Ovar: o muro da saudade

Por estes dias, por estas bandas, ir “à fronteira” é uma expressão muito usada. Não são só as saudades, há coisas que precisamos mesmo de tratar.

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Ovar está com cerca sanitária desde que foi declarado Estado de Calamidade no concelho Adriano Miranda

Ao fim de três semanas — ou mais, o que importa?, os dias agora são todos iguais, não há sábados nem domingos, nem meses, nós por cá vamos no dia 31 da era corona –, vi o meu irmão. Cortou o cabelo, com a máquina de barbear, mas não se saiu muito mal, como uns e outros. Trazia uma gola a fazer de máscara e uma luva – era só uma, mas não lhe perguntei porquê, essas coisas agora passam-nos. Estava eu e a minha mãe, nós de um lado da barreira, ele do outro. A dois metros de distância, como manda a etiqueta. Só os quebrámos porque era preciso que ele me desse um envelope e que eu o recolhesse. Uns passos atrás e ali ficámos uns minutos, a olhar-nos, a falar de trivialidades.

Não furámos a cerca sanitária que desde 17 de Março isola Ovar do resto do mundo. A lei é a lei é a lei — e a saúde é a saúde é a saúde e é maior que a saudade é a saudade é a saudade. Mas foi difícil conter as lágrimas naquele momento. Não foram mais de cinco minutos — a lei é a lei é a lei —, mas resumiram uma eternidade dura e crua.

Eu e quase toda a minha família (e alguns amigos) estamos separados por vários muros. Eu moro em Santa Maria da Feira, eles no concelho de Ovar — e Ovar está isolado, rodeado por várias barreiras metálicas ou de cimento, algumas reforçadas com patrulhamento policial. Mesmo que vivêssemos no mesmo município, o estado de emergência que nos virou a vida do avesso desaconselharia que nos víssemos. Temos o telefone, o Zoom, o WhatsApp, governemo-nos.

No dia 1 de Abril, a minha mãe, que está em minha casa há mais de um mês, fez 74 anos. Foi um dia estranho, mas, ainda assim, feliz, dentro do seu género. Fizemos um bolo, cozinhámos camarões, cantámos os parabéns com a família do outro lado do ecrã. Ela ouviu música ao vivo pelo WhatsApp e até uns miúdos que nunca vira se ligaram para lhe mostrarem o bolo que tinham feito. Ela não disse, mas sei que lhe doeu não ver nem abraçar o meu irmão e os netos.

E, dois dias depois de ter feito anos, viu finalmente o filho, atrás de uma barreira de cimento. Não foi só ver por ver: o meu irmão tinha o vale com a pensão da minha mãe, era preciso entregá-lo para que ela o pudesse levantar. Para além de nos roubar o calor dos afectos, o cerco e o estado de emergência ainda nos causam problemas logísticos.

Por estes dias, por estas bandas, ir “à fronteira” é uma expressão muito usada. Não são só as saudades, repito, há coisas que precisamos mesmo de tratar. É verdade que a câmara municipal passa autorizações para situações específicas — e nós podíamos ter pedido uma para resolver o problema da pensão da minha mãe —, mas aproveita-se a boleia para matar a saudade. Dir-me-ão: não deviam fazer isso. Pedem-nos que fiquemos em casa, é o nosso contributo para contermos a pandemia de covid-19 — e nós, dentro do que podemos, cumprimos.

Não estou, nem de perto nem de longe, a incitar a estas fugidas à fronteira, mas entendo por que é que, numa freguesia rural, uns avós lá vão por uns minutos ver o neto num carrinho de bebé. Vi-os no dia em que eu própria fui à fronteira, cada um do seu lado da barricada, a uma distância de segurança. E também entendo os pais que se juntam para verem as três filhas que moram no concelho vizinho. Como entendo Karsten, de 89 anos, e Inga, de 85, que quase todos os dias se encontram na fronteira da Alemanha com a Dinamarca para poderem manter vivo o amor que os liga.

Sabemos que não devemos fazê-lo, mas antes dos moralismos e de nos atirarem achas na grande fogueira das redes sociais, convém lembrar que há pelo menos uma barreira mal colocada na freguesia de Arada, Ovar, que obriga uns quantos moradores a deixarem o carro de um lado da barricada e a ultrapassarem-na, a pé, para poderem entrar em casa. Todo o cerco tem as suas fragilidades — todo o ser humano tem as suas fragilidades, e as de muitos vareiros desaguam num muro.

A Páscoa foi há dois dias e, que me lembre, nunca passara uma Páscoa em tão pouca companhia. Quando era miúda, a chegada do compasso era uma verdadeira festa e em casa das minhas duas avós de Maceda, Ovar, juntávamo-nos todos, tios, primos, vizinhos e quem mais viesse por bem. Este domingo éramos “os três tristes”, como disse a minha mãe. Ainda falei com as minhas primas sobre a possibilidade de irmos à fronteira, mas não fomos. A lei é a lei é a lei — e é maior do que a saudade é a saudade é a saudade.

Quando o cerco acabar, já fantasiámos: vamos com marretas e picaretas deitar abaixo os muros que nos separam.