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Ser homem é um privilégio, ser mulher e cientista um orgulho

É essencial que todos os investigadores, independentemente do seu género, sejam vistos como cidadãos, contribuintes, com direitos e deveres iguais a toda a gente. É com um sentimento agridoce que nos vejo a nós, mulheres, finalmente ganhando voz num dos sectores mais precários do nosso país.

Muitas são as ocasiões em que me dizem que actualmente não faz sentido comemorar-se datas como o Dia da Mulher porque “também não se comemora o dia do homem, não é igualdade que vocês querem?”. Vou poupar-vos dos abespinhados debates que sucedem este tipo de observação e concentrar-me no que realmente importa: Esta segunda-feira, dia 11 de Fevereiro, assinala-se o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência. Por cá, é possível ser-se mulher e ter uma voz activa na ciência, mas o planeta é grande e o mundo ainda pertence aos homens.

Temos nesta data a chance de reflectir sobre a situação das mulheres na ciência. Ao longo da história, há centenas de mulheres, anónimas, que mudaram o mundo com a sua investigação. Há ainda aquelas a quem o trabalho e o mérito foi roubado por homens. É de louvar o quanto o lugar das mulheres tem vindo a aumentar, mas não devemos nunca ignorar o longo caminho que há para percorrer. Globalmente, de acordo com dados da UNESCO, no campo das ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas menos de 30% dos investigadores são mulheres; em Portugal, segundo a Ciência Viva, este número sobe para os 45%; também em Portugal, diz o estudo À Procura da Igualdade de Género  da OCDE, a percentagem de mulheres que estudam estas áreas é a maior do mundo (57%), sobrepondo-se a países como Espanha, EUA, Dinamarca e Japão. Mas nem tudo são boas notícias: este romper de estereótipos resume-se a estudantes ou mulheres em início de carreira; a grande maioria dos cargos de coordenação continua no poder dos homens. Pessoalmente, nunca senti o peso de ser mulher na minha vida profissional, no entanto o mesmo não pode ser dito do meu quotidiano pessoal. Desde que iniciei a minha carreira na investigação, como estudante pós-graduada, sempre trabalhei maioritariamente com mulheres. Porém, se fossemos capazes de recuar no tempo, as minhas colegas — e, provavelmente, eu própria — seríamos naturalistas barbudos à volta do mundo, bem ao estilo de Charles Darwin.

Foi em Junho do ano passado, no XIX Congresso da Associação Ibérica de Limnologia, que pela primeira vez reflecti sobre este assunto. Havia um espaço inteiramente dedicado às mulheres na Limnologia, resgatando a identidade de algumas das que mais contribuíram para o conhecimento sobre águas interiores. Sou uma mulher e esta é também a minha área de investigação, mas quantas destas fortes personalidades femininas conhecia? Nenhuma. Ainda assim, senti um ímpeto adolescente de alguém que conheceu um ídolo, a quem deseja veemente seguir os passos. Nunca antes senti tanto orgulho em ser cientista e, acima de tudo, mulher.

Mais do que uma questão de igualdade de género, a ciência em Portugal é muito desvalorizada. É fundamental que se criem condições de trabalho num futuro muito próximo. É essencial que todos os investigadores, independentemente do seu género, sejam vistos como cidadãos, contribuintes, com direitos e deveres iguais a toda a gente. É com um sentimento agridoce que nos vejo a nós, mulheres, finalmente ganhando voz num dos sectores mais precários do nosso país. Nestas condições, e dada a competição voraz que vivemos todos os dias, em que dimensão pode uma mulher fazer pausa na produção de artigos científicos para engravidar e ter um filho? Como posso eu decidir ter um filho na fase em que a fertilidade mo permite, se não sei se daqui a quatro anos terei meios para o sustentar? Como posso eu jogar entre a idade fértil e a idade de produzir incessantemente para garantir um lugar? Em Portugal, e na maioria dos países desenvolvidos, talvez estas sejam as maiores inquietações de ser mulher e cientista. 

Ser homem é um privilégio; ser mulher é um orgulho. Falo por mim, consciente de que muitas mulheres no mundo sofrem por não serem privilegiadas. Talvez o maior orgulho esteja em ser uma mulher privilegiada, uma mulher no sítio certo, uma mulher que, apesar de tudo, escolheu a ciência.