Pedro sente-se curado da covid-19 mas não quer sair de casa sem um teste que o confirme

Depois de um internamento hospitalar e de um período de recuperação em casa, Pedro Simões, um gestor de marketing, de 30 anos, recebeu da delegada de saúde “luz verde” para sair de casa. Porém, sem direito a testes de confirmação. Com receio de contagiar os outros, Pedro recusou-se a sair de casa. E continua a aguardar que lhe façam o teste.

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Pedro Simões, 30 anos, sente-se desconfortável em voltar a trabalhar sem teste que confirme resultado negativo DR

Pedro Simões, um gestor de marketing e comércio electrónico numa empresa que produz componentes de bicicleta em Águeda, no distrito de Aveiro, acredita estar curado da covi-19. Depois de um período de internamento hospitalar e outro de isolamento no quarto, recebeu sexta-feira da delegada de saúde local autorização para retomar a vida dentro da normalidade possível. O problema é que não lhe foi feito nenhum teste laboratorial para confirmar que está curado. “A delegada disse que não está nas orientações da Direcção-Geral de Saúde que eu tenha de fazer esses testes. E eu pedi-lhe que me mandasse isso por escrito porque não me sinto confortável. A minha empresa vai voltar ao trabalho esta segunda-feira, depois de duas semanas de quarentena, e eu não sei se vou para lá infectar alguém. E na rua, quando perceberem que não fiz os testes, as pessoas vão ficar com medo”, sustentou.

De facto, as orientações da DGS apontam a necessidade de dois testes negativos, com um intervalo de 24 horas, para que alguém infectado possa integrar a lista dos 43 portugueses curados da covid-19. Mas só face à sua insistência, e à recusa em sair de casa sem que um teste confirme que está curado, é que Pedro Simões recebeu, já durante o fim-de-semana, a indicação de que, afinal, deverá aguardar confinado mais uns dias até que lhe seja marcado um novo este laboratorial. “Os sintomas passaram e quero muito poder sair. Mas sem essa confirmação não me sinto confortável”, insiste, em declarações ao PÚBLICO, enquanto conta os minutos que lhe faltam para poder voltar a sentir o sol na pele e passear o seu labrador Buddy por uns instantes. “Estas quatro paredes já começam a parecer-me uma prisão.”

Ao contrário do coronavírus, que se espalha à velocidade da luz, o processo de recuperação dos doentes infectados é lento. No caso da mãe e da filha de Ovar diagnosticadas com a covid-19, com 41 e 17 anos de idade, respectivamente, os primeiros sintomas começaram no fim de Fevereiro. Mais de um mês depois, continuam à espera de “fazer parte da lista dos curados”, conforme adiantou sexta-feira ao PÚBLICO a progenitora. “Ainda me sinto muito cansada, mas já fiz um novo teste - é o quarto - e espero que dê negativo. Se assim for, na segunda-feira vou repetir o teste para confirmar esse resultado e aí já vou poder passear um bocadinho no pinhal.”

Brufen, uma manta e um saco 

Descontado o problema da confirmação laboratorial, Pedro Simões, com 30 anos de idade, olha para a trajectória da sua doença como um caso de prova superada. No seu caso, os primeiros sintomas – febre, dores de cabeça e no corpo e calafrios – recuam ao dia 10 de Março. Fracassadas as tentativas de contactar a Linha SNS 24, deslocou-se directamente ao hospital de Águeda. “Fui para uma sala de isolamento, que era o bar do hospital transformado, com uma maca, um telefone e um balde do lixo. Entretanto, veio um médico com um fato de ‘astronauta’ que me perguntou sobre os sintomas e, daí em diante, passei a ser contactado pelo telefone”.

Enquanto esteve neste hospital, recebeu Brufen para a febre, uma manta para se cobrir e um saco para fazer as necessidades. A autorização para ir a Coimbra fazer o teste só chegou no dia seguinte. “Fui numa ambulância e, quando lá cheguei, esperei uma hora deitado na maca porque o INEM tinha-se esquecido de avisar o hospital de que estávamos a chegar”. Quando entrou, foi tudo mais rápido. “O médico examinou-me o peito – não tinha sintomas de pneumonia - espetou-me com um cotonete gigante no nariz e na garganta, deram-me comprimidos para baixar a febre e comida. Quando o resultado deu positivo, engoli em seco durante cinco segundos e decidi encarar isso como uma desafio e como uma luta.” Seguiram-se o encaminhamento para uma sala de pressão negativa, essa sim, totalmente isolada, com casa de banho privativa e uma copa para os profissionais médicos se equiparem, medições de tensão, raio-x ao peito, análises sanguíneas, verificação do oxigénio, paracetamol. “Sentia-me recuperar e, no dia 17 de Março, tive alta, também porque havia muitos doentes a chegar e precisavam de camas”.

A tecnologia na palma das mãos

Em casa, tem-se mantido isolado no quarto, com a mãe a deixar-lhe pequeno-almoço, almoço e jantar do lado de fora da porta. Sai quando precisa de usar a casa de banho. Nessas ocasiões, não dispensa a máscara. “Criei um grupo no Facebook, o Vencer Coronavírus Portugal, para tentar ajudar algumas pessoas infectadas ou com dúvidas. Se houve lição que tirei daqui é que não vivemos sozinhos e que o mundo nos está a alertar para a necessidade de cuidarmos melhor uns dos outros”, disse ao PÚBLICO.

Não chegou a sentir medo. Antes de a pandemia nos invadir as ruas e as casas, Pedro Simões mantinha-se informado sobre o que se passava na China. “Estava ciente da doença e do problema.” Nos momentos em que a sanidade mental periclitou, mergulhou em “histórias de superação” de figuras como Bill Gates e Dalai Lama. “É um conselho que deixo a quem está em isolamento: leiam mensagens positivas e reservem apenas uma meia hora por dia para as notícias.

Por causa da covid-19, Pedro Simões está há quase um mês sem um toque humano. “É um bocado estranho não poder abraçar nem beijar ninguém. Mas seria pior se não tivéssemos a tecnologia na palma das mãos. As redes sociais ajudaram nesta parte do isolamento e a quebrar um bocado essa necessidade do toque”, relativiza, garantindo, porém, que, quando sair do isolamento e esta pandemia abrandar, verá com outros olhos “a liberdade de ir a Vigo comer um gelado” ou “ir e vir do Porto no mesmo dia só para estar com um amigo”. “Costumo dizer na brincadeira que sou ‘fã da urgência’: se é para fazer então faz-se. E parece-me que essa postura sai reforçada disto tudo”, brinca, dizendo-se convencido que o mundo sairá melhor desta pandemia. “Nem o país nem o mundo estavam preparados para isto, embora houvesse vários sinais de alerta, como as alterações climáticas, por exemplo. Mas acredito que, depois disto, de pararmos e de reflectimos todos, vamos ter um novo mundo”.

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