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Megafone

Estão todos a aproveitar a quarentena menos eu

A verdade é esta: poucos, ou nenhuns, são aqueles que já passaram por uma experiência destas. Por isso, tendo em conta o nível de amadorismo colectivo, é natural que ainda estejamos à procura das melhores soluções para encarar esta nova realidade. Faz parte.

Já começamos a ficar aborrecidos, não é? A Casa de Papel não passou do primeiro fim-de-semana, os temas dos lives no Instagram já se repetem e, com tantos bolos feitos, só nos falta abrir uma pastelaria.

Este confinamento não deixa de ter a sua dose de ironia. Tanto pedimos para passar mais tempo em casa que agora, em vez de relaxarmos numa sala de estar, temos de nos contentar com uma sala de espera, daquelas em que o dispensador vermelho já nem senhas tem e as revistas, com azar, nem sequer são deste ano.

Não quero soar pessimista, mas, na melhor das hipóteses, estamos a meio deste isolamento social. E há um detalhe que não joga a nosso favor: o factor “novidade” já se foi.

Como sabem, o stress dá-se lindamente nos extremos. Esta passagem dos 8000 para os 0,8 é terreno mais do que fértil para o tédio e a ansiedade. Nem é preciso regar muito, infelizmente. Para estas emoções daninhas basta-nos estar mais distraídos, elas aproveitam qualquer brecha mental para florescer.

Neste momento, muitos são aqueles que sofrem em silêncio. Sofrem por sentirem aquilo que estão a sentir e por, a cada passeio pelas redes sociais, ficarem com a sensação de que só eles é que não sabem curtir a quarentena como deve ser. Da mesma forma que, no “antigamente”, as publicações davam a entender que só nós é que íamos às finanças ou perdíamos horas no trânsito, agora passa-se exactamente o mesmo, mas num nível mais pandémico.

Não se iludam. Por mais filtros que os olhos não consigam filtrar, todos sem excepção estão a lutar para se adaptar. Uns dias melhor, outros pior, como sempre. No meio disto tudo, é fundamental não nos esquecermos que somos humanos e quais as implicações de pertencer a esta espécie.

Se fazes parte deste grupo de pessoas, o meu conselho é: desapega-te. Livra-te dessa ideia de que tens de ser forte todos os dias e que é errado sentires-te assim. Aceita a condição em que te encontras, dá um passo atrás e assume que não podes controlar tudo. Se forem quatro da tarde e ainda estiveres de pijama com a cara por lavar, tudo bem. Se nestes dias já passaste mais tempo no sofá do que no resto do ano, não há problema. Se te sentes inseguro relativamente ao futuro, é perfeitamente normal. Se queremos praticar a tolerância, seria bom se começássemos por nós mesmos.

A verdade é esta: poucos, ou nenhuns, são aqueles que já passaram por uma experiência destas. Por isso, tendo em conta o nível de amadorismo colectivo, é natural que ainda estejamos à procura das melhores soluções para encarar esta nova realidade. Faz parte.

É em momentos como este que gosto de recorrer à sabedoria popular. Se as “frases feitas” atingiram esse estatuto há-de ser por algum motivo, não é? Dificilmente vamos poder aplicar isto a toda a gente, mas para muitas pessoas este “mal” vai ser o melhor que lhes aconteceu. Como ainda não sabemos o que o futuro nos reserva, o melhor mesmo é esperar para ver.

Uma óptima personificação disso mesmo talvez seja o cantor Nininho Vaz Maia. A carreira que hoje tem muito se deve a uma pulseira electrónica. Enquanto esteve em prisão domiciliária, durante um ano e 15 dias, deu a volta ao tédio com um vídeo onde cantava pela primeira vez. Enviou-o à sua irmã que, por sua vez, partilhou com a prima e que, sem autorização, decidiu publicá-lo no YouTube. O boom foi tão grande que hoje, passados alguns anos, o Nininho tem uma carreira sólida, enche salas e faz aquilo que mais ama.

Outro excelente exemplo é o youtuber Nuno Agonia. Devido a uma tuberculose, viu-se obrigado a ficar fechado em casa durante um ano e meio. Já cansado de fazer zapping na televisão, decidiu alimentar a sua paixão por vídeos e tecnologia. Assim que ficou bem de saúde, na altura já com 100 mil seguidores, optou por se dedicar a tempo inteiro ao YouTube. Hoje, passados cerca de cinco anos, o Nuno vive daquilo que o apaixona e é acompanhado por mais de um milhão de pessoas.

Em ambos os cenários, ninguém acreditaria que estar fechado em casa seria uma excelente oportunidade. E é neste ponto de interrogação gigantesco que reside precisamente a piada de se estar vivo.

Nem a bola de cristal mais polida poderia fazer-nos antever o que aí vem. O futuro não pertence a ninguém, até porque nem sequer existe ainda. E mesmo que este presente pareça envenenado, podemos sempre fazer o que está ao nosso alcance para que se possa tornar o nosso melhor remédio.

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