Revenge spending: os chineses já voltaram às compras, como será com os portugueses?

O conceito remonta aos anos 80 na China e já se observa na ressaca da pandemia naquele país. No caso português, caso exista esse tipo de consumo, o efeito pode não compensar as perdas sofridas.

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LUSA/TIAGO PETINGA

Com as medidas de quarentena a serem aliviadas, os consumidores chineses estão, lentamente, a regressar às lojas e centros comerciais, impulsionando, por exemplo, o mercado de luxo, avançou a Bloomberg. Em Portugal, segundo Pedro Brinca, professor de macroeconomia da Nova SBE, caso aconteça fenómeno idêntico é difícil que venha a repor “tudo o que foi perdido”.

O surto de covid-19 fez com que a ida às lojas tivesse uma quebra de 80% na China, fazendo cair para metade as vendas de várias marcas de luxo, como a Gucci ou Burberry – os consumidores chineses representam cerca de 33% deste mercado em todo o mundo. A recuperação pode ser acentuada nas próximas semanas devido ao “revenge spending" (em português, “consumo por vingança”), conceito que vem da década de 1980 e dos comportamentos da população chinesa após a revolução cultural.

O termo é usado novamente por Amrita Banta, em entrevista à Bloomberg, que afirma que a “China parece que já virou a esquina e as maiores cidades estão já a mostrar um optimismo cauteloso”. Acrescentou ainda que se assiste a uma “recuperação lenta, mas definitiva”.

E em Portugal?

Pedro Brinca, professor de macroeconomia da Universidade Nova SBE, disse, em declarações ao PÚBLICO, que caso este consumo venha a existir (não necessariamente em marcas de luxo), duvida que se reponha “tudo aquilo que foi perdido”.

O professor começa por explicar que, este consumo será heterogéneo. De um lado temos, por exemplo, “empregados do Estado que não tiveram quebras de rendimento” e que “cancelaram um conjunto de despesas de consumo e de férias, por isso vão ter esse dinheiro extra”. Do outro lado encontram-se “as pessoas que não conseguiram evitar que esta quarentena lhes afectasse directamente o rendimento”. Estas últimas “vão estar em menos condições de realizar esse tipo de despesas”. Pedro Brinca avisa ainda que, mesmo quem tem mais dinheiro, teve perdas, nomeadamente em possíveis investimentos e acções.

“Mesmo que haja vontade para gastar, em termos de oferta existem determinadas classes de produtos onde não vai ser possível. Nomeadamente aqueles em que a linha de produção está interligada por todo o mundo, como é o caso de alguns electrodomésticos e telemóveis” afirma.

No que diz respeito ao turismo, o especialista em macro-economia sente-se optimista que o mesmo possa crescer. O professor indica que um dos mercados mais explorados pelos portugueses para férias é a América do Sul e, visto que “o vírus se tem estado a espalhar de este para oeste, é previsível que nesses países este problema demore mais algum tempo a passar” ficando assim os portugueses com esse dinheiro disponível para gastarem em turismo nacional. “É provável que a quebra acentuada que o turismo tem visto em Portugal possa ser de certa forma compensada com um aumento de procura interna quando isto estiver controlado” diz.

“Este choque é temporário, a questão é quão temporário é”, conclui.

Segundo o relatório da Direcção-Geral de Saúde (DGS) divulgado esta quinta-feira, Portugal tem 785 casos confirmados, mais 143 do que na quarta-feira, o que corresponde a uma variação de 22% face ao dia anterior. O relatório regista ainda uma terceira morte, desta vez na região centro.

Face à situação portuguesa, o Presidente da República decretou esta quarta-feira o Estado de Emergência, que foi posteriormente aprovado no Parlamento. As medidas do Governo foram conhecidas esta quinta-feira.

O novo coronavírus infectou mais de 220 mil pessoas em todo o mundo, das quais mais de 8900 morreram e mais de 85.500 recuperaram. De momento o surto está presente em 176 países e territórios.

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