Opinião

A celelebração do vazio

No dia 18 de Abril, monumentos e sítios de todo o mundo estarão visitáveis online, mas vazios de gente e de alma, sem vida e sem brilho, vulneráveis e inúteis. O esvaziamento arrasta a decadência e a omissão.

O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios é uma “oportunidade de aumentar a consciência pública relativamente à diversidade do património e aos esforços necessários para o proteger”, como se afirma no sítio da Direcção-Geral do Património Cultural.

Em cada ano, e para esta iniciativa, o International Council on Monuments and Sites lança um tema que nos permite acompanhar os novos debates e assistir ao evoluir dos estudos de património, da conservação e de outros campos disciplinares. Assim acontece com o tema deste ano, “Culturas partilhadas, património partilhado, responsabilidade partilhada”, revelador da tendência politicamente correcta que também se sente nesta área, apelo à celebração do que temos em comum. Apelo provocatório, já que, por cada gesto de pôr em comum, há outro que divide e por cada lembrança de um símbolo partilhado, há outra que o contesta.

Para lá de ter ido, involuntariamente, ao encontro da partilha digital frenética em que vivemos, o tema evidencia o entendimento do património, hoje. Ele não está nos objectos, monumentos e sítios inertes, mas nos processos culturais e sociais da sua valorização, não é o que metemos na arca de Noé, no fervor obsessivo de tudo conservar, mas aquilo que nos compromete e tem significado — não para ser guardado, mas partilhado, disponibilizado, usado.

No centro destes processos estão pessoas e comunidades que actuam do presente para o passado, construindo um património que radica em experiências, sentimentos e memórias, somados aos critérios históricos e artísticos definidos pelos especialistas. É do presente que se trata e não do enaltecimento do passado por ser passado.

Jean Davallon lembrou-o, indirectamente, quando disse que a transmissão do património cultural é inversa à do património pessoal. Neste, quem recebe torna-se um proprietário com os seus direitos; naquele, um depositário com os seus deveres. Se numa herança privada a decisão cabe a quem lega, na herança cultural, a decisão cabe a quem recebe. Sem a pressão social e cultural do presente, não há património que resista.

Vem isto a propósito deste Dia e de outros que, em 2020, foram – como o do Teatro – , ou serão outros – como o dos Museus –, festejados de forma heterodoxa, com os simulacros do momento, gerados em boas e compreensíveis intenções. Refiro-me à digitalização dos lugares e das experiências que, em favor de um acesso alargado, tem sido avassaladora, mas, nem sempre, interessante ou eficaz. Ao assistir à mera transposição do registo físico para o digital, e não a criações concebidas para este ambiente, percebemos as debilidades da tentativa.

No dia 18 de Abril, monumentos e sítios de todo o mundo estarão visitáveis online, mas vazios de gente e de alma, sem vida e sem brilho, vulneráveis e inúteis. O esvaziamento arrasta a decadência e a omissão. Portanto, o modo como este dia passa por nós, reforça a ideia de que o património cultural não é apenas esse lugar distante e estrangeiro que visitamos como turistas, mas um lugar próximo que requer voz, participação, presença activa e uso.

Sugerir correcção