Editorial

O tempo das máscaras

Nunca o mundo respondeu tão rapidamente a uma doença, mas os últimos eventos mostram que o pior ainda não passou.

Ainda há uma semana a revista Economist considerava que quarentenas como as vividas em algumas regiões da China eram “impensáveis” fora deste país. Ontem soubemos que 11 cidades italianas foram colocadas de quarentena, os grandes eventos foram suspensos, cerca de 50 mil cidadãos estão obrigados a permanecer em suas casas e as autoridades têm ordens para garantir este confinamento. Até o Carnaval de Veneza acabou mais cedo.

O Covid-19 continua a ser um risco bem real e a melhor forma que as autoridades têm para lidar com uma ameaça, com demasiados contornos ainda por esclarecer, é fazê-lo de forma resoluta. Isolar casos e identificar as pessoas que potencialmente contactaram com infectados, para também serem isolados, não é uma solução mágica, mas representa a melhor hipótese de conter a propagação do vírus numa fase inicial.

Apesar do tom mediático da medida, num mundo globalizado ela poderá ser mais determinante que o controlo das viagens. E será essencial para que o resto dos cidadãos possa prosseguir a sua vida, evitando os danos causados pelo medo.

O surgimento de cadeias de transmissão secundária como em Itália é um aviso sério para as autoridades nacionais se manterem em estado de alerta e com capacidade de resposta rápida. E se um dia irromper em Portugal um surto de coronavírus não é só a saúde dos cidadãos que as autoridades e os médicos estarão a defender.

Num país em que 13,7% do PIB vem do turismo, uma resposta desordenada a uma crise pode ter consequências muito mais nefastas do que as naturalmente advirão do medo e da perturbação causada pelas medidas a tomar. A Tailândia, onde o turismo representa cerca de 20% do PIB e os turistas chineses um quatro dos visitantes, optou por não lhes levantar quaisquer barreiras à entrada.

É o difícil equilíbrio entre o custo de medidas sanitárias e as repercussões na economia, quando o avanço do vírus começa a pôr em sério risco as previsões de que a epidemia não terá impacto assinalável na economia mundial.

Nunca o mundo respondeu tão rapidamente a uma doença, mas os últimos eventos mostram que o pior ainda não passou. Previsivelmente ainda será preciso passar um ou dois meses para a epidemia abrandar e uma vacina é um esforço importante, mas a solução está distante. Em sentido lato, o tempo das máscaras ainda não chegou, mas começa a ser um bom momento para as ter à mão.