O ano em que a Feira de Março não se realiza

Quebrou-se uma longa tradição. Era o início de temporada para muitos comerciantes, que já só rezam para que o surto não afecte também outros eventos.

Montanha russa
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Este ano, pela primeira vez nos seus 39 anos de vida, Hugo Correia não festejará o seu aniversário na Feira de Março. Fizesse frio ou calor, a cada 2 de Abril este comerciante apagava as velas na rulote de venda de farturas da família. O negócio foi iniciado pelo avô, em 1931, e esteve sempre presente no tradicional e secular certame de Aveiro. Em 2020, o ciclo irá ser interrompido, como em tantas outras coisas que dávamos como garantidas. A Feira de Março não abrirá portas este ano, devido ao surto pandémico do Coronavírus.

Entre as mais de duas centenas de empresas que se preparavam para assentar arraiais no Parque de Feiras de Exposições de Aveiro, de 25 de Março a 26 de Abril, está o negócio da família de Hugo Correia, as Farturas Família Armando. “Estamos muito tristes pela tradição que se perde, sempre fizemos esta feira”, desabafa o empresário. Mais do que lamentar as vendas que não irá fazer, faz contas aos salários que terá de pagar sem gerar receitas. Mais grave ainda. Como  a venda ambulante é uma actividade sazonal, de apenas seis meses, teme que o cenário de crise se possa estender para além do calendário da Feira de Março.

Também o seu concorrente Mário das Farturas, empresa sediada em Santa Marta de Penaguião, vai fazendo votos de que esta crise pandémica passe rápido. “Nem quero pensar que não vamos poder fazer o Senhor de Matosinhos”, desabafa o empresário Mário Taveira. “A Feira de Março nem é dos eventos mais lucrativos que fazemos, vale mais pela tradição, mas as festas de Matosinhos são muito importantes”, refere, realçando, assim, os festejos que costumam ocorrer a partir de finais de Maio e até meados de Junho.

Para Hugo, Mário, e tantos outros comerciantes, o certame aveirense funciona como uma espécie de “início de temporada” e por mais que a feira não seja dada a grandes lucros, história é coisa que não lhe falta. São 586 anos de existência, com muitas estórias para contar. Começou na zona da Beira-Mar, junto ao Canal Central, passando, mais tarde, para o largo do Rossio e Alboi, seguindo, depois, para o parque municipal das feiras e exposições situado no centro da cidade (já desaparecido) e, actualmente, “mora” no novo Parque de Exposições de Aveiro.

O certame já enfrentou muitas tempestades – aliás, em Aveiro costuma dizer-se que a feira traz consigo o mau tempo -, protestos de feirantes e crises económicas, mas não há memória de um golpe igual a este. “Desde 1931, pelo menos, que foi o ano em que os meus avós começaram a ir para a Feira de Março, nunca falhou”, aponta Hugo Correia.

Certame com escala regional

A importância da Feira de Março estende-se para além das fronteiras da região de Aveiro, não só pela origem geográfica dos comerciantes e expositores presentes, mas também dos próprios visitantes. O certame ganhou o estatuto de “maior mostra económica da região Centro e um dos maiores parques de diversão do país”.

Para a edição deste ano estavam prometidos 60 carrosséis e outros divertimentos, no sector de exposição eram esperadas 125 empresas, e o sector comercial (na zona exterior) tinha confirmadas 65 empresas. A estes atractivos juntava-se, depois, um cartaz de concertos encabeçado por nomes como os The Black Mamba, Expensive Soul, João Pedro Pais, Ana Malhoa, David Carreira, Anjos e Aurea, entre outros artistas.

A câmara municipal de Aveiro escusa-se, para já, a avançar com o montante previsível dos prejuízos. Acima de tudo, porque entende que o momento actual exige que todas as atenções estejam centralizadas nas necessidades de actuação e medidas de apoio para combater o surto pandémico. Com a certeza também, segundo adiantou fonte do gabinete da presidência ao PÚBLICO, que a contabilização dos prejuízos ainda levará algum tempo até estar concluída.

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