Coronavírus: Áustria suspende circulação de comboios com Itália

Surto de casos na Itália, Coreia do Sul e Irão desencadeia preocupações internacionais, com o número de mortos por coronavírus perto de chegar aos 2500 em todo o mundo. União Europeia espera mais casos na Europa, mas “não vê necessidade de pânico”.

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Visitantes do Carnaval de Veneza com máscaras de protecção. O surto de Covid-19 no país levou as autoridades italianas a cancelar as festividades do fim-de-semana Reuters/MANUEL SILVESTRI
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Governo italiano toma medidas para controlar número de infecções Reuters/FLAVIO LO SCALZO

A Áustria barrou a circulação de todos os comboios vindos de Itália depois de preocupações de que os passageiros poderiam vir infectados com o novo coronavírus (Covid-19), avança a Reuters com base em relatos da imprensa local. O ministro do Interior austríaco, Karl Nehammer, confirmou que um comboio de Milão foi parado na fronteira austríaca depois de relatos de dois dos passageiros apresentarem sintomas de febre. Tinha como destino final Munique, na Alemanha. “Os futuros procedimentos estão a ser discutidos com as autoridades italianas”, disse Nehammer em comunicado. 

Pelo menos onze localidades no norte da Itália estão sob quarentena, com três mortes confirmadas devido ao novo coronavírus. A decisão do Governo italiano é uma consequência do surto recente do vírus no país, com mais de 150 casos confirmados. A maior parte dos casos regista-se norte do país, em particular na pequena localidade de Codogno, na Lombardia, onde foi detectado o primeiro doente identificado com o novo coronavírus no país. 

"A situação é calma. Mas evidentemente as pessoas estão a ficar muito preocupadas e receosas”, diz ao PÚBLICO Filipe Batista e Silva, que vive em Besozzo, província de Varese, na Lombardia. Aquela província tem uma comunidade grande de portugueses, devido à proximidade com o centro comum de investigação da Comissão Europeia, onde Batista trabalha como investigador.

O português sente que apesar da calma, as medidas de precaução já estão a “afectar o dia-a-dia das pessoas” com escolas encerradas pelo menos uma semana e uma “avalanche de pessoas nas compras, a levarem tudo o que podiam”. “Para quem tem filhos e não tem outro sítio onde as deixar, teremos necessariamente de ficar em casa”, acrescenta Batista que vai trabalhar de casa nos próximos dias, e tem partilhado a situação que vive em Lombardia no Twitter.

terceira morte devido à Covid-19 em Itália foi confirmada às 16h00 deste domingo pelo chefe da protecção civil do país, Angelo Borreli. A mulher de 68 anos estava internada no departamento de oncologia do hospital de Crema, em Lombardia. As primeiras duas mortes ocorreram em menos de 24 horas: na sexta-feira, um homem de 78 anos morreu na região de Veneto em sequência de uma complicação respiratória causada pelo vírus. No sábado, a vítima foi uma mulher de 75 anos na cidade de Codogno, em Lombardia. 

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A autoridades italianas cancelaram as festividades agendadas para domingo à noite em Veneza MANUEL SILVESTRI/Reuters

Em Portugal, um doente vindo de Milão está a ser avaliado por suspeita de contaminação pelo vírus, anunciou a Direcção-Geral de Saúde (DGS) em comunicado. O doente foi encaminhado para o Centro Hospitalar Universitário de São João após avaliação clínica e epidemiológica.

O aumento de casos na Itália, mas também no Irão (oito mortos), e na Coreia do Sul (seis mortos) está a desencadear preocupações internacionais sobre a propagação do novo coronavírus fora da China. Ainda não foi possível identificar o primeiro foco do surto na Itália e na Coreia do Sul. O facto de não se conseguir encontrar uma ligação directa à China (epicentro da Covid-19), está a preocupar a Organização Mundial de Saúde (OMS). Uma das principais preocupações da organização é que o vírus se alastre até países mais pobres, com sistemas de saúde já por si frágeis. 

Em Itália, o surto já levou ao cancelamento de vários eventos públicos: entre eles estão vários jogos de futebol e o tradicional Carnaval de Veneza, uma celebração que junta todos os anos milhares de pessoas. Edifícios do Governo, escolas, restaurantes, cinemas igrejas e empresas também foram encerradas nas áreas críticas, com mais de 50 mil pessoas aconselhadas a permanecer nas habitações. As autoridades têm ordens para garantir que este isolamento, semelhante ao adoptado pelo Governo chinês na província de Hubei, é cumprido. 

