Foto

Um momento de publicação independente: All Watched Over by Machines of Loving Grace

Fanzines, edições de autor, livros de artista — nesta rubrica queremos falar de publicação independente. Dois Vês e João Carola apresentam All Watched Over by Machines of Loving Grace.

Apresenta-nos a tua publicação.
À data de publicação deste livro, não se ouvem nas florestas os estalidos de discos rígidos a acompanhar o roçar dos ramos das árvores; contudo, havendo sinal, é possível escutar o som de um like a pingar na nossa mais recente foto de perfil. O poema de Richard Brautigan que serve de mote a este livro foi publicado há mais de 50 anos; a sua visão de uma arcádia digitalizada, onde mamíferos de toda a espécie convivem sob o olhar zeloso e benevolente de máquinas bafejadas pela santidade, não se concretizou. Em 2019, a tecno-esfera continua a ter o ser humano no seu centro e a natureza (seja lá o que isso for) nas margens do seu perímetro, encarada essencialmente como um recurso que em breve se esgotará. Os robots caminham sozinhos pelos bosques e os mamíferos caem por terra onde dantes havia água: todos observados por máquinas, mas não de amor e graça.

All Watched Over by Machines of Loving Grace documenta as dinâmicas articuladas no solipsismo desse ciberespaço que criámos só para nós: das relações laborais à saudade, da saúde à identidade, nele se retrata o modo como o manto do digital cobre todos os aspectos do nossa dia-a-dia e medeia as interacções que por cá vamos estabelecendo. É debaixo desse cobertor, com a cara tenuemente iluminada pelo ecrã, que observamos o robot caminhar sozinho pelo bosque e choramos o paraíso perdido do poema de Brautigan. Afinal de contas, à data de publicação deste livro, já mal se ouvem nas florestas os estalidos dos insectos, que vão caindo por terra onde dantes havia água; contudo, havendo sinal, é possível escutar mais um like a pingar na nossa foto de perfil. 

 Quem são os autores?
Amorim Abiassi, Ana Maçã, André Pereira, Cátia Serrão, Cláudia Salgueiro, Dois Vês, Félix Rodrigues, João Carola e Vasco Ruivo

Do que quiseram falar?
Quisemos fazer uma reflexão pessoal em formato de banda desenhada, fosse ela mais ou menos convencional, sobre os efeitos da tecnologia digital na nossa vida, como indivíduos ou comunidade.

PÚBLICO -
Foto

Questões técnicas: quais os materiais usados, quantas páginas tem, qual a tiragem e que cores foram utilizadas?
A publicação tem 136 páginas com 24 delas a cores, é bilíngue (português e inglês) e foi feita uma tiragem de 500 exemplares. Sendo uma antologia, as técnicas variam consoante o artista — algumas histórias foram criadas apenas recorrendo a ferramentas digitais, algumas misturam meios e outras são essencialmente analógicas. Para além deste formato físico, achámos pertinente que a antologia tivesse uma presença online onde as histórias se estendessem para além das limitações do papel: em vídeos e gifs, cartazes a cores, esboços do processo de trabalho, etc. Embora ainda em desenvolvimento, podem visitar este universo aqui.

Onde está à venda e qual o preço?
A publicação tem o preço de 10 euros e podem encontrá-la na loja online da Chili com Carne, em Lisboa na Tigre de Papel, Kingpin Books, Linha de Sombra, Tinta nos Nervos, BdMania e Tasca Mastai, no Porto na Mundo Fantasma, em Barcelona na Fat Bottom Books e, em breve, no resto do universo.

Porquê fazer e lançar edições hoje em dia?
O porquê de fazer e lançar esta edição é estabelecer um diálogo entre processos humanos e digitais. Parte desse diálogo são as reflexões que os autores de BD fizeram na publicação em papel, mas outra parte importante é o desdobramento da publicação para o campo digital. O “livro site” emula a acção de um espaço real, em que um visitante manipula o espaço a seu bel prazer e o visitante seguinte que aceda a esse mesmo espaço vê o resultado da nossa passagem. 

Recomenda-nos uma edição de autor recente lançada em Portugal.
Passe Social (de Ana Matos), Regresso ao Olimpo (de Ricardo Baptista) e JáQui (de Rita Mota) são a estreia da Erva Daninha enquanto selo editorial. Foi fundada em 2019 por Joana Mosi e André Pereira e a sua missão é promover, divulgar e mobilizar narrativas gráficas de talentos emergentes nacionais, num formato acessível, mas cuidado.