Reuters/DANIELE MASCOLO
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Diário da quarentena

Quarentena e aniversário: festejar dentro de casa

Estar a viver numa cidade em lockdown no dia em que se completa 22 anos não é tão triste quanto possa parecer, afinal o dia foi inundado da presença de todos, seja pessoalmente, seja digitalmente.

Celebrar o aniversário durante o período de Erasmus já seria inesquecível, mas juntando estar em isolamento naquele que foi o primeiro foco europeu do novo vírus [Itália] dá um toque ainda mais especial à data. A quarentena não pára por estar a chegar aos 22, nem o aniversário espera por estar a passar por uma pandemia. O que todos anteviam que seria um dia menos alegre do que é costume, por estar de quarentena, mostrou-se apenas sendo uma alegria diferente.

O dia anterior ao aniversário é ocupado entre a primeira ida ao supermercado e a confecção do bolo. Depois de oito dias sem sair de casa, a necessidade de ir às compras de alguns alimentos parece a melhor parte da semana. Uma caminhada de dez minutos até ao supermercado mais próximo é a forma de aproveitar o ar livre para compensar todo o tempo de isolamento que ainda vem pela frente.

As ruas mostram uma Milão diferente. Numa cidade tão cosmopolita, o silêncio é atípico e dá uma sensação de estranheza. No percurso, não se vê ninguém na rua e poucos são os carros que circulam. Virando para a última rua, na entrada do supermercado é onde se vêem as primeiras pessoas. A fila de uma dúzia de pessoas, afastadas mais de um metro entre si, significa uma espera de cerca de 15 minutos para chegar à porta. Na entrada são disponibilizados desinfectante e luvas de plástico. Um segurança controla o número dos que entram e pede para se manterem a uma “distância social”. 

Dentro do supermercado, tudo está como esperado, mas também como a normalidade de uma qualquer outra época sem pandemia. As prateleiras têm quantidade e variedade. No pagamento, não há filas. Apesar do caos anunciado, a sensação que tenho é de que os supermercados têm conseguido organizar-se da melhor forma possível.

Já em casa, o dia passa por terminar o bolo de aniversário e planear o (pouco) que será possível fazer no dia seguinte. Chega a meia-noite e na sala comum da residência cantam-se os parabéns. Tenho direito à versão italiana, inglesa e portuguesa da canção. A quarentena faz sentir-se pela primeira vez quando, durante os parabéns, alguns amigos da residência que voltaram para os seus países participam por videochamada, na impossibilidade de poderem aqui estar.

A partir daí, começam as chamadas e as SMS de aniversário. Algo normal para qualquer pessoa que faça anos, mas estas mensagens vêm mais carregadas em quantidade e significado por estar de quarentena a 2300 quilómetros de distância de casa. A maioria das pessoas aproveita para me felicitar pelo aniversário e acrescenta uma dose de esperança para ultrapassar esta fase. O assunto coronavírus vem de mãos dadas com as mensagens de felicitação.

O fim da tarde tem sido a altura do dia marcada para os italianos se juntarem nas varandas e ouvirem música, cantarem ou só aproveitarem o pôr do Sol com o bom tempo que se tem feito sentir por aqui. Em dia de aniversário, esta convivência é ainda mais especial, com os parabéns a serem cantados na varanda. Alguns vizinhos e transeuntes felicitam-me pelo dia quando ouvem “tanti auguri!” gritado da varanda.

De regresso ao quarto, vejo que na residência organizaram o que conseguiram para tornar o meu dia um pouco mais especial. Uma surpresa na parede do quarto, com efeitos a dizer “Happy Birthday”, e um cartão assinado por todos com uma mensagem própria do dia. O final do dia é marcado por mais uma videochamada para terminar o aniversário na companhia de alguns amigos.

O aniversário em quarentena é inesquecível pelo esforço notável de família e amigos em me fazerem sentir menos sozinha e mais perto deles. O sentimento no final do dia, a par das saudades típicas de quem está longe de casa há quase três meses, é de alegria. Estar a viver numa cidade em lockdown no dia em que se completa 22 anos não é tão triste quanto possa parecer. Afinal, o dia foi inundado da presença de todos, seja pessoalmente, seja digitalmente.

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