UE não vê “necessidade de pânico"

Ao todo, já foram registadas quatro mortes em solo europeu relacionadas com a doença Covid-19: a primeira ocorreu em Paris, quando um turista chinês não resistiu a uma pneumonia resultante da infecção. O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) alertou, este domingo, para a probabilidade do aumento do número de casos confirmados em Itália e noutros países europeus, nos próximos dias.

“Como a situação está a evoluir rapidamente, são esperados mais casos em Itália e possivelmente na União Europeia nos próximos dias”, lê-se no comunicado divulgado pelo EDCD. “As medidas extraordinárias no norte da Itália são essenciais para limitar o surto e pode ser necessário replicá-las noutras comunidades nos próximos dias.”

A União Europeia diz que é preciso evitar o pânico quanto ao surto recente de coronavírus em Itália. “Partilhamos a preocupação de um possível contágio, mas não há necessidade de pânico”, frisou o comissário Europeu da Economia, Paolo Gentiloni, ​este domingo, em declarações a jornalistas. Gentiloni, que está a participar na reunião do G20 em Riade, na Arábia Saudita, notou que “a União Europeia tem confiança plena nas autoridades italianas e nas decisões que estão a tomar.”

A directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) também falou sobre o coronavírus em Riade. “Acima de tudo, o vírus Covid-19 é uma tragédia humana, mas também tem impacto económico negativo. Relatei ao G20 que, mesmo no caso de rápida contenção do vírus, o crescimento na China e no resto do mundo seria afectado. Obviamente que todos esperamos uma recuperação rápida, mas, dada a incerteza, seria prudente prepararmo-nos para cenários mais adversos”, disse a directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva. Nesse sentido, Georgieva sublinhou que o FMI “está pronto para ajudar”.

Vizinhos do Irão fecham fronteiras

De acordo com dados partilhados pelo Centro Europeu de Controle e Prevenção de Doenças (ECDC), o número de mortos no mundo por coronavírus está perto de atingir os 2500: na China, país onde o surto teve início, as autoridades actualizaram para 2463 o número de vítimas mortais. O Presidente da China, Xi Jinping, admitiu este domingo que o surto do novo coronavírus na China é a mais grave emergência de saúde desde a fundação do regime comunista, em 1949.

Depois da China, o Irão é o país que regista mais mortes depois da China – ao todo, o novo coronavírus já infectou 43 pessoas e provocou oito mortes no país. Trata-se do primeiro país do Médio Oriente com casos de morte por infecção pelo Covid-19. A situação levou a Turquia, Paquistão, Afeganistão, Iraque e Kuwait a anunciar o fecho de fronteiras com o Irão este domingo este domingo, avançou a agência Lusa. Outros países da região anunciaram medidas de precaução para evitar a propagação do vírus, depois de o Irão se ter tornado, na quarta-feira, o primeiro país do Médio Oriente com casos de morte por infecção pelo Covid-19 e, hoje, o que mais mortes regista depois da China.

Português ainda não exibiu sintomas

O português infectado pelo coronavírus a bordo do navio Diamond Princess, atracado no Japão, permanece assintomático e aguarda internamento em hospital do Japão, informa a Direcção-Geral da Saúde (DGS) em comunicado. Os restantes quatro tripulantes na embarcação, colocada em quarentena há mais de três semanas, apresentam testes negativos. 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já afastou a possibilidade de fazer regressar ao país o português infectado com o novo coronavírus. “É preciso ter a noção exacta da situação e tem de ser no Japão. Trazê-lo para Portugal podia ser uma temeridade para ele. Não vale a pena correr esse risco”, disse o chefe de Estado, à margem de uma visita aos caretos de Podence, em Trás-os-Montes.

O homem, com 41 anos, faz parte da tripulação do navio há cinco anos onde exerce funções como canalizador. Adriano Luís Maranhão é natural da Nazaré e conheceu o diagnóstico às 14h de sábado. O cidadão português está no navio desde dia 13 de Dezembro.

Adriano Maranhão falou com a TSF e denunciou a falta de condições de segurança oferecidas à tripulação do navio, lembrando que não foram entregues máscaras aos tripulantes nos primeiros dias de quarentena. “A máscara só foi obrigatória ao fim de dois ou três dias de começar a quarentena. Não foi logo. Os chefes proibiram-nos de usar a máscara, porque só os médicos é que poderiam autorizar a máscara. Passado uns dias disseram que éramos obrigados a andar com a máscara. Passados dois dias talvez, foi-nos dito que tínhamos de andar com luvas. O processo aqui foi muito lento e nem sequer usámos as protecções adequadas”, afirmou o canalizador.

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