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A redescoberta do ócio: uma utopia da quarentena

Temos de pegar no projecto que estava na gaveta ou aprender uma língua. Não podemos tirar um segundo para respirar, nem neste tempo em que fugimos de um bicho que nos corta o ar? Hoje, Gabriel García Márquez teria chamado ao seu livro Produção em tempos de cólera.

Ao fim do primeiro dia do apocalipse já estavam a mandar-nos criar uma rotina. Mantenha horários, levante-se, vista-se, faça exercício, faça pão. Enfrentamos um desafio aterrador que acontece uma vez a cada geração — e ninguém nos aconselhou que parássemos um segundo para pensar no que estava a acontecer. Encaixar a situação na nossa estrutura mental e emocional, chorar, zangar e racionalizar. Fazer um luto, para depois percebermos como encarar esta nova vida.

Não é o “olhar para dentro”, gesto que, aliás, andamos todos a repetir há demasiado tempo. Falo de observar e reflectir. Há que trabalhar, pôr a mão na massa, agachar, plantar, fazer, fazer, fazer. No primeiro dia, os miúdos têm 600 folhas de exercícios, os teletrabalhadores têm de se habituar às reuniões à distância, criar um escritório em casas por vezes minúsculas. Ninguém me disse que devia ter comprado uma impressora!

Temos medo de quê? De encarar a situação e perceber que ela é mais negra do que um arco-íris? Sei que cada um lida com as dificuldades à sua maneira. Eu prefiro estar bem informada sobre a realidade; nada me provoca mais ansiedade do que a incerteza. Para alguns, a sanidade depende de estar longe das notícias e concentrar o olhar noutra coisa. Todos os mecanismos são válidos. Mas, aparentemente, parar é menos válido do que os outros.

Chegámos a uma sociedade, talvez esteja a exagerar, a uma soma de indivíduos que só existem enquanto seres produtivos. O ócio, símbolo histórico de prosperidade e civilização, é agora um demoniozinho que importa exorcizar diariamente. A preguiça é a mãe de todos os vícios e é, ela própria, o pior dos vícios. Não me refiro tanto ao fazer ou não fazer, nem sequer só ao trabalho. Falo da culpa que sentimos quando não fazemos nada. Até aquele sábado de sol em que nos dizem de sobrancelhas levantadas de indignação: “Não vais aproveitar este tempo?!” Mas se me apetece mesmo é ficar no sofá...

Arrastámos esta patologia para a época de excepção que vivemos. Temos de pegar no projecto que estava na gaveta ou aprender uma língua. Não podemos tirar um segundo para respirar, nem neste tempo em que fugimos de um bicho que nos corta o ar? Hoje, Gabriel García Márquez teria chamado ao seu livro Produção em tempos de cólera.

A deusa produtividade está até naquele discurso com um alívio mal disfarçado de que na sua maioria são os velhos que morrem de covid-19. As vidas dos velhos não valem assim tanto porque, enfim, não produzem. O nosso valor mede-se agora pela nossa utilidade. Está tão enraizado no inconsciente colectivo que desatámos a confundir o dolce fare niente com uma morte em vida.

Gostava que esta provação que passamos, já que temos de a passar, nos servisse também para, como sociedade, voltarmos a dar valor ao ócio. Não vou ao extremo de Paul Lafargue, no seu O Direito à Preguiça, quando pede “uma lei de bronze que proíba que qualquer homem trabalhe mais de três horas por dia”. Só que, entendamos, estar com família e amigos, beber um café na rua e ler, ficar a olhar o vazio a pensar um bocado, também merece lugar e relevância. Gostava que percebêssemos que de facto isto é curto e incerto e que, sabendo que temos de trabalhar para sobreviver, devemos investir no que nos traz de facto a felicidade, ou seja, o sentido da vida: o amor, o nosso crescimento, a arte. E que o direito a este tempo deve ser estendido àquelas pessoas que têm três trabalhos e cinco filhos em casa e deixar de ser luxo de burguês.

Não temos a adoração chinesa ao trabalho, mas temo que para lá caminhemos. A minha aposta é que a crise económica que nos espera (“Espera?”, perguntam aqueles que já foram despedidos há um mês) nos vai pôr outra vez a trabalhar como cães, a endeusar as pessoas que trabalham 14 horas por dia e a heroificar os empreendedores “bate punho.”

Se calhar é só o meu pessimismo habitual. Não sei. Penso melhor nisto quando tiver um bocadinho.

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