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Mulheres que lidam com a morte: a vida das agentes funerárias de Harlem

Numa altura em que, nos Estados Unidos, se enterram corpos de vítimas da covid-19 em valas comuns, há quatro agentes funerárias que se vêem obrigadas a rejeitar corpos. Sentem que estão a falhar, mas continuam a trabalhar. Mesmo que isso signifique abdicar das famílias ou colocar a própria saúde em perigo.

Há 48 corpos na cave da casa funerária de Harlem, em Nova Iorque. Destes, 40 estão em caixas de cartão, prontos para serem cremados. Os restantes oito estão no frigorífico, para serem embalsamados e enterrados. Vão ser precisas semanas ou meses até que efectivamente o sejam.

Enquanto as autoridades de saúde começam a enterrar vítimas da covid-19 numa vala comum em Hart Island, naquela que é a pior semana em termos de mortes em Nova Iorque, as quatro agentes funerárias da International Funeral&Cremation Service começaram a recusar corpos.

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Weinrieb, Narvaez, Adames e Warring à porta da agência funerária. REUTERS/Andrew Kelly

Este grupo de quatro agentes em botas de salto alto começou a sentir que estava a falhar. Na sua óptica, uma pessoa deveria ter aquilo que deseja na morte, mesmo que isso nunca tenha sido possível durante a vida.

“É assim que fazemos as coisas”, começa Lily Sage Weinrieb. “Queres seis limusinas pintadas de cor-de-rosa? Ok. E agora estamos a responder assim: queres ser cremado? Desculpa, mas não dá. Queres um enterro e até já tens um enredo e tudo? Desculpa, mas não. Não temos espaço.”

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“Costumam dizer-nos que somos heroínas por estarmos na linha da frente disto, mas sinto que estou a falhar perante famílias todos os dias.”

Na linha da frente da pandemia de coronavírus, enfermeiros e médicos tomam conta dos vivos. Mas há outra “linha da frente” no que toca aos que cuidam dos mortos. Também eles temem a infecção e a morte. Alguns mandaram os filhos para a casa de familiares. E porque cidades americanas como Nova Iorque nunca tiveram que se desfazer de tantos mortos, o seu dever prevalece.

PÚBLICO - Alisha Narvaez, gerente da International Funeral & Cremation Services, junto a um conjunto de corpos que esperam para ser cremados.
Alisha Narvaez, gerente da International Funeral & Cremation Services, junto a um conjunto de corpos que esperam para ser cremados. REUTERS/Andrew Kelly
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Alisha Narvaez prepara-se para embalsamar um cadáver. REUTERS/Andrew Kelly
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Lily Sage Weinrieb prepara um corpo para um velório. REUTERS/Andrew Kelly
PÚBLICO - Nicole Warring transporta um corpo.
Nicole Warring transporta um corpo. REUTERS/Andrew Kelly
PÚBLICO - Lily Sage Weinrieb confirma a identificação de um corpo.
Lily Sage Weinrieb confirma a identificação de um corpo. REUTERS/Andrew Kelly
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Lily Sage Weinrieb recolhe um corpo do hospital. REUTERS/Andrew Kelly
PÚBLICO - Lily Sage Weinrieb coloca um corpo na cave, onde os corpos são guardados e preparados para o funeral.
Lily Sage Weinrieb coloca um corpo na cave, onde os corpos são guardados e preparados para o funeral. REUTERS/Andrew Kelly
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No início da pandemia, Alisha Narvaez, 36 anos, enviou a filha de 17 anos para a casa da irmã gémea, mas, depois de duas semanas, a distância tornou-se demasiada. “Sempre fomos só nós as duas e ela quis voltar para casa”, diz Alisha.

Alisha toma banho na agência funerária depois de embalsamar os corpos e antes de ir para casa. Quando chega a casa, tira as roupas à entrada e toma banho novamente. Pulveriza a bolsa com Lysol e bochecha com Listerine.

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“Tenho que me assegurar de que permaneço saudável para não a magoar”, refere Alisha. “Ainda que ela esteja a fazer quarentena há várias semanas, todos os dias em que volto do trabalho são um novo dia zero para ela.”

A filha de Jenny Adames foi viver com a avó. Recentemente, a filha “quebrou” durante uma troca de mensagens com Jenny. “Hoje, fiquei de coração partido”, desabafa Jenny, 36 anos. “Ela precisa da mãe. Não da Jenny, a agente funerária.”

Nicole Warring, 33, preocupa-se com a morte ou com a transmissão para o filho de dez anos. O seu namorado, que trabalha numa empresa de caixões, apanhou o vírus. Felizmente, recuperou. Ela teve que tirar alguns dias de folga por causa de palpitações no coração, devido à ansiedade. “É traumático para toda a gente”, diz. “Nenhuma escola mortuária te consegue preparar para o que estamos a ver agora.”

