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Viagens de poltrona: navegar sem sair do lugar

O sofá é a forma mais segura de viajar por estes dias. A bordo do cinema, da música, da literatura não faltam mundos para explorar – reais ou imaginários.

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Joao Silva

“O estacionamento é o início da viagem.” Há um par de meses, calhou-me esta meia-dose de filosofia barata num talão de parque de estacionamento. Deu para rir um bocado, inspirou um post irónico no Instagram e morreu por ali. Ao cabo de duas semanas de confinamento, o pensamento de pacotilha voltou-me à memória. Não que tenha ganho contornos de revelação, mas porque dei por mim estacionado, em casa. E a pensar em viagens.

Quando olhamos demasiado tempo para as mesmas quatro paredes, começamos a ver nelas relevos, desenhos, padrões, imperceptíveis no olhar fugaz de um quotidiano normal. Com a dose certa de tédio, descobre-se toda uma topografia minuciosa nas coisas mais insuspeitas do dia-a-dia. Ao darmos por isso, já estamos a viajar, sem sair do lugar.

A imobilidade não é inimiga da viagem. Em 1794, Xavier de Maistre fez toda uma travessia sem sair do seu quarto em Turim, onde cumpria 42 dias de prisão domiciliária, e pô-la por escrito em Viagem à volta do meu quarto. “Proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo inteiro”, concluiu, já em jeito de “regresso a casa”.

As grandes viagens, assim como as pequenas, começam na posição sentada. (Uma certa forma de estacionamento, portanto.) O que muda é o assento – de avião, de comboio, de mota, do que for. Até quem viaja pelo seu pé começa sentado, a ganhar coragem para o primeiro passo. As viagens de poltrona não são diferentes.

Por estes dias de distanciamento social, partir para outros lugares só é possível a bordo da poltrona. Ela é, porventura, a peça de mobiliário mais cosmopolita de uma casa. É um espaço propenso à divagação, como a rampa de lançamento que nos aponta para longe. Nela nos aninhamos no aconchego de um livro e dela se avista o ecrã da televisão. Além disso, faz também de lugar de plateia para escutar discos e de bancada de estádio para videojogos.

Os livros, os filmes, as séries de televisão, as canções, os jogos são, se repararmos, vias de escapismo, realidades alternativas com o dom de arrancar-nos temporariamente do mundo que nos envolve. Alguns levam esse arrebatamento mais longe e largam-nos, como se fôssemos o homenzinho amarelo do Google Maps, no lugar onde se desenrolam – umas vezes real, outras imaginário.

Há um fascínio especial nos lugares que não existem, destino por excelência para digressões no sofá. Neles, cada passo, cada esquina dobrada tem um sentido de descoberta que o mundo real, na era das redes sociais e do Street View, deixou de ter. Isso a par de um certo sentido de transgressão, de voyeurismo, como se o leitor/espectador/jogador avançasse por territórios onde não era suposto ter entrado.

A viagem imaginária tem também a virtude de nos poupar certos embaraços: não há imprevistos, voos atrasados, quartos de hotel que não são bem o que o website prometia. Não há sequer perigos à espreita, azares ou aborrecimentos, apenas os momentos bons. Aqueles que, por impulso, tendemos a partilhar online para fazer inveja aos amigos. A diferença é que estes, pela sua não-existência, se tornam mais difíceis de converter em posts de Instagram. Mas é para essa finalidade que temos, por exemplo, as frases de pacotilha. Afinal, o estacionamento pode mesmo ser o ponto de partida. Boas viagens.

* jornalista e autor do website Grémio Geográphico

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