Responsável da ONU e WWF apelam à proibição de mercados de vida selvagem

Para que se evitem futuras pandemias, Elizabeth Maruma Mrema apelou à proibição dos mercados de vida selvagem, mas também pede que se criem alternativas para as comunidades cujo sustento provém daqui.

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Crocodilos à venda num mercado em Cantão, na China, em 2018 ALEKSANDAR PLAVEVSKI/EPA

Ainda não há conclusões, mas como o início da pandemia de covid-19 pode ter tido início num mercado na cidade chinesa Wuhan, têm surgido diferentes vozes a pedir a proibição definitiva de mercados de vida selvagem. Esta segunda-feira, numa entrevista ao jornal britânico The Guardian, Elizabeth Maruma Mrema (secretária-executiva do Secretariado da Convenção sobre a Diversidade Biológica, um tratado das Nações Unidas) apelou à proibição dos mercados de vida selvagem para que se evitem futuras pandemias. Com base num estudo agora divulgado, também a World Wide Fund for Nature (WWF) pede em comunicado aos Governos locais que fechem os mercados de vida selvagem da Ásia oriental. 

A pandemia da covid-19 trouxe para a ribalta as doenças zoonóticas, que se transmitem de animais para humanos. Por agora, há apenas provas de que existe uma ligação entre o novo coronavírus SARS-CoV-2 e outros coronavírus encontrados nos morcegos e que o intermediário pode ter sido um pangolim. Outras epidemias, como a da SARS, MERS e as do ébola, também estão relacionadas com zoonoses. E algumas delas podem estar relacionadas com a venda de animais selvagens em mercados. 

Para reagir a esta pandemia e porque o seu início pode estar ligado a um mercado, o Congresso Nacional do Povo da China adoptou a 24 de Fevereiro legislação que proíbe o consumo de qualquer animal selvagem caçado na natureza ou criado em cativeiro, de acordo com um artigo publicado por cientistas chineses na revista Science.

Na entrevista ao The Guardian, Elizabeth Maruma Mrema disse que os países devem actuar para evitar futuras pandemias ao proibir os mercados que vendem animais vivos e mortos domésticos ou selvagens para consumo humano. Ao mesmo tempo, pede cautela quanto às consequências imprevisíveis.

“A mensagem que estamos a receber é a de que, se não cuidarmos da natureza, ela cuida de nós”, afirmou. “Seria bom proibir mercados de animais vivos como a China e outros países fizeram, mas também não nos devemos esquecer de que temos comunidades, sobretudo em áreas rurais com baixos rendimentos, que dependem dos animais selvagens para seu sustento.” E considerou: “A menos que se arranjem alternativas para essas comunidades, poderá haver o perigo da abertura de mercados ilegais de vida selvagem, o que actualmente já está a levar à extinção de algumas espécies.” Por isso, referiu que deve existir um equilíbrio quanto a esta questão para que “se feche o buraco do comércio ilegal no futuro”.

Em artigos publicados na Science, cientistas da China pediram precisamente que o Governo chinês trabalhasse em conjunto com as comunidades para que a proibição do consumo de animais selvagens fosse eficaz. Sugeriram que fossem criados subsídios e apoios financeiros para facilitar a transformação da indústria agrícola ligada às espécies selvagens, bem como para ajudar na transição da produção da medicina tradicional chinesa.

Elizabeth Maruma Mrema também está confiante que, depois da pandemia, o mundo leve mais a sério as consequências da destruição da biodiversidade e que isso se reflicta no Quadro Global da Biodiversidade Pós-2020, conhecido como o Acordo de Paris para a natureza. “A perda de biodiversidade tem-se tornado um grande factor no aparecimento de alguns destes vírus. A desflorestação em larga escala, a degradação e fragmentação do habitat, a agricultura intensiva, o nosso sistema alimentar, o comércio de animais e plantas e as alterações climáticas de origem antropogénica – todos estes [factores] conduzem à perda da biodiversidade e a novas doenças”, disse a secretária-executiva.

Extremamente ou muito preocupados

Esta segunda-feira, a WWF e a empresa GlobeScan apresentam os resultados de um estudo de opinião feito em Março a 5000 pessoas de Hong Kong, Japão, Birmânia, Tailândia e Vietname. Resultados: 82% dos entrevistados estão “extremamente ou muito preocupados” com a pandemia e 93% deles no Sudeste asiático apoiam as acções dos seus governos para eliminar mercados ilegais e não regulados que vendam animais selvagens.

Já no Japão 59% dos inquiridos disseram que não existem mercados deste tipo no seu país. “No Japão, os mercados abertos de carne de animais selvagens não são predominantes. Portanto, isso pode explicar por que apenas 54% afirmaram que apoiariam esses esforços do governo”, refere-se no comunicado da WWF.

Mas ainda há outros resultados a destacar: 9% dos entrevistados afirmaram que eles próprios ou alguém que conhecem compraram animais selvagens num mercado nos últimos 12 meses. E 84% responderam que “não é provável” ou “é muito improvável” que comprem produtos de animais selvagens no futuro.

Com base nestes resultados, a WWF apela que se encerrem os mercados ilegais de animais selvagens. “A situação actual destaca a necessidade de acções urgentes para reequilibrar o nosso relacionamento com a natureza, por forma a reduzir o potencial de doenças futuras”, lê-se. E dá-se ainda o exemplo de que as populações de espécie de vertebrados no planeta caíram cerca de 60% desde 1970 e que, em média, 25% das espécies globais estão ameaçadas de extinção, segundo um relatório de 2019 da Plataforma Intergovernamental de Ciência e Políticas sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas.

Sobre os resultados do estudo, Ângela Morgado (directora-executiva da Associação Natureza Portugal/WWF) afirma: “A China tomou já grandes medidas proibindo a caça, o comércio, o transporte e a alimentação de animais selvagens, e o Vietname está a trabalhar em directrizes semelhantes. Todos os países do mundo deverão juntar-se às vozes destas populações que estão a pedir aos governos asiáticos para encerrar mercados ilegais ou não regulados de animais selvagens de uma vez por todas para salvar vidas e ajudar a evitar a repetição da perturbação social e económica que enfrentamos hoje em todo o mundo.”

Já Catarina Grilo, directora de conservação e políticas da Associação Natureza Portugal/WWF destaca que os mercados ilegais de vida selvagem são uma preocupação tanto para a saúde humana como para a saúde do planeta: “Para a saúde do planeta porque promovem a captura de animais selvagens e as suas populações na natureza ficam seriamente ameaçadas pela diminuição do número de animais. Para a saúde humana porque os mercados ilegais de vida selvagem são uma fonte de doenças para as pessoas, doenças essas para as quais não temos imunidade suficiente nem capacidade para combater eficazmente.”

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