Entrevista

“Não é porque descobrimos um estilo de vida mais sustentável, que vamos deitar tudo fora”

Desde pequena que Ana Milhazes se preocupa com o ambiente, mas foi em adulta que decidiu mudar de vida. A fundadora da plataforma Lixo Zero publicou um livro feito com tinta ecológica e papel reciclado. O trajecto que este faz é que a preocupa.

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A autora do livro "Vida Lixo Zero" em 2018 Andre Rodrigues/aRQUIVO

Depois de o livro estar praticamente pronto, Ana Milhazes descobriu um texto de 2013 que tinha “mais ou menos a mesma estrutura que o livro tem hoje”, conta em entrevista ao PÚBLICO na semana em que Vida Lixo Zero chega ao mercado. As suas ideias não mudaram assim tanto, até porque o segredo para reduzir a nossa pegada no planeta não é difícil de compreender, pode ser mais complicado de pôr em prática porque vivemos numa sociedade consumista em que, por vezes, é mais fácil comprar uma coisa barata e de plástico do que procurá-la lá por casa, exemplifica.

Em termos profissionais, a socióloga mudou de vida depois de ter tido um esgotamento, tendo-se dedicado exclusivamente ao seu projecto, o Lixo Zero Portugal, fazendo workshops e conferências por todo o país, e sendo também instrutora de ioga. Mas, mudou também a sua vida pessoal, por exemplo, tirando toda a “tralha” de casa. Não só deixou para trás o consumismo, mas também tem uma casa que é mais fácil de manter limpa, confessa ao PÚBLICO, a partir do Porto, onde vive e onde lançou o seu primeiro título há uma semana. Nesta quinta-feira, às 18h30, Ana Milhazes vai estar na Fnac do Chiado, em Lisboa.

PÚBLICO: Há uma pegada ecológica inerente à impressão e edição de um livro. Foi um dilema para si, a publicação do seu primeiro livro?
Ana Milhazes: Esta questão de publicar um livro, como aliás em tudo na minha vida, peso sempre o que é que é melhor ou o que é que é menos mau. O que me preocupa mais é a questão do trajecto que o livro vai fazer, quer até à casa das pessoas que o encomendam, quer até às livrarias onde vai estar. Tudo isso tem um impacto bastante negativo no planeta. Mas a questão que ponho é sempre: o que é que pesa mais? O facto de a mensagem chegar a mais pessoas e estas poderem começar a implementar estes hábitos no seu dia-a-dia ou a pegada de um livro é mais pesada? Ainda assim, acho que compensa publicar o livro com essas condições, como é óbvio (a capa não ser de plástico, o papel ser reciclado e também a tinta ser mais sustentável). Eu gosto muito e sempre liguei muito ao design e às coisas bonitas e gostava muito mais de ter um livro com cor, por exemplo, e com fotografia, só que isso já faria com que o livro tivesse uma pegada muito maior. Em todos os aspectos fui tentando pesar o que é que era menos mau. 

Sugere que os leitores façam o livro circular dentro no seu círculo de amigos. O objectivo é prolongar a vida do livro o máximo possível?
Sim, porque no fundo também é isso que eu faço com os livros. Eu tenho uma regra, desde há alguns anos, que é: só compro livros físicos que vou reler várias vezes, livros que eu sei que vou ler uma vez, vou à biblioteca, peço emprestado ou compro e depois vendo ou dou a alguém. Acho que os livros fazem sentido dessa forma: serem passados, ainda para mais este, porque tem dicas que se cada um de nós for passando aos outros, acaba por ter uma grande vantagem quer no nosso dia-a-dia, quer para nós próprios que poupamos imenso, temos um estilo de vida mais saudável para nós e, claro, para o planeta, que é esse o grande objectivo. 

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"Se não está disposto a mudar, pare”, está escrito na primeira página do livro. Estas dicas são apenas para quem já está disposto a mudar?
De alguma forma, sim. Mas também poderá ser para quem não está disposto a mudar totalmente, mas já começou a pensar no assunto e o livro pode servir de gatilho. Por isso é que quis fazer um livro prático, sempre com desafios no final de cada subcapítulo, precisamente para que as pessoas não fiquem só a pensar. Isso às vezes acontece-me, quando leio alguns livros fico muito inspirada, mas depois não parto para a acção. Neste caso, o que quero é que, mesmo que as pessoas não leiam o livro todo, leiam só partes, façam alguma coisa, nem que seja só uma coisa. Se as pessoas pegarem no livro e mudarem uma coisa nas suas vidas, para mim isso já é um símbolo de sucesso. 

