentes de clubes da II Liga, inconformados com a decisão, como já aconteceu com o Leixões, o Estoril e o Feirense. “Os feirenses não se vão calar e não aceitam uma decisão que viola os princípios democráticos implantados há 46 anos, com prejuízo do futebol, da verdade desportiva e de muitos clubes, em benefício de apenas alguns”, refere a SAD (Sociedade Anónima Desportiva) do emblema. 

Já o Estoril ameaça “lutar até às últimas consequências pela verdade desportiva”, considerando não fazer sentido jogar-se na I Liga e parar a II Liga. Um tema que acabou por perder fulgor na reunião dos clubes, face ao protagonismo que recaiu sobre Pedro Proença.

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