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Megafone

Pelo Dia Internacional das Mulheres na Ciência: Jocelyn Bell-Burnell

Não é mentira nenhuma, o mundo ainda não estava preparado para as mulheres. Nem o mundo, nem Cambridge e muito menos a comunidade científica internacional. Ainda não está. Mas para lá caminhamos, ou não fosse 11 de Fevereiro o Dia Internacional das Mulheres na Ciência.

Pulsar é o nome dado às estrelas de neutrões, núcleos de estrelas gigantes colapsados após a sua supernova.

O nome pulsar advém do seu comportamento rotativo, emitindo feixes de raios-X e raios-Gama ao longo do seu eixo magnético. O efeito visual, apesar de mortal, é um espectáculo único: suspensa no espaço, uma pulsar gira sobre si própria milhares de vezes por minuto como se um farol fosse, mas desta feita não para sinalizar terra mas antes as reminiscências de gigantescas fornalhas muitas vezes superiores ao Sol e agora perdidas para sempre. Não indicam caminho nenhum, estão apenas ali, a mais bela ruína espacial para que nunca nos esqueçamos como até o inferno tem fim e nada dura para sempre.

Nem as estrelas, nem nós.

Apesar de já se pressupor a existência teórica de estrelas de neutrões, até aos anos 60 do século XX ainda ninguém tinha confirmado cientificamente a sua existência. Tal proeza coube a Jocelyn Bell-Burnell, à data uma jovem de 24 anos, doutoranda em astrofísica na Universidade de Cambridge. Após dois anos a construir um radiotelescópio nos arredores da universidade para a observação de quasares, coube a Bell a árdua tarefa de analisar os dados recolhidos diariamente, ergo 29 metros de cada vez de marcações em papel milimétrico ao longo do qual olhos míopes fazem as vezes de microscópio pela noite fora.

Numa dessas noites, mais precisamente a 28 de Novembro de 1967, Jocelyn reparou numa pequena “sujidade” no papel milimétrico. Esta “sujidade” era um sinal e este sinal pulsava com uma grande regularidade, uma vez a cada 1.3 segundos. A astrónoma não queria acreditar na sua descoberta. Os seus olhos, as suas mãos e o trabalho de muitos meses e muitas noites sem dormir estavam agora diante de um fenómeno ainda não observado pelo ser humano. Mas que fenómeno seria este?

A imaginação de imediato ganha asas. Basta imaginar se tivesse sido agora. As notícias nas redes sociais não demorariam mais de cinco minutos a dar a volta ao mundo: “sinais de uma civilização extraterrestre detectados nos confins do espaço!” Mas como nos anos 60 ainda não havia redes sociais, Jocelyn Bell-Brunell tratou de partilhar o mais rapidamente possível esta descoberta com o seu orientador de tese, Antony Hewish.

A partir daqui, começam os problemas. Em clara inferioridade como mero estudante de doutoramento, Jocelyn não é senão parte de uma equipa, cabendo à equipa analisar a sua descoberta, mesmo se essa equipa havia sido inexistente até então. A partir daqui começam as reuniões à porta fechada em salas repletas de homens onde a Jocelyn não era era permitida a entrada. Por ser uma mera estudante de doutoramento? Ou por ser mulher? Ambas?

Num mundo de homens onde a comunidade científica era predominantemente masculina, cabia aos mesmos homens o papel de discutir entre si e tomar decisões. Não é mentira nenhuma, o mundo ainda não estava preparado para as mulheres. Nem o mundo, nem Cambridge e muito menos a comunidade científica internacional. Ainda não está. Mas para lá caminhamos, ou não fosse 11 de Fevereiro o Dia Internacional para as mulheres na Ciência.

Adiante. Se anos mais tarde se veio a comprovar serem os pulsar os responsáveis pelos sinais detectados por Jocelyn, a verdade foi só uma: em 1974, o prémio Nobel da Física foi co-atribuído a Antony Hewish e ao astrónomo Martin Riley. Prémio esse atribuído a Hewish “pelo seu papel decisivo na descoberta dos pulsar”. Mas Hewish não teve papel nenhum. Hewish não passou noites em claro a decifrar dados em papel milimétrico. Hewish não se questionou sobre a “sujidade” presente no papel. Quando muito, menosprezou-a. Hewish não quis saber. Até chegar a hora de recolher os louros. Aí, Hewish soube estar presente, e bem presente!

A polémica estalou e muitas foram as vozes que se insurgiram contra a ausência do nome de Jocelyn em tão famigerado prémio. A decisão, no entanto, estava tomada e foi Hewish e não Jocelyn a discursar em agradecimento de Estocolmo para o mundo. E se, até hoje, Jocelyn Bell-Burnell afirma a pés juntos ser injusta a atribuição de um prémio Nobel a um simples estudante, parte de uma equipa onde os louros e os fracassos cabem sempre ao líder, as suas acções dizem o contrário, ou não fosse seu o nome de uma bolsa de estudo dedicada a apoiar mulheres de minorias étnicas e refugiadas a perseguir os seus sonhos nos campo da física e da astrofísica.

Jocelyn pode não ter ganho o prémio Nobel mas, com o passar dos anos e a evolução das mentalidades, num mundo gradualmente aberto às mulheres na ciência, ganhou o reconhecimento de todos como cientista e investigadora responsável pela descoberta dos pulsar. Hoje, com 76 anos de idade, a astrónoma é o foco de documentários e palestras e é o seu nome a voar mais alto em direcção às estrelas, mais precisamente às estrelas de neutrões, a centenas de anos-luz de distância.

Obrigado, Jocelyn, o universo é teu.