E para si, qual foi o gatilho que a fez mudar de vida?
No meu caso, eu acho que foram vários. Sempre tive o bichinho do ambientalismo, desde pequena. Acho que também tem a ver com o facto de ter sido sempre muito ligada à natureza. Lembro-me de ter 7 ou 8 anos e já apanhar lixo e era eu que tomava essa iniciativa. O que acho que o grande impacto que teve para eu querer mudar foi um dia no início de 2016, eu estava a olhar para os vários caixotes de lixo e acendeu-se uma luzinha: como é que é possível uma pessoa ser tão preocupada com as questões ambientais e ainda produzir esta quantidade de lixo? Na altura já era vegetariana e também fazia a separação do lixo. Naquele dia, percebi “isto não pode ser assim, tenho de fazer alguma coisa”. Foi nesse dia que fui pesquisar e descobri o blogue da Béa Johnson, acho que até já me tinha cruzado com ele, mas lá está, às vezes, nós cruzamo-nos com coisas que, se na altura, não estávamos preparados para ler, passam. Ela tinha também o livro, o e-book, que eu comprei. Quando comecei a ler, nunca mais parei. Li até ao fim e comecei logo a pôr em prática.

Quais foram as primeiras medidas que pôs em prática?
Na altura, olhei para o meu caixote do lixo e vi duas coisas em grande quantidade: os restos orgânicos e as embalagens de plástico. Em relação ao lixo orgânico, já há alguns anos que encomendava um cabaz de frutas e legumes a um casal de agricultores e perguntei-lhes se faziam a compostagem. Disseram que sim. Então, todas as semanas, comecei a guardar o lixo orgânico num balde que tinha em casa. Só aí acho que reduzi o lixo em 60% ou 70 %.

Quanto às embalagens alimentares, foi a questão de comprar a granel. Foi por aí que começou o Lixo Zero Portugal (LZP). Nessa altura, comecei a pesquisar e não encontrei quase lojas nenhumas no Porto que vendessem a granel. Havia as mercearias antigas, mas que não vendiam coisas biológicas. Interessava-me que fosse a granel e biológico. Na altura, escrevi um e-mail para as lojas, a falar do meu blogue, do livro da Béa Johnson e a perguntar que tipo de produtos tinham a granel e se o cliente podia levar os próprios sacos. À medida que as lojas foram respondendo, fui criando um ficheiro com essa informação e depois, mais ou menos ao mesmo tempo, senti também a necessidade de criar um grupo de Facebook Lixo Zero Portugal para perceber se havia pessoas em Portugal que, de alguma forma já vivessem este estilo de vida ou quisessem iniciar. Eu sentia-me muito sozinha e pensei que se houvesse alguém que já vivesse desta forma, se calhar podia indicar-me onde é que havia lojas. Foi um bocadinho por egoísmo, mas também para ajudar as pessoas, à medida que eu também ia descobrindo algumas coisas. Mais tarde, uma pessoa do grupo, a Catherine, que é programadora informática, pegou no meu ficheiro e fez o site, onde encontramos as lojas todas que vendem a granel.

Depois eu tinha uma regra, que é algo que faço nos workshops e nas palestras, não é porque descobrimos este estilo de vida mais sustentável, que vamos deitar tudo fora e só compramos coisas sustentáveis, porque o mais sustentável é o que já temos em casa. Eu tenho um pente que já tem mais de 30 anos, é de plástico, mas está bom e nunca se partiu. Portanto, nunca vou pensar em substitui-lo por um de madeira, porque não vou precisar. Quando acabarmos de vez aquilo que temos em casa, já não caímos na tentação de comprar as coisas habituais, já vamos saber onde é que temos de comprar as coisas mais sustentáveis e vai ser mais fácil. Se deixarmos tudo para a última e não planearmos, vai ser difícil. 

Está a dizer que, por vezes, adoptar este estilo de vida pode ser uma desculpa para consumir ainda mais?
Pode ser. De facto, o que acontece muitas vezes é, como nós vivemos nesta sociedade consumista, isto já está tão automático na nossa cabeça: precisamos de alguma coisa, vamos ao supermercado ou ao centro comercial. Acho que ainda falta o foco para “não vou comprar”, “vou ver se consigo ficar um mês sem isto” ou “vou ver entre os meus amigos e familiares ou colegas de trabalho, que até têm isto para me emprestar, e só depois se eu precisar mesmo, é que vou comprar”. Dá mais trabalho deixar de comprar do que comprar uma coisa sustentável. O sistema está montado para que eu, assim que tenha uma necessidade, a preencha.

As pessoas já têm noção da quantidade de lixo que produzem ou vivem na ilusão?
Vivem na ilusão, completamente. As pessoas que têm alguém que trate da limpeza da casa, por exemplo, não têm a noção, de todo. O lixo desaparece por magia. Eu, que já tinha um bocadinho essas noções foi só naquele dia que olhei para o caixote do lixo é que realmente tomei a consciência que tinha lixo, porque até ali achava que estava a fazer bem e que não era preciso fazer mais. É mesmo preciso estarmos atentos e, até muitas vezes, pesar o próprio lixo ou contar o número de embalagens para termos um bocadinho mais a noção. 

