Opinião

Clayton Christensen (1952-2020): Um bom gigante

O primeiro impacto que Clay Christensen causava numa sala de aula de Harvard era de estranheza. O seu brilhantismo marcou uma época e a palavra “disrupção” inundou o mundo empresarial.

Estamos em Oxford no ano de 1977. Um jovem americano com 25 anos, estudante de econometria aplicada, é a estrela da equipa universitária de basquetebol. Depois de uma época de superação a sua equipa chegou à muito desejada final nacional. Só que a final é a um Domingo. Este jovem Clayton Christensen – professa uma religião em que o Sabbath é ao Domingo. Inquieto e com dúvidas, fala com o seu treinador e colegas de equipa. Estes ouvem-no, atónitos. O treinador diz-lhe para não se atormentar. Sendo uma final, “Deus compreenderá”.

Saltamos para Massachussets e o ano é 2002. O agora Professor Christensen é uma das estrelas académicas de Harvard Business School (HBS). Os seus cursos competem em popularidade com os de Michael Porter, o colosso da disciplina de Estratégia. Um seu livro chamado O dilema do inovador, publicado cinco anos antes, causa grande impacto argumentando que se as empresas fizerem tudo bem (aplicando a teoria de Porter), podem mesmo assim tornar-se irrelevantes. Christensen introduz assim o conceito de inovação disruptiva, que explica como estreantes numa determinada indústria, começando por servir clientes fora do radar dos líderes desse setor, acabam gradualmente por expulsar esses mesmos líderes. Analisando vários setores, Christensen demonstra assim como funciona na prática a destruição criativa de Schumpeter.

Tive o privilégio de ser seu aluno. O primeiro impacto que Clay Christensen causava numa sala de aula de HBS era de estranheza. Muito alto (2,03 m), vestido de forma conservadora, uma voz calma e um discurso muito pausado. Mas era esse mesmo registo que a pouco e pouco nos levava ao deslumbramento, tal era a originalidade das suas ideias e a força dos exemplos que apresentava. O Professor Christensen não forçava conclusões, procurava antes dar-nos novas ferramentas para o fazermos. E, como um colega seu uma vez referiu, a partir do momento em que se via o mundo pelo prisma dessas teorias, passava a ser muito difícil voltar a vê-lo de outra forma.

O seu brilhantismo marcou uma época e a palavra “disrupção” inundou o mundo empresarial. Um conceito que tem sido muitas vezes maltratado, ao ser generalizado a qualquer nova tecnologia e inovação. No entanto, e na semana da sua morte, constato que foi no campo ético que Christensen deixou nos seus alunos a impressão mais forte. A sua religiosidade forte poderia ter bloqueado essa partilha para alunos, como eu, mais distantes dessa realidade. Mas tal nunca aconteceu. Nas homenagens de alunos, o que sobressai é a memória das ferramentas que transmitiu para apoiar na decisão de dilemas éticos. Recordo-me, por exemplo, do seu alerta para os riscos de pensar “é só desta vez”. Ou seja, como em passos pequenos, com decisões éticas “na margem”, todos nós podemos erodir os nossos valores, até chegarmos ao dia em que já não nos reconhecemos ao espelho. Nas suas próprias palavras: “é mais fácil manter os nossos princípios 100% das vezes do que 98%”. Os 100%, todos sabemos, são impossíveis, mas ter esse exigente objetivo sempre presente só pode ajudar-nos.

Regressamos a Oxford, 1977, ao dia da grande final. Clayton Christensen, esfuziante de alegria, celebra a vitória da sua equipa. A partir da bancada.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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