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Números e proporções na covid-19 – o que falta explicar

Entre 16 de março e 4 de abril morreram em Portugal mais 809 cidadãos do que o observado em igual período dos anos anteriores, sendo que apenas 295 desses casos podem ser explicados pela covid-19. Será que a concentração de esforços do sistema de saúde nesta pandemia não está a causar danos irreparáveis noutros doentes?

A atual situação de saúde pública que, literalmente, parou o planeta, tem merecido a atenção e preocupação de todos.

Diariamente, temos sido confrontados com notícias e imagens dramáticas vindas de todo o mundo, em particular de Itália e Espanha, em contraste com uma aparente acalmia que se vive em Portugal.

Não sendo um especialista em saúde pública, o certo é que os termos em que alguma dessa informação é apresentada ao grande público suscita alguma inquietação e, salvo melhor opinião, pode ser geradora de leituras pouco rigorosas.

Portugal e o seu contexto

Os dados relativos a esta pandemia, nomeadamente aqueles que suportam as comparações internacionais, têm sido apresentados pela generalidade dos agentes políticos e comunicadores de uma forma relativamente descuidada, conduzindo a leituras enviesadas que, se mal utilizadas no processo de decisão, pode ter consequências graves para o combate a esta calamidade e, consequentemente, para o futuro do país.

Na realidade, a simples divulgação dos números desta pandemia numa base de valores absolutos tem sido uma prática generalizada, colocando em patamares iguais países com caracteristicas diferentes e conduzindo a que se compare aquilo que não pode ser comparável.

Ignorar indicadores como a dimensão populacional dos países; a estrutura etária da população; a densidade populacional; o número de testes realizados; ou a data em que surgiu o primeiro caso de infeção, é analisar de forma superficial o fenómeno.

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O que falta explicar

A análise dos dados divulgados diariamente em Portugal sobre o número de óbitos em resultado da covid-19 tem gerado algumas duvidas.

Com efeito, se analisarmos o histórico de óbitos em anos anteriores, facilmente se constata que o número de óbitos registados a partir de 16 de março cresceu de forma acelerada, contrariando a tendência que se vinha a observar desde o inicio do ano e que indiciava que o ano de 2020 seria um ano com uma mortalidade abaixo da média.

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Na realidade, desde 1 de janeiro até 15 de março de 2020 tinham-se registado menos 1039 óbitos do que o registado para o mesmo período nos anos de 2009 a 2018 (média), registando-se uma forte inversão da trajetória a partir dessa data.

Será então que este movimento ascendente anormal pode ser explicado pela covid-19?

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Conforme se constata, no período compreendido entre 16 de março e 4 de abril, morreram em Portugal mais 809 cidadãos do que o observado em igual período dos anos anteriores (média de óbitos entre 2009 e 2018), sendo que apenas 295 desses casos podem ser explicados pela covid-19.

Daqui resulta que cerca de 514 óbitos registadas durante este periodo de 20 dias, ou seja, cerca de 25 casos por dia, não serão, aparentemente, explicados pela covid-19.

Perante isto, uma questão se coloca: será que a concentração de esforços do sistema de saúde nesta pandemia não está a causar danos irreparáveis noutros doentes? Ou será que estamos a contabilizar de forma incorreta os mortos por covid-19?     

A Democracia não está suspensa

Os tempos que vivemos são muito exigentes, impondo a todos, sem excepção, muita disciplina, rigor e unidade.

Contudo, isto não significa, nem pode significar, a suspensão da discussão democrática e aberta em torno de um tema que a todos diz respeito.

Não foi por questões de emergência nacional, e por estar “debaixo” da ameaça alemã em vesperas da Batalha de Inglaterra, que o parlamento inglês deixou de discutir, com veemência e calor, a bondade da estratégia britânica em relação ao conflito, obrigando o primeiro-ministro Chamberlain a demitir-se no dia 10 de maio de 1940.

A política do pensamento único, assente naquilo que, em cada momento, mais agrada à maioria, ofuscando dúvidas e inquietações, não foi, nem nunca será, a melhor forma de servir as organizações, nem tampouco os países. 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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