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Lily mudou-se da casa partilhada em que vivia com amigos, em Filadélfia, porque não achava correcto estar constantemente a expor os colegas de casa ao vírus. Os pais deixaram-na voltar para casa, mas ninguém a abraça há mais de um mês. “Isso é uma porcaria”, diz. Durante a semana, Lily, 25 anos, dorme muitas vezes na capela da casa funerária.

Jenny não se lembra de qual foi o cadáver que teve que rejeitar durante a pandemia, mas lembra-se do primeiro que a fez chorar. Um homem ligou-lhe — pelo menos quatro vezes num dia — por causa de um amigo que tinha morrido num lar.

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Lily e Nicole atendem chamadas. REUTERS/Andrew Kelly

“Preciso de ajuda.” Jenny recorda as palavras do homem. “Não sei o que fazer. Não quero deixá-lo abandonado, para ser deitado numa vala comum. Por favor, tens de me ajudar, Jenny.”

“Eu não podia mesmo fazer nada e isso partiu-me o coração”, diz Jenny. “Não te estamos a rejeitar. Só precisamos de algum tempo.”

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Lily Sage Weinrieb faz uma pausa depois de mais uma chamada de uma encomenda de um caixão para uma vítima da covid-19. REUTERS/Andrew Kelly

A taxa de mortalidade nos Estados Unidos é agora a mais alta do mundo. Um terço das mortes registadas nos Estados Unidos, mais de 13 mil, aconteceram em Nova Iorque. E Nova Iorque, uma das cidades mais populosas dos Estados Unidos, apenas tem quatro crematórios.

A morte numa pandemia não é bonita. Os camiões refrigeradores à porta dos hospitais não têm espaço suficiente e os corpos são, às vezes, empilhados uns em cima dos outros, no chão. Alguns camiões não têm luz.

Os hospitais, que costumavam guardar corpos durante 14 dias, agora só conseguem mantê-los durante seis. “Tens outros 20 directores funerários à tua frente para se desfazerem dos corpos”, diz Nicole. “Vês montes de sacos com corpos e eles estão todos rotulados ‘covid-19’, ‘covid-19’, ‘covid-19’. É como um filme de terror.”

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E há pouco que separe estas mulheres dos riscos que o seu trabalho acarreta. Ninguém sabe sequer se os corpos dos infectados são contagiosos.

Há duas semanas, ficaram sem luvas. Nessa altura, Jenny fez uma “trégua” inesperada com o pai da sua filha. “Nós detestamo-nos”, explica. Mas teve que lhe pedir ajuda porque ele trabalha num hospital. Ele trouxe-lhe luvas, uma caixa de máscaras e um avental. “Eu não gosto muito de ti, mas tu és a mãe da minha filha. Aí tens”, disse-lhe.

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Os telefones da casa funerária tocam constantemente e o som é intercalado pelas sirenes de ambulâncias. Os fornecedores dizem que estão a ficar sem caixões e urnas. Jenny diz que já nem entrega o catálogo de caixões às famílias das vítimas; apenas pergunta que cor preferem.

A maioria das vítimas de covid-19 morre sozinha e, quando morrem, as famílias recebem indicações para fazer quarentena. Estas mulheres tentam sempre encontrar formas para que os familiares se possam despedir.

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Jenny dá o número pessoal às famílias. Eles enviam-lhes mensagens até à noite. Quando os mortos são cremados, Lily permite que as famílias despejem as cinzas na urna e digam algumas palavras.

Esta casa funerária em Harlem é um das poucas que permite que haja um velório para as vítimas da covid-19. Devido à pandemia, apenas se podem juntar dez pessoas de cada vez; algumas famílias são maiores, por isso permitem velórios de quatro horas, dez pessoas por hora. As famílias têm que trazer as suas próprias luvas e máscaras.

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Jenny diz que, agora, têm de olhar umas pelas outras. Esta é a mensagem que dizem umas às outras: “Limita a tua compaixão, por favor, porque temos que passar para o próximo. Não temos tempo para parar.”

O avô de Jenny morreu com covid-19 a 6 de Abril. Uma semana depois, na sexta-feira santa, foi a vez da tia. “Suspeita de covid-19”, dizia a sua certidão de óbito. Eram família, por isso foi ela quem cuidou dos dois. “Para dizer a verdade, não sou muito emocional”, refere. “Não quero parecer fria, mas é um trabalho. É o que eu faço.”

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Alisha Narvaez. REUTERS/Andrew Kelly
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