Do sexting à sextortion: sexo está na base de muitas queixas recebidas pela Linha Internet Segura

A Linha Internet Segura está activa das 9h às 21h e pode-se enviar um email a qualquer hora, mas muitas pessoas ainda não conseguem identificar uma estrutura em Portugal para apoiar vítimas de cibercrime.

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Com os pais a passar mais tempo em casa, muitos estão mais alerta sobre o comportamento dos filhos Paulo Pimenta

O sexo está no centro das muitas das preocupações de cibersegurança dos portugueses que contactam a Linha Internet Segura, um serviço de denúncia de conteúdos ilegais online. Em causa está um aumento de pessoas a receberem emails de hackers que ameaçam divulgar conteúdos explícitos que terão obtido do utilizador, e pais que descobriram que os filhos estão a usar os telemóveis para enviar mensagens com cariz sexual aos parceiros ou a desconhecidos.

“No mundo ‘pós-covid’, com as medidas de isolamento social, os pais apercebem-se muito mais dos comportamentos das crianças online, com muitos a investigar os motivos por detrás de crianças que passam as madrugadas a trocar mensagens online”, explica ao PÚBLICO Ricardo Estrela, responsável pela operacionalização das Linhas Internet Segura e Alerta da APAV, gerida por uma equipa de cerca de 20 voluntários peritos em áreas como psicologia, direito e serviço social.

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Há pais mais atentos a filhos a usar a Internet até de madrugada Adriano Miranda

“Quando os adultos descobrem mensagens com cariz sexual explícito produzidos pelos filhos, ligam a pedir ajuda. Por vezes são jovens a falar com a namorada ou namorado que está longe e é uma questão de alertar os mais novos sobre os riscos em enviar este tipo de conteúdo, mas também há casos em que se identifica aliciamento de menores em sites online. Esses casos são encaminhados para a Polícia Judiciária”, afirma.

Tal como acontecia antes, a linha também recebe múltiplas denúncias de pornografia infantil à solta na dark web — só que agora, há páginas dedicadas a incitarem abusos a crianças.

90% não sabe onde pedir ajuda

Actualmente os profissionais desta linha de apoio (que funciona das 9h às 21h) recebem entre seis a sete chamadas directas por dia, além de dezenas de emails, mensagens nas redes sociais e denúncias em formulários. O número, no entanto, podia ser maior.

Apenas 10% dos inquiridos no Barómetro da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e Intercampus de 2020, subordinado ao tema Percepção da População sobre Cibersegurança, admite ter conhecimento de alguma estrutura em Portugal que preste apoio a vítimas de cibercrime. E ao todo, só 98 pessoas referiram conhecer a Linha Internet Segura (17%).  Os resultados da sondagem, com base em 591 inquéritos preenchidos entre 27 de Fevereiro e 8 de Março de 2020, foram publicados esta quinta-feira.

Embora os dados não incluam informação sobre o actual período de isolamento social, o aumento recente de queixas de engenharia social — o chamado phishing — ​pode estar relacionada com alguns dos hábitos dos portugueses. Embora 83% dos inquiridos admitam estar preocupados com a possibilidade de furto de identidade (50% está muito preocupado), 71% esteja preocupado com a segurança dos pagamentos online e 90% não acredite que os websites guardam informação de forma segura, apenas metade dos inquiridos mudou a palavra-passe nos últimos 12 meses.

“Desde ‘a covid-19’ tem-se notado um aumento de queixas sobre sextortion, de pessoas preocupadas com criminosos que lhes enviam mensagens onde dizem ter imagens comprometedores delas”, partilha Ricardo Estrela. “Só que muitos são tentativas de engenharia social para tentar aproveitar pessoas que passam mais tempo ligadas à Internet e têm os contactos em listas utilizadas por criminosos. Muitas vezes o esquema é enganar as pessoas ao pedir dinheiro, levá-las a clicar em links perigosos, ou partilhar credenciais.”

Ricardo Estrela não acredita que fugas recentes de dados estejam na base destes ataques. Em vez disso, a teoria é que pessoas com más intenções (e mais tempo livre) se estejam a aproveitar de bases de dados antigas que foram publicadas na Internet.

Quando os utilizadores usam as mesmas credenciais (nome de utilizador e palavra-passe) para aceder a vários serviços, basta que um seja comprometido para os atacantes tentarem usar a combinação em múltiplos serviços (um fenómeno conhecido como credential stuffing, em inglês).

Pais monitorizam mais

Quanto ao aumento de pais a descobrir que os filhos enviam mensagens de cariz sexual, 74% dos encarregados de educação que responderam ao barómetro da APAV admite que monitoriza a actividade dos filhos online e 42% usa ferramentas de controlo parental no browser.

Embora a UNICEF alerte que monitorizar os passos dos menores cria ainda mais limites à liberdade, para alguns pais deixar os filhos sozinhos na Internet não é opção. Na semana passada também foram registadas várias chamadas para a Linha Internet Segura sobre os populares vídeos de invasões a aulas online publicadas no YouTube.

O número de emails sobre denúncias de pornografia infantil online mantém-se alto, diz Estrela, embora apenas 1% dos inquiridos no barómetro da APAV digam ter encontrado, acidentalmente, este tipo de conteúdo. “É normal”, diz Ricardo Estrela. “Não posso afirmar isto com 100% de certeza, mas, regra geral, as pessoas que encontram este tipo de conteúdo são por norma pessoas com algum conhecimento técnico, habituadas a navegar da dark web. Uma pessoa denuncia várias páginas ilegais de uma só vez.”

A dark web é uma parte “escondida” da World Wide Web, infame por ser utilizada por visitantes do mercado negro online. Resume-se a um conjunto de redes (conhecidas como darknets) que estão intencionalmente escondidas da Internet visível através de sistemas de encriptação. Como tal, não se encontram sites da dark web através de pesquisas em motores de busca, ou ao escrever o endereço de IP em navegadores de Internet normais.

Ricardo Estrela lembra que além de contactar a Linha Internet Segura “por telefone, email, redes sociais ou formulário” é “sempre aconselhável a denúncia destas situações à unidade de Cibercrime da Polícia Judiciária.”

Entre os dados divulgados no mais recente barómetro de cibersegurança da APAV, o computador e o smartphone são a forma mais comum de aceder à Internet. Antes das medidas de isolamento social, emails, chamadas fraudulentas e ataques aos dispositivos por meio de burlas online já estavam entre o tipo de cibercrimes mais comuns. São os mais velhos (faixa etária acima dos 55 anos) que mais se queixam de estarem mal informados sobre os riscos de segurança do mundo online.