Opinião

O humor e os humores de Vasco Pulido Valente

Os humores de Vasco Pulido Valente podem ter sido problemáticos ao longo da sua vida, mas o humor inteligente dos seus textos foi uma dádiva extraordinária ao país, que influenciou uma geração inteira de colunistas, sobretudo à direita.

Vasco Pulido Valente pertencia à classe mais rara de colunistas: aquela em que a coerência dos argumentos ou a precisão das análises é um detalhe secundário face ao prazer da escrita, da ironia, ao ritmo do texto, à capacidade de formulação, à descrição cirúrgica e, muitas vezes, assassina. Os seus artigos eram um resmungar perpétuo contra os vícios da piolheira, e todas as semanas punha o país à frente do espelho da Monarquia Constitucional e da Primeira República, para mostrar, cem anos depois, os mesmos tiques, as mesmas falhas, as mesmas debilidades institucionais. Foi, de facto, o maior cronista português da segunda metade do século XX, e é por isso que os jornais se encheram de textos pesarosos por parte de inúmeros companheiros de ofício: nunca tantos deveram tanto a um só.