Covid-19: Portugal vai fazer ensaios clínicos ao plasma de doentes recuperados

O estudo deve começar em Maio, anunciou o secretário de Estado da Saúde esta segunda-feira.

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André Rodrigues

Portugal vai realizar ensaios clínicos ao plasma de doentes recuperados de covid-19.  Este estudo deve começar em Maio, anunciou esta segunda-feira o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, na conferência diária na Direcção-Geral da Saúde (DGS). Até esta segunda-feira, 610 pessoas já tinham recuperado da covid-19 Portugal.

“Existe uma vontade grande por parte de diversas instituições de o fazer em termos de ensaios clínicos numa fase inicial”, disse António Lacerda Sales, quando questionado sobre o uso de plasma de doentes recuperados. O secretário de Estado afirmou que “estão incorporados nesta vontade” a DGS, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa) e o Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde), que estão neste momento a analisar um conjunto de critérios e de factores, como o consentimento informado e a “tecnologia para anticorpos neutralizantes”.

“Há toda uma tecnologia que tem de ser previamente avaliada”, frisou, dando conta de que vai ser definido um grupo para que se possa avaliar e validar o início destes ensaios clínicos, que podem começar em Maio e com doentes “moderados e graves”. “Estes ensaios clínicos começarão por doentes moderados e graves e não muito graves como muitas vezes tem sido transmitido para a opinião pública. Será um pouco esta a estratégia que utilizaremos. Queríamos ver se até ao final do mês podíamos ter toda esta uniformização perfeitamente contemplada para iniciarmos estes ensaios clínicos”, disse ainda.

Como ainda não há nenhuma vacina ou tratamento específico para esta doença, vários cientistas têm proposto tratar a covid-19 através do sangue de pessoas recuperadas. Isto é, administrar a doentes ainda infectados soro sanguíneo obtido de pessoas já recuperadas. A ideia é consigam tirar partido de anticorpos desenvolvidos pelos doentes recuperados.

Em Março foi publicado um estudo com resultados ainda preliminares na revista JAMA: cinco doentes de covid-19 em estado grave receberam transfusões de plasma convalescente retirado do sangue de doentes recuperados e terão manifestado sinais de melhoria no seu estado clínico.

Esta é uma prática com mais de um século e um dos primeiros casos de sucesso remonta à gripe pneumónica de 1918, em que o uso de transfusões de sangue de sobreviventes para tratar doentes graves levou a uma redução de 50% da mortalidade dos doentes internados no Hospital Naval de Chelsea, no Massachusetts (EUA). Com a descoberta de tratamentos mais eficazes, o método caiu em desuso, mas voltou a ser usado, por exemplo, em 2003, na China, no tratamento de algumas pessoas infectadas com SARS e durante a luta contra o surto de ébola entre 2014 e 2016 na África Ocidental. Como esta técnica não está isenta de riscos, a Organização Mundial da Saúde publicou orientações para garantir a sua segurança em 2014.

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