Opinião

O PS tornou-se cavaquista?

A explicação global para o regresso das “forças de bloqueio” talvez se resuma a um clássico infeliz da história das democracias: a arrogância e a displicência do poder.

Quem diria que as “forças de bloqueio” tão caras à retórica ressentida de Cavaco Silva quando era primeiro-ministro – e que visavam especialmente o então Presidente Soares – estão de regresso pela boca do PS, desde a presidente do grupo parlamentar socialista, Ana Catarina Mendes, até ao presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, tendo na mira os partidos da oposição ou entidades como o Tribunal de Contas? Que razões oblíquas levam o PS a adoptar uma expressão que, no seu primitivo tempo cavaquista, era entendida pelos socialistas como um mau exemplo de desconforto com a natureza diversa, plural e até conflitual da democracia? Como se explica esta eventual e tão estranha metamorfose do velho cavaquismo no actual socialismo?

As respostas a estas interrogações não são lineares até porque implicam situações, psicologias e comportamentos variados. Mas a explicação global para o regresso das “forças de bloqueio” talvez se resuma a um clássico infeliz da história das democracias: a arrogância e a displicência do poder – de um poder que se fecha sobre si mesmo, se julga infalível ou se torna avesso ao diálogo e à negociação com os opositores ou outras instâncias políticas e judiciais. Um poder que, para cúmulo, alimenta a auto-ilusão de ter negociado o que nunca verdadeiramente negociou.

Tudo isso é ilustrado através de três exemplos recentes: as polémicas sobre o aeroporto do Montijo, as PPP na Saúde e a escolha dos candidatos do PS ao Tribunal Constitucional – tendo as duas últimas tido como resultado inevitável a derrota parlamentar do Governo. No primeiro caso, houve uma inexplicável precipitação e uma insustentável ligeireza (que fez o Governo esquecer, por exemplo, a necessidade de negociar com as autarquias da área do aeroporto, devido a uma lei – porventura disparatada – do Governo Sócrates). No segundo caso, temos uma história de contornos opacos e muitíssimo duvidosos que os responsáveis políticos capricharam em ocultar (o que, obviamente, a tornou um objecto político inviável). E, no terceiro, deparamos com a escolha absurda de Vitalino Canas, uma personagem de perfil mais do que controverso, para um cargo da mais elevada responsabilidade político-judicial (escolha também rejeitada, aliás, por deputados do PS).

Estes são três casos de falta de bom senso político elementar e, por isso, indefensáveis, mesmo que o PS possa ter razão de queixa no que se refere ao oportunismo calculista das oposições (nomeadamente do PSD em relação ao aeroporto do Montijo, um projecto aprovado pelo Governo de Passos Coelho). Aliás, dada a forma como tratou os três dossiers, o PS só pode queixar-se de si próprio, estando obrigado a fazer um urgente exame de consciência ético-político para evitar cair em novas armadilhas em forma de “forças de bloqueio”.

Como salientou o Presidente da República, por ocasião dos 30 anos do PÚBLICO, “naquilo que o sistema político e social – e é bastante – está descolado da realidade, é preciso mudar de vida enquanto é tempo”, até porque não se pode começar uma legislatura com “um estado de espírito de fim de legislatura". É um recado para toda a gente, mas que compromete em primeiro lugar António Costa, mergulhado numa governação “caso a caso, em cima da hora, no último segundo”, uma governação aparentemente cansada de si mesma, talvez porque não se adaptou ao fim da “geringonça” e vive na ilusão – ou na frustração – de ter uma maioria absoluta que não conseguiu conquistar. Ou será por causa – diria Cavaco – das “forças de bloqueio"?

P.S.: Fiquei genuinamente emocionado com tantos encontros e reencontros na festa dos 30 anos do PÚBLICO – e por tantas memórias partilhadas com afecto. Afinal, é possível fazer uma viagem até ao início da “aventura romântica” deste jornal como se o tempo não tivesse passado ao longo de três décadas.

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