Covid-19: China acrescenta 1290 mortes em Wuhan e declara que “não autoriza encobrimentos”

Presidente francês, Emmanuel Macron, diz que é “ingénuo” acreditar que a China agiu melhor do que outros países. Aumento no registo do número de mortes na cidade é de 50%.

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As autoridades chinesas já começaram a levantar algumas das restrições na cidade chinesa de Wuhan Reuters

A acusação de que a China escondeu a verdadeira dimensão do surto inicial do novo coronavírus, feita pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, e por cada vez mais líderes europeus, ganhou força esta sexta-feira com uma repentina actualização do número de mortos na cidade de Wuhan. Em relação a quinta-feira, as autoridades locais registaram mais 1290 mortes por covid-19, um aumento de 50% para 3869.

Numa conferência de imprensa, esta sexta-feira, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Zhao Lijian, negou a existência de qualquer “encobrimento” por parte das autoridades chinesas e disse que a actualização dos números de casos e mortes “é uma prática internacional comum”.

“A China não autoriza encobrimentos”, disse Zhao, respondendo às dúvidas levantadas pelo Presidente norte-americano numa conferência de imprensa na quarta-feira.

“Acreditam mesmo nesses números nesse país tão vasto chamado China, e que eles têm um determinado número de casos e de mortes? Alguém acredita mesmo nisso?”, questionou Donald Trump.

Um responsável de Wuhan, citado sob anonimato pelos jornais estatais chineses, disse que “algumas instituições de saúde falharam na comunicação com os sistemas locais de prevenção e controlo de doenças de forma atempada, o que provocou um atraso no registo de casos confirmados”.

"Perguntas difíceis"

Nos últimos dias, Reino Unido e França também endureceram as críticas à forma como a China geriu os primeiros tempos da pandemia, quando a doença covid-19 parecia estar ainda limitada à província de Hubei, entre Dezembro e inícios de Janeiro.

“As coisas não podem voltar ao normal como eram antes da crise”, disse na quinta-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Dominic Raab, à agência Reuters. “Teremos de fazer perguntas difíceis sobre como é que [a pandemia] poderia ter sido travada mais cedo”, disse Raab, questionado sobre um possível “acerto de contas” com a China.

E, esta sexta-feira, foi a vez do Presidente francês, Emmanuel Macron, sugerir que Pequim não foi transparente no início da crise, numa entrevista ao jornal Financial Times em que foi confrontado com as diferenças nas reacções entre governos autoritários e as democracias ocidentais como as europeias e a norte-americana.

“Perante essas diferenças, e perante as escolhas que foram feitas e aquilo que a China é hoje, que eu respeito, não sejamos tão ingénuos ao ponto de dizer que eles foram muito melhores a gerir esta crise”, disse Macron. “Não sabemos. É evidente que há coisas que aconteceram e que nós não sabemos.”

Apesar da diferença no tom e na escolha de palavras, a indicação de que a China poderá vir a ser questionada no futuro sobre a sua resposta inicial à pandemia foi também partilhada pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, na quarta-feira.

Numa reacção ao anúncio do Presidente norte-americano de que vai suspender o financiamento à Organização Mundial de Saúde, Guterres disse que chegará o tempo “para se perceber como é que uma doença como esta surgiu e se espalhou de forma tão rápida, e de que forma reagiram à crise todos os envolvidos”.

Com a actualização feita esta sexta-feira, a cidade de Wuhan, com 11 milhões de habitantes, tem agora 3869 mortes registadas por covid-19 e mais 325 casos de infecção do que antes. No total, Wuhan tem mais de 80% das 4632 mortes registadas em toda a China.

Autoridades locais culpadas

O que distingue a reacção dos Estados Unidos em relação à China é que o Presidente Trump decidiu penalizar desde já a Organização Mundial de Saúde com um corte no financiamento durante a pandemia – acusando o supervisor mundial de saúde de “espalhar desinformação chinesa” e de “provocar muitas mortes com os seus erros”.

As dúvidas sobre a reacção inicial da China perante o aparecimento de um novo coronavírus na cidade de Wuhan, na província de Hubei, entre Novembro e Dezembro do ano passado, repartem-se entre acusações de encobrimento total por parte das autoridades de Pequim e das lideranças locais.

No dia 11 Fevereiro, a agência Reuters noticiou que vários responsáveis políticos da província e da cidade foram afastados dos cargos por entre acusações de abandono de funções e encobrimento do número de casos e mortes.

Os dois responsáveis máximos pelo departamento de Saúde da província, Zhang Jin e Liu Yingzi, foram despedidos, e dezenas de outros funcionários do Governo espalhados pelo país foram afastados e acusados de não terem feito o que deviam para travar as infecções nas suas regiões.

E a responsabilidade pela forma como alguns médicos foram tratados quando quiseram denunciar a gravidade da situação foi também atribuída às autoridades locais da província de Hubei e da cidade de Wuhan.

“Não foram as autoridades chinesas, foram as autoridades locais”, disse na altura o embaixador da China em Londres, Liu Xiaoming.

Mas um especialista em política chinesa na Universidade de Hong Kong, Willy Lam, disse à agência Reuters, também em Fevereiro, que as autoridades regionais do país acabam por ser sempre responsabilizadas pelo Governo central, seja qual for a sua reacção.

“Se eles tivessem sido totalmente transparentes e divulgassem a situação desde o primeiro dia, o secretário do partido e o presidente da câmara seriam despedidos, e a máquina de propaganda do Estado iria dirigir a fúria do povo contra os responsáveis locais”, disse Lam.

E a atitude dos Estados Unidos em relação à forma como a China e a Organização Mundial de Saúde responderam ao novo coronavírus também não foi sempre crítica, levando a oposição ao Presidente Donald Trump a acusá-lo de procurar um bode expiatório para os seus próprios erros no combate à pandemia no país.

Ainda no dia 24 de Fevereiro, Trump escreveu no Twitter que o novo coronavírus estava “sob controlo” nos Estados Unidos e elogiou a OMS pela forma “muito inteligente” como estava a trabalhar com o Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças norte-americano.

E, um mês antes, a 24 de Janeiro, três dias depois do primeiro caso confirmado nos Estados Unidos, e quando os serviços secretos norte-americanos já tinham alertado a Casa Branca para a possibilidade de a China estar a divulgar números inferiores à realidade, o Presidente Trump elogiou “os esforços e a transparência da China”.

“Tudo vai acabar bem. Em nome do povo americano, quero agradecer ao Presidente Xi Jinping”, disse Donald Trump no Twitter.