Governo britânico decreta isolamento social rigoroso por causa do coronavírus

Os britânicos apenas vão poder sair de casa para satisfazer necessidades básicas, todas as lojas que vendam bens não essenciais vão fechar, ajuntamentos com mais de duas pessoas estão proibidos e todos os eventos sociais cancelados.

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O fluxo de passageiros caiu 70% desde o início da pandemia no Reino Unido WILL OLIVER/LUSA

O Governo do Reino Unido decretou esta segunda-feira novas medidas para combater a propagação do coronavírus. Os britânicos apenas vão poder sair de casa por motivos de força maior, todas as lojas que vendam bens não essenciais vão ser encerradas, os ajuntamentos com mais de duas pessoas estão proibidos e todos os eventos sociais cancelados. As medidas foram anunciadas no mesmo dia em que o executivo vai passar a controlar, por pelo menos seis meses, os caminhos-de-ferro para salvar as empresas do sector, depois de o fluxo de passageiros ter caído 70%. 

O Reino Unido tem 6650 casos, 335 mortes e 135 pacientes curados. Prevê-se que os números subam substancialmente nas próximas semanas, até se atingir o pico de infecções. 

Num discurso aos britânicos, o primeiro-ministro, Boris Johnson, voltou a apelar às pessoas que permanecessem isoladas em casa para salvaguardar o Serviço Nacional de Saúde e a população de risco, quem tenha outros problemas de saúde, principalmente respiratórios, e os idosos.

“Peço ao povo britânico que respeite uma instrução muito simples: deve ficar em casa, porque temos de evitar que a doença se espalhe pelas nossas casas”, disse Johnson, referindo que o Estado vai comprar milhões de testes para a covid-19. “Sem um grande esforço nacional para travar a propagação deste vírus, há um momento em que nenhum serviço de saúde do mundo consegue aguentar, porque não haverá suficientes ventiladores, camas nos cuidados intensivos e médicos e enfermeiros”. 

O primeiro-ministro anunciou de seguida que os britânicos apenas poderão sair de casa por razões essenciais, como comprar comida ou medicamentos, fazer exercício uma vez por dia (sozinho ou apenas com membros da casa onde vive) e ir trabalhar. Os estabelecimentos de bens não essenciais, como lojas de roupa ou equipamento electrónico, jardins e locais de culto vão fechar portas, os ajuntamentos com mais de duas pessoas em espaços públicos foram proibidos e todos os eventos sociais cancelados.

As medidas vão durar três semanas e, depois, o executivo vai voltar a analisar a situação para decidir se as prolonga ou não. Mas, por enquanto, a polícia vai estar nas ruas para garantir que são cumpridas e quem não o fizer arrisca-se a ver uma multa ser passada em seu nome. 

O discurso de Johnson desta segunda-feira é uma clara mudança de postura do Governo, caminhando para uma abordagem à italiana. O executivo tem sido criticado por ter optado, na fase inicial da pandemia, por uma estratégia que promove a imunidade de grupo, obrigando a um contágio maciço de 60% da população, para combater o coronavírus, e por resistir a avançar com medidas drásticas de isolamento social. A ser seguida, esta estratégia iria sobrelotar o serviço nacional de saúde britânico e mais de meio milhão de pessoas iriam morrer, disseram especialistas ao Governo, segundo o semanário Sunday Times

De acordo com o semanário, esta abordagem foi promovida pelo principal conselheiro de Johnson, Dominic Cummings, com o executivo a responder tratar-se de uma “grave fabricação difamatória” e que citações foram “inventadas”. Referindo fontes do Partido Conservadores, o semanário diz que Cummings se opôs a medidas mais drásticas ao defender “imunidade de rebanho, proteger a economia e se isso significar que alguns pensionistas morram, assim seja”. Mas, a partir de 12 de Março, depois de uma reunião com os tais especialistas, mudou de posição e passou a ser um dos principais defensores de medidas drásticas. 

Uma previsão catastrófica que obrigou o Governo a mudar de estratégia, ainda que lentamente. Depois de grande resistência, o executivo ordenou o encerramento de todas as escolas públicas e de bares e sugeriu aos britânicos que adoptassem medidas de isolamento social, com Johnson a recusar criticar directamente quem não o faça, diz o Guardian. A preocupação aumentou quando, este fim-de-semana, circularam na imprensa e redes sociais fotografias e vídeos de centenas de britânicos em mercados, praias e parques, a conviver sem qualquer distância de segurança. 

Numa postura que contrasta com a recusa de Johnson, o secretário de Saúde, Matt Hancock, acusou, em declarações à BBC, aqueles que têm saído de casa para confraternizar de serem “muito egoístas”, ao arriscarem as vidas de concidadãos. “Parem. Se não o fizerem, vamos ter de avançar com mais medidas”, avisou Hancock, acrescentando que medidas mais restritivas, como recolher obrigatório e encerramentos compulsivos, podem ser decretadas “muito em breve”. Johnson já o tinha avisado no domingo e, perante o receio de uma ainda maior propagação do vírus, o chefe de Governo não quis esperar mais tempo. 

Salvar empresas

Horas antes de anunciar novas medidas, Downing Street tinha avançado com uma medida inédita para salvar as empresas dos caminhos-de-ferro britânicos: assumir o seu controlo por pelo menos seis meses, recolhendo as receitas e arcando com os custos. 

“O Departamento dos Transportes vai suspender temporariamente todos os acordos e transferir todas as receitas e riscos de custos para o Governo por um tempo limitado, inicialmente de seis meses. Os operadores vão continuar a gerir os serviços do dia-a-dia por uma ​taxa de administração pré-determinada . Os termos e condições de emprego dos trabalhadores não vão mudar”, anunciou em comunicado o executivo. A taxa será até 2% dos custos da operação de gestão anteriores à pandemia. 

Muitos britânicos estão a seguir as recomendações do Governo para ficarem em casa e evitarem todo o contacto social, o que fez com que o número de passageiros caísse cerca de 70%. “Estamos a tomar esta acção para proteger trabalhadores essenciais que dependem dos nossos caminhos-de-ferro e poderem desempenhar as suas tarefas, os trabalhadores que alteraram radicalmente as suas vidas para combater a propagação do coronavírus e os trabalhadores ferroviários que estão na linha da frente para manter o país a funcionar”, justificou o secretário dos Transportes britânico, Grant Shapps. 

Privatizados na era da primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher, o funcionamento dos caminhos-de-ferro tem sido alvo de críticas constantes, com o Partido Trabalhista a defender a sua nacionalização. Na última campanha para as eleições legislativas, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, recusou voltar a nacionalizá-los, prometendo um investimento de 100 milhões de libras e a reorganização do sector. Mas a crise da pandemia mudou tudo e o sector vê-se agora em crise. E, diz o Guardian, esta medida é na prática uma nacionalização.