Clubes recebem adiantamento “excepcional” dos operadores televisivos

Altice, NOS e Sport TV vão pagar os direitos de transmissão dos jogos de futebol relativos a Março, mas se as competições não forem, entretanto, retomadas já não pagam mais esta temporada.

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A televisão é uma fonte de receitas indispensável para os clubes Gonçalo Delgado

As operadoras de telecomunicações e a Sport TV chegaram a acordo, na última quinta-feira, para pagar integralmente aos clubes da I e II Liga a prestação referente à cedência dos direitos de transmissão televisiva dos jogos. Na realidade, irá tratar-se de um adiantamento excepcional, que não voltará a ocorrer até ao final da época se as competições não recomeçarem.

Esta decisão, segundo o PÚBLICO apurou, chegou a estar em causa, depois de pressões da casa mãe da Altice Portugal – uma multinacional francesa – para que não se efectuasse mais nenhum pagamento se os clubes não retomassem as competições, à semelhança do que já aconteceu em outros campeonatos internacionais.

A intervenção do presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Fernando Gomes, e o facto dos direitos de transmissão televisiva dos jogos em Portugal não estarem centralizados, como ocorre em outros países, acabaram por beneficiar os clubes nacionais. Uma parte significativa já recebeu esta verba na sexta-feira e os restantes deverão receber na segunda-feira.

Um cenário bem diferente do que existia no início da última semana. Nessa altura, tanto a Altice como a NOS tinham planos diferentes, que passavam por não pagar os montantes referentes aos jogos que não se realizaram em Março, na sequência da decisão da Liga Portuguesa de Futebol Profissional de suspender as provas, no dia 12.

Em Portugal, os clubes têm contratos individuais para a cedência dos direitos dos seus jogos com três entidades: a Altice, a NOS e o canal desportivo Sport TV, do qual são accionistas de referência as duas primeiras, assim como a Vodafone (que não tem acordos directos com os clubes). Inicialmente, a Altice e a NOS deram indicações aos seus representantes no conselho de administração da Sport TV para votarem contra o pagamento integral da prestação do mês de Março.

Acabou por ser o responsável máximo da FPF (entidade que também tem contrato com a Altice) a sensibilizar as operadoras de telecomunicações para os efeitos desastrosos que isso poderia provocar nas tesourarias dos clubes a meio da crise do novo coronavírus. Muitos deixariam de ter meios para pagar os ordenados aos jogadores e estes passariam a poder rescindir com justa causa. Uma possibilidade que acabou por convencer Altice e NOS.

Adiantamentos e desigualdade

Por outro lado, a Altice já tinha adiantado verbas a clubes com quem tem contrato, o mesmo acontecendo com a NOS, o que deixaria os restantes em condições desiguais.

Para evitar disparidades destas, numa altura em que continua a admitir-se que as competições ainda venham a ser retomadas esta temporada, as operadoras acabaram por votar favoravelmente o pagamento integral dos montantes de Março na reunião do conselho de administração da Sport TV, que decorreu na última quinta-feira ao final da tarde.

Esta decisão foi comunicada por carta aos clubes. Na missiva, a que o PÚBLICO teve acesso, é referido que as operadoras tomaram a decisão de suspender o pagamento das contrapartidas devidas pelas cedências dos direitos de transmissão dos jogos da presente temporada, ressalvando que, apesar disto, iriam avançar com os montantes equivalentes à prestação de Março.

Este adiantamento tanto pode ser liquidado já esta época, caso seja possível reiniciar as competições, ou, se tal não for possível, será deduzido nas dez prestações previstas para a época de 2020-21. Afastada está, para já, a possibilidade de uma renegociação dos contratos, com uma redução dos valores inicialmente estabelecidos.

Uma boa notícia para muitos clubes que dias antes tinham recebido a informação de que não iria haver pagamento em Março. Com estes montantes, ficou liquidado 80% do valor total estabelecido para a temporada 2019-20. Um paliativo, em muitos casos fundamental, para a grave crise financeira que os clubes estão a atravessar face à quebra repentina e abrupta de receitas.

Esta folga vai permitir agora que os dirigentes se reúnam com os respectivos plantéis para acertar eventuais rescisões, acertos salariais ou cativações, face às novas circunstâncias económicas impostas pela pandemia.