Covid-19: Guerra das máscaras cria tensão entre aliados, com acusações de “pirataria”

Alemanha acusa os Estados Unidos de desviarem um carregamento com máscaras destinado à polícia de Berlim. Medidas do Presidente Donald Trump levaram o Canadá a endurecer o discurso.

Nicole McCullough, uma médica norte-americana, ensina a usar correctamente a máscara N95
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Nicole McCullough, uma médica norte-americana, ensina a usar correctamente a máscara N95 Reuters/Nicholas Pfosi

Os Estados Unidos foram acusados de desviarem um carregamento com 200 mil máscaras de protecção da multinacional 3M que estava destinado à polícia de Berlim, uma acção que o responsável pela segurança interna na capital da Alemanha classificou como “pirataria moderna”.

Num comunicado publicado na sexta-feira, Andreas Geisel confirmou uma notícia publicada pelo jornal alemão Tagesspiel e disse que o carregamento foi “confiscado” em Banguecoque, na Tailândia. A 3M fabrica grande parte das suas máscaras na China e em países da América Latina, e os carregamentos são exportados através de vários entrepostos, incluindo na Tailândia.

“Consideramos que isto é um acto de pirataria moderna”, disse Geisel. “Não é assim que lidamos com parceiros transatlânticos. Nem numa crise global podemos usar métodos do faroeste.”

Andreas Geisel disse ainda que as autoridades de Berlim “presumem que [o desvio do carregamento] está relacionado com a proibição de exportação de máscaras decretada pelo Governo dos Estados Unidos”.

Mas a multinacional norte-americana não confirma a notícia do jornal alemão. Segundo o Financial Times, a 3M “não tem registo de nenhuma encomenda de máscaras da China para a polícia de Berlim”.

Proibir exportações

À medida que a pandemia do novo coronavírus vai pressionando os serviços de saúde dos países mais ricos do mundo, as máscaras e outro material de protecção tornaram-se no ouro que os governos tentam comprar e armazenar em grandes quantidades.

Na noite de quinta-feira, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, invocou uma lei aprovada em 1950, aquando da Guerra na Coreia, para ordenar à 3M que dê prioridade aos estados norte-americanos na venda de material de protecção.

A empresa está agora proibida de exportar os seus produtos, mesmo os que são fabricados fora dos Estados Unidos e que já estavam encomendados por outros países.

“Precisamos deste material com urgência para uso no nosso país”, disse Donald Trump na sexta-feira, admitindo abrir excepções para pedidos de Itália e Espanha, os dois países mais afectados pela pandemia.

Numa reacção à decisão da Casa Branca, o presidente executivo da 3M disse que a empresa já estava a dar prioridade ao mercado norte-americano e vai agora reforçar essa política, em cumprimento da Lei de Defesa da Produção.

Mas deixou também o aviso de que a proibição da exportação pode ter “graves implicações humanitárias” nos sistemas de saúde do Canadá e da América Latina, regiões que importam quase todo o seu equipamento à gigante norte-americana.

“Além disso, a proibição de todas as exportações de máscaras produzidas nos Estados Unidos deverá levar outros países a fazerem o mesmo como retaliação, o que alguns já fizeram”, disse a empresa num comunicado publicado na sexta-feira. “Se isso acontecer, o número total de máscaras disponíveis nos Estados Unidos vai diminuir, o que é o oposto daquilo que nós e a Administração desejamos, em nome do povo americano.”

Trudeau critica “erro” de Trump

Numa primeira reacção ao possível fim das exportações para o Canadá, o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, classificou a decisão como “um erro” e avisou que “o nível de integração entre as duas economias tem impacto em ambos os lados”.

“Milhares de enfermeiras atravessam a ponte em Windsor, todos os dias, para irem trabalhar no sistema de saúde de Detroit. Os americanos contam com este tipo de trocas, e seria um erro criar barreiras ou reduzir a quantidade de trocas de bens essenciais e serviços entre os nossos países.”

A guerra das máscaras tem criado tensões entre países aliados, incluindo no interior da União Europeia, e pode ter consequências na forma como se decide a produção de bens da área da saúde, hoje feita segundo as regras de deslocalização para territórios onde os salários são mais baixos.

No início do mês, o Governo da Alemanha proibiu a venda ao estrangeiro de equipamento médico de protecção e reteve carregamentos com destino a países vizinhos, o que originou fortes críticas na Suíça e na Áustria. “A Alemanha não pode reter produtos destinados à Áustria só porque estão armazenados em locais na Alemanha”, disse na altura a ministra austríaca da Economia, Margarete Schramboeck.

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