SOS-Criança recebeu no primeiro mês da covid-19 o dobro de chamadas atendidas em tempos normais

Sem aulas presenciais e fechadas em casa, crianças recorreram mais à linha SOS Criança 116 111 no mês de Março para falarem e serem ouvidas. Também os adultos ligaram mais para partilhar a preocupação sobre a covid-19, pedir ajuda ou denunciar situações de risco potencial.

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MIGUEL MANSO

Agora que o primeiro-ministro António Costa confirmou a realização do 3º período do ano lectivo sem aulas presenciais, o prolongamento do isolamento das crianças e dos jovens, que frequentam a escola para alunos até ao 9º ano, passou a ser uma certeza.

Não irão à escola, estarão mais isolados ou ligados às redes sociais, mas também a viver sem pausas no interior da casa que partilham com os seus cuidadores, pais ou outros familiares. Assim, o tom do apelo lançado por Manuel Coutinho, coordenador da Linha SOS-Criança 116 111 ​​e secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança (IAC), é agora ainda mais dramático. 

“Começam a esboçar-se sinais [de situações relatadas] que já indiciam que tempos um pouco mais duros ainda virão”, diz o psicólogo clínico e de saúde. 

Por isso, para o responsável nunca é demais lembrar que as crianças podem falar ou pedir ajuda, e devem fazê-lo sempre que necessário, para a linha gratuita 116 111, que existe desde 1988 e foi agora reforçada em número de profissionais e horário de funcionamento e em meios disponíveis como o WhatsApp através do número 91 306 94 04. 

Desde que passou a ser possível ligar por WhatsApp, a partir de Março deste ano, mais crianças tomaram a iniciativa de o fazer. Os dados disponíveis até ao momento mostram que crianças e adultos recorreram duas vezes mais a esta linha em Março do que em igual período do ano passado. O número de contactos telefónicos quase duplicou, ao subir de 103 (em 2019) para 205 (em 2020) nos 31 dias de Março.

Se a este número se juntarem os contactos feitos por email e Chat (soscrianç[email protected]ça.pt ou soscriança.ajudaonline.com.ptos números sobem para 231 (só em Março deste ano).

Um 112 para a infância

Manuel Coutinho reitera que “conforme existe o 112 para as emergências, existe esta linha gratuita para as crianças” pedirem ajuda ou para adultos que alertarem para uma situação de perigo. 

“O Instituto de Apoio à Criança (IAC), no momento em que percebeu que a epidemia da covid-19 iria obrigar ao encerramento das escolas, decidiu disponibilizar a linha para apoio a crianças ou jovens a precisar de ajuda no âmbito das circunstâncias que a epidemia podia trazer às crianças”, diz.

Circunstâncias essas que podem ser agravadas pelo convívio forçado e permanente em famílias onde já existiam problemas ou que agora estão sob maior pressão desde que em 12 de Março o primeiro-ministro anunciou o encerramento das escolas a partir de dia 16. 

“O IAC partiu do pressuposto de que o confinamento era susceptível de provocar em todos, adultos e crianças, um desgaste físico, psicológico e emocional e também nas relações que estas pessoas estabelecem entre si”, continua Manuel Coutinho. “E previu que isso iria afectar o equilíbrio social e familiar destas pessoas e provocar momentos de grande tensão, de alguma violência e que, neste contexto, o elo mais fraco ia ser a criança.”

Nas estatísticas reunidas pelo Instituto de Apoio à Criança, a covid-19 entrou na lista dos motivos que levam as crianças ou os adultos a ligar para pedir ajuda ou simplesmente “falar com alguém”. A linha passou a ter 11 técnicos de psicologia clínica e de saúde (em vez dos cinco habituais) e alargou o fim do atendimento das 19h para as 21h.

Têm acolhido queixas relacionadas com a ansiedade e o stress do momento actual, que vêm juntar-se às problemáticas anteriormente existentes.

Nas últimas semanas, surgiu pelo menos uma situação de conflitualidade familiar susceptível e uma situação ligada à exploração sexual já encaminhada para a polícia criminal. Além destes problemas, que podem agudizar-se, os técnicos do IAC estão também atentos a eventuais fugas de casa ou dos lares de acolhimento para crianças em risco.

Com a suspensão de visitas domiciliárias das equipas das comissões de protecção de crianças e jovens (que agora garantem um acompanhamento à distância) e sem contactos presenciais com colegas, professores e auxiliares das escolas, as crianças e os jovens ​estão em situação de maior vulnerabilidade.

Os perigos da Internet

É preciso estar especialmente atento, diz Manuel Coutinho, pois o contexto é particularmente propício à permanência das crianças nas redes sociais e ao aproveitamento dessa situação por adultos envolvidos em crimes de pornografia ou prostituição de menores.

Nas casas e nas famílias, os problemas e as dúvidas que se manifestam do outro lado da linha estão frequentemente relacionadas com o convívio, agora em confinamento, junto de adultos com doenças psiquiátricas, distúrbios anti-sociais, toxicodependência ou dependência do álcool. “Muitas vezes estas situações juntas são muitíssimo explosivas, o que aumenta muito o risco a que estão expostas as crianças”, avisa.

Ainda mais que o habitual, estas situações têm que ser conhecidas, porque, estando confinadas, as crianças não têm formas de alertar para as suas circunstâncias. Por isso apela a toda a comunidade para que pegue no telefone e exponha o caso se pressentir que uma criança, na sua rua, ou no seu prédio, ou sua amiga, possa estar a viver uma situação em que dificilmente será acudida.

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