Covid-19: equipa de 150 países (Portugal incluído) lança questionário para saber quem tem sintomas

Grupo de investigadores de 150 países está a recolher informação junto da população para estimar o número de casos reais com sintomas de covid-19 nos seus territórios, algo que lhes vai permitir traçar uma evolução da doença. O questionário está disponível online e todos podem responder. Artigo actualizado a 24 de Julho.

saude,ciencia,organizacao-mundial-saude,china,virus,doencas,
Foto
O projecto, que conta com investigadores de 11 países, está a ser alargado a outros territórios Nelson Garrido

Uma equipa internacional de investigadores quer saber quantas pessoas têm, afinal, sintomas do novo coronavírus em 150 países, lista onde também se inclui Portugal. A equipa, onde estão inseridos dois investigadores portugueses do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e da Universidade do Minho, está a estimar o número de casos com sintomas de covid-19, algo que lhes vai permitir traçar uma evolução da doença em diferentes nações.

Para tal, os investigadores estão a pedir às populações dos respectivos países para responderem a um questionário online que inclui três etapas. A primeira será escolher a sua área de residência e estimar quantas pessoas conhece nessa mesma área geográfica. Por fim, e “de acordo com o seu conhecimento” do estado de saúde destes cidadãos, terá de responder à seguinte pergunta: “Quantas destas pessoas apresentam sintomas compatíveis com a covid-19 ou foram diagnosticadas com esta doença?”

Em Abril, o projecto começou por incluir apenas 11 países (onde já estava Portugal), mas, ao longo dos últimos meses, foi alargado a 150 países e o inquérito foi traduzido em 60 línguas. Além disso, o questionário passou a incluir uma pergunta sobre casos recentes que o inquirido conheça, com o objectivo a identificar possíveis surtos.

De acordo com um comunicado do INESC TEC, no âmbito do projecto CoronaSurveys,​ estes dados são depois tratados e processados para eliminar respostas com valores discrepantes, usando técnicas estatísticas. Por fim, são comparados com outras estimativas que deduzem o número de casos “reais” a partir da evolução da mortalidade que é reportada nos dados oficiais dos países e da sua relação com a mortalidade dos casos reportados em Wuhan, na China, onde o vírus teve origem, e onde esta taxa ronda os 1,4%, para validar a sua precisão.

A resposta ao inquérito é anónima e o utilizador não precisará de responder qual a sua relação com pessoa diagnosticada ou com sintomas da doença. Além disso, cada um pode responder à sondagem várias vezes dependendo das pessoas que conhece em cada distrito/região do país.

Os resultados são actualizados pela equipa internacional de forma diária e estão a ser disponibilizados de forma aberta para consulta. Ao fornecer um número diário total de infectados sintomáticos, o projecto permite observar a evolução da covid-19 nos 150 países participantes, entre estes a Argentina, Chile, Chipre, França, Alemanha, Grécia, Itália, Japão, Reino Unido, Estados Unidos e Portugal. Além disso, é possível explorar o número de casos activos estimados em cada país.

Até meados de Julho, em Portugal, cerca de 1500 pessoas já tinham respondido ao inquérito dos investigadores. A equipa de Espanha, onde o projecto foi lançado, já conta com cerca de 5 mil respostas.

PÚBLICO -
Foto
Casos activos de infecção em Portugal CoronaSurveys

Uma perspectiva mais próxima dos casos existentes

“Ao contrário da simples observação do número de casos confirmados e reportados nos dados oficiais, e que têm sempre alguma dependência dos números de testes efectuados a cada dia, a nossa análise baseia-se num questionário à população. Embora as nossas estimativas não sejam totalmente precisas, espera-se que estejam na mesma ordem de magnitude do valor real, dando-nos uma perspectiva mais próxima do potencial de casos existentes que não foram identificados para testes. O que temos observado é que as estimativas são muito semelhantes a outros métodos indirectos utilizados”, refere, em comunicado, Carlos Baquero, que faz parte do grupo de investigadores e é docente na Universidade do Minho.

Em Espanha, por exemplo, os dados de 9 de Abril apontavam para cerca de dois milhões de casos confirmados, número muito superior ao boletim oficial do Governo que dá conta de cerca de 152 mil casos de infecção. Os valores obtidos pelos investigadores são, ainda assim, inferiores aos de outros estudos que têm vindo a ser publicados, como é o caso de uma investigação do Imperial College, em Londres, que apontava para que 15% da população espanhola estivesse infectada.

Em conversa com o PÚBLICO, Carlos Baquero afirma que os resultados dos testes serológicos feitos em Espanha estão “muito próximos” dos valores previstos pelos investigadores, algo que esperam que também aconteça com Portugal quando o Instituto Nacional de Saúde Dr Ricardo Jorge (INSA) divulgar os dados portugueses deste estudo.

Em Portugal, os dados da equipa sugeriam, a 9 de Abril, a existência de 60 mil casos, enquanto a Direcção Geral da Saúde (DGS) disse existirem 13 mil casos casos de infecção confirmados. “Não pretendemos criar alarmismos. O nosso objectivo é aperfeiçoar este tipo de instrumento, validar a sua utilização e aplicá-lo no futuro em outras situações. Havendo regiões do mundo com menos capacidade de teste laboratorial, mas onde os meios digitais já oferecem uma boa abrangência, este tipo de abordagem poderá revelar-se um complemento útil para o acompanhamento rápido da evolução de pandemias”, reforça ainda Carlos Baquero. O investigador diz ainda que a qualidade dos dados depende também do tipo de informações que as autoridades de saúde divulgam.

Segundo a página do projecto, que justifica a sua importância pela discrepância na avaliação da epidemia por parte de cada Governo, “qualquer forma de avaliar o número de pessoas com sintomas compatíveis com os da covid-19 e com um nível razoável de precisão é útil”.

A investigação, que começou em Espanha no início de Março, continua a ser alargada a outros países para que os investigadores possam ter uma ideia mais clara de como evoluiu a doença em diferentes nações. A equipa mundial está agora em busca de apoios para dar continuidade ao projecto.

Artigo actualizado a 24 de Julho: foram acrescentadas novidades sobre o projecto, entre estas a actualização do número de países a participar.

Sugerir correcção