Santo Keynes do coronavírus

O mundo que se conta a partir do que se diz.

“Acreditávamos que o medo de morrer convertia os ateus em crentes, mas acontece que transforma neoliberais em keynesianos.” Pedro Vallín, jornalista espanhol

Fórmula contra o colapso social

A grande discussão no interior do Governo de Espanha sobre uma intervenção a sério na economia, afectada pela pandemia do coronavírus – “as diferenças, as discrepâncias e os debates são necessários”, disse o primeiro-ministro Pedro Sánchez –, foi ganha pela linha keynesiana. Até economistas mais liberais surgiram a recomendar ao Executivo uma intervenção musculada do Estado para evitar um “catastrófico colapso social”, como escrevia o jornal La Vanguardia na terça-feira. A tal ponto que Toni Roldán, ex-deputado do Cidadãos, o partido da direita liberal moderna espanhola, veio ao seu púlpito do Twitter defender isso mesmo, porque “o custo de não o fazer seria muito maior”. Roldán pediu ao Governo para mandar às urtigas o défice, porque seja como for já “será estratosférico”, em Espanha e em todo o lado: “O importante agora é apoiar os cidadãos e as empresas”. E o primeiro-ministro fez caso e na quarta-feira anunciou “a maior mobilização de recursos económicos da história recente de Espanha”, nesse jeito hiperbólico de falar dos políticos que tem em Trump o seu expoente máximo. Serão 200 mil milhões de euros (cerca de 20% do PIB), sendo que 117 mil milhões “integralmente públicos”. Chamou-lhe Sánchez o seu “escudo económico e social” para que “ninguém fique para trás”.

“Grande transformação”

Será que a pandemia do coronavírus nos empurrou para a “grande transformação”, perguntava-se esta semana Michel Roche, professor de Ciência Política da Universidade do Quebeque, em entrevista ao Le Quotidien. Citava o economista húngaro Karl Polanyi, que assim caracterizava os anos 1930, depois da grande depressão de 1929. “Mesmo antes da pandemia, já havia sintomas dessa potencial transformação para um Estado regulador”, até porque a ideia de não haver problema, de que os ricos podiam ficar mais ricos porque isso beneficiaria toda a gente, como defende a teoria do gotejamento, nunca chegou a concretizar-se. Como afirma o Nobel Joseph Stiglitz, “longe de ser necessária ou benéfica para o crescimento económico, a desigualdade excessiva tende a enfraquecer o desempenho económico”. Roche está convencido que a pandemia reforçará o coro de vozes contra o neoliberalismo, porque com esta grande ameaça a nível global tornou-se evidente que não é o mercado que nos vai ajudar, mas as intervenções dos governos, os sistemas nacionais de saúde, os apoios financeiros dos Estados. “A pandemia é reveladora do potencial extremamente poderoso da humanidade para resolver problemas. O individualismo, a meu ver, vai perder as suas plumas”, acrescentou o professor canadiano.

Mão estendida com lucros no bolso

A American Airlines passou a primeira década deste século a ganhar tanto dinheiro que gastou 15 mil milhões de dólares a recomprar acções da empresa para aumentar o ganho por acção e assim cumprir a sua principal função na terra: dar dinheiro aos seus accionistas. Tal o tamanho do festim que o seu director-executivo, Doug Parker, se deu ao luxo de afirmar em 2017: “Acho que nunca mais vamos perder dinheiro”. De acordo com a crónica de Tim Wu, segunda-feira no New York Times, a companhia aérea norte-americana ainda não pediu directamente o apoio do governo federal perante a crise do coronavírus, mas o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, afirmou na semana passada que as transportadoras aéreas, incluindo a American Airlines, estão “no topo da lista” para receber ajuda federal. Wu considera que as companhias aéreas não merecem qualquer mão estendida do Estado porque se limitaram a multiplicar os lucros sem qualquer preocupação pelo cliente, recusando-se em todos os anos de lucros multimilionários a reduzir os preços dos bilhetes ou a melhorar as condições de transporte dos seus passageiros, antes pelo contrário, reduziram o tamanho dos assentos, das casas de banho, sem nunca diminuir os atrasos ou as demoras em pista.

O único porto seguro

No passado dia 13, o navio de cruzeiro MS Braemar foi proibido de entrar nas Bahamas, depois de cinco passageiros terem dado positivo de infecção por coronavírus. Na mesma altura, o Silver Shadow (posto em quarentena no porto brasileiro do Recife) e o Silver Explorer (em quarentena no porto chileno de Chacabuco), também foram impedidos de atracar por causa da covid-19. O MS Braemar acabou, no entanto, por ter mais sorte que os outros, ao receber, na segunda-feira, autorização das autoridades cubanas para atracar no porto de Maribel, no Ocidente de Cuba. Aí desembarcaram os seus passageiros e desde aí partiram rumo a Havana para tomarem o seu lugar nos dois aviões fretados que na quarta-feira os levaram para o Reino Unido. Um final feliz para um passeio turístico que se tornou atribulado, bem diferente do que aconteceu, em Fevereiro, ao Diamond Princess, que o Governo japonês manteve em quarentena forçada no porto de Yokohama, depois da notícia de casos positivos de coronavírus a bordo. A gigantesca placa de Petri em que se transformou o navio acabou por contaminar 697 dos 3063 passageiros e tripulantes (sete morreram). Durante muitos dias, no mapa da Organização Mundial de Saúde, o Diamond Princess era o segundo “país” do mundo com mais casos de coronavírus a seguir à China. Cuba tem sete casos de covid-19.