Opinião

O “menino bonito”

Quem levou Rui Rangel ao colo até aos píncaros da fama também tem de reflectir sobre o que fez e deixou de fazer.

Conheci mal o ex-juiz Rui Rangel. Quando cheguei à carreira, no princípio dos anos 90, estava ele a sair muito mal visto e chamuscado do cargo de secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP). Tirando a participação num curso de jornalismo judiciário que ele organizou e meia dúzia de contactos fugazes há muitos anos, nunca foi pessoa com quem tivesse intimidade ou relacionamento social ou profissional próximo. A última vez que falámos foi em 2007 e a conversa acabou mal. Por causa de uns disparates que tinha escrito num artigo de opinião sobre o “caso Esmeralda”, teve um processo disciplinar por violação do dever de reserva e queria que a ASJP o apoiasse publicamente. Não gostou da resposta que ouviu e nunca mais falámos.

Rui Rangel era um severo crítico da justiça e dos juízes e serviu-se bem desse papel de “maledicente útil”, que lhe abriu portas em muitos lados. Gabava-se de ter pouquíssimos amigos na magistratura e era verdade. A generalidade dos juízes não gostava dele. As histórias que se ouviam do passado não ajudavam e sobretudo ninguém lhe reconhecia legitimidade ética nem representatividade para passar a vida nas televisões e nos jornais a puxar orelhas e dar sermões sobre tudo e mais alguma coisa, com indisfarçável sobranceria.

Agora é fácil dizer que os sistemas internos de controlo e responsabilização foram complacentes com um juiz à volta de quem já existiam demasiadas dúvidas, visíveis para toda a gente. Já não é o primeiro jornalista que me diz isso em conversas informais. Talvez. Mas isso não explica tudo. As análises sobre as causas e consequências da ascensão e queda do mediático Rui Rangel não podem passar ao lado de um segmento de responsabilidade moral de que também se tem de falar. Se ele caiu pelos erros que cometeu e se demorou tanto a cair por inércia do sistema, é preciso dizer que a queda só foi tão estrondosa porque alguém o fez subir mais alto do que ele valia e merecia.

Rui Rangel era irmão de um jornalista famoso, muito querido e influente na classe, que criou dois órgãos de comunicação social importantíssimos e deu trabalho a muita gente. Isso contribuiu muito para que o levassem ao colo como o “menino bonito” da imprensa durante mais de 20 anos. Rui Rangel tinha escancaradas as portas das televisões, das rádios e dos jornais e não eram poucos os jornalistas que se derretiam com a sua presença. Se havia um caso na justiça, lá estava ele a comentar. Se vinha uma lei nova sobre qualquer coisa, lá iam a correr saber o que ele achava. Se mudava o ministro, era preciso perguntar a opinião dele. Deram-lhe um programa semanal para se exibir e ganhar mais notoriedade. Até nas revistas cor de rosa a dançar com as namoradas ou a entrar em festas VIP o dr. Rangel tinha lugar.

Depois, criou a Associação de Juízes pela Cidadania, com 13 juízes amigos, bem-intencionados mas ingénuos, e foi todo um outro novo palco que se abriu. Para a imprensa era indiferente que a associação em nome de quem passou a falar não tivesse qualquer tipo de representatividade. Agora já nas vestes de uma legitimidade que nunca teve, continuava a ser o “menino bonito” com lugar cativo nas televisões. No mundo da política passou a ser um interlocutor válido, a quem se pediam pareceres sobre projectos legislativos.

É evidente que toda esta exposição desmedida colocou Rui Rangel num pedestal de notoriedade e influência, que certamente lhe deu uma rede de contactos e proximidade a outros centros de interesse e influência que como simples juiz nunca teria. E é aqui que começam a surgir algumas questões ao lado das quais não podemos passar. Se for verdade o que se diz, então essas pessoas todas que agora acusam o sistema de justiça se ter fechado os olhos também não viram nada? Os carros de alta cilindrada, os fatos caríssimos, os jantares em restaurantes de luxo, a presença nas festas dos famosos? Tudo isso de que agora falam não era visível? Pois é, quem levou o “menino bonito” ao colo até aos píncaros da fama também tem de reflectir sobre o que fez e deixou de fazer.

A imprensa tem o poder de endeusar, de criar personalidades e de promover pessoas, sem que algumas tenham qualidade ou merecimento, esquecendo a sua relevante função social. Depois, quando a pessoa inevitavelmente cai, são os primeiros a apontar o dedo. O Pinóquio teve um pai.

Sugerir correcção