O problema não está só no que consumimos, mas na forma desmensurada como o fazemos?
No fundo, até podemos não mudar completamente os hábitos e continuarmos a consumir produtos que não são os melhores. Imaginemos que entre uma coisa de vidro e uma de plástico, compro a de plástico e vou reutilizar. Na verdade, se for comprar essa de plástico e, durante 30 anos, não comprar mais nada, não há problema. No meu caso, até fiz bem em comprar um pente de plástico, em vez de um de madeira. O problema é que o plástico tornou-se um material tão barato que, muitas vezes, é mais barato eu comprar e deitar fora do que lavar e reutilizar. 

A tralha também nos impede de viver a vida?
Quando eu digo que tenho muita coisa, as pessoas até se riem. Eu quando digo que tenho a minha casa desarrumada, tenho por exemplo dois objectos em cima de uma mesa. Mesmo antes não tinha uma grande quantidade, apesar de ter muito mais do que o que tenho hoje. É engraçado perceber que vamos mudando. À medida que o nível de coisas que temos vai diminuindo, também nos vamos habituando e queremos menos. Lembro-me que, nessa altura, em que tinha muitas coisas, perdia os fins-de-semana a limpar a casa, isso não me permitia usufruir, por exemplo, da natureza e praticar exercício físico, ou de estar com amigos e familiares. 

O facto de ter muitas coisas, não sabermos onde elas estão, termos de cuidar delas, isto tudo traz preocupações. Quando temos coisas caras, estamos sempre com aquela questão se nos vão assaltar a casa. Eu costumo dizer, se acontecer alguma coisa à minha casa, não estou minimamente preocupada, porque tudo o que está lá, consigo recuperar de outra forma. O computador é das coisas mais importantes, porque é o meu trabalho, e normalmente anda comigo na mochila. Tudo o resto, se desaparecesse neste minuto, eu não tenho ligação. Este “destralhar” dos objectos e não estar tão obcecada pela compra, pelas promoções, fez com que eu conseguisse praticar o desapego. Sinto que a minha mente ficou mais liberta em relação a esse tipo de coisas. 

É um caminho que demora a percorrer?
Nunca é de um momento para o outro. Há pessoas que são um bocadinho mais rápidas. Eu comecei a diminuir um bocadinho em 2011. Depois, em 2016, foi quando descobri o desperdício zero. Acho que só em 2017 é que cheguei a um nível que fiquei satisfeita. Isto não é um destino, temos sempre desafios.

Foi nesse ano, em 2017, que se despediu do seu emprego. Por que tomou essa decisão?
Eu já me queria despedir há algum tempo. Apesar de gostar bastante do meu trabalho, havia coisas que me apaixonavam mais, como é a questão do ioga e do desperdício zero. Nós também somos fruto da influência da sociedade, ou seja, fui educada com a ideia de que o trabalho não deve ser algo que nós gostamos assim tanto, mas deve servir para pagar as contas, e que os hobbies e paixões nunca vão pagar contas. Nunca pensei que fosse possível viver das minhas paixões. Nesse ano de 2017, iniciei um processo de coaching na área profissional, precisamente para perceber o que podia fazer. Apesar de gostar do meu trabalho, sentia que não estava completamente preenchida e por isso tinha necessidade de me ocupar com outras coisas. Coisas essas que, apesar de eu gostar, me cansavam muito. Senti-me, desde o início do ano, bastante cansada, mas fui continuando sempre. As minhas paixões no fundo também me foram alimentando e permitindo que me aguentasse mais tempo no trabalho. É literalmente aguentar, por isso é que uso esse verbo.

Em Agosto, foi uma altura em que eu estava a trabalhar muitas horas, cerca de 12 a 14 horas por dia. Também foi uma altura em que estava a dar mais aulas de ioga e o projecto Lixo Zero estava a ter um grande impacto. De alguma forma, eu sabia que se fosse ao médico, ia ficar de baixa porque não estava bem. Mas, por um lado, não queria deixar mal a minha empresa e os meus colegas e, por outro, também os projectos paralelos. Fui esticando a corda. Um dia, ia para o trabalho, na Ponte da Arrábida e tive literalmente um apagão. Deixei de ver, mas voltei a mim muito rapidamente, foram uns segundos. Quando voltei a mim, pensei ‘hoje vai ser o meu último dia’. Não sabia como, mas sabia que aquele era mesmo o meu último dia. Fui trabalhar, tentei deixar tudo organizado para os meus colegas. Isto foi numa sexta-feira. Na segunda-feira, fui ao médico, que na altura me diagnosticou burnout. Disse que tinha de ficar em casa. Já tinha ataques de ansiedade todos os dias, vários até. Disse que eu tinha de tomar medicação e eu não queria, porque tomo nada. Ele disse ‘Ana, agora vai ter mesmo de tomar. Essas coisas naturais já não são suficientes’. Percebi que não estava bem e aceitei essa ajuda. 

E nessa altura, já tinha “destralhado” a sua vida quase toda.
Quase toda. No fundo, faltava o trabalho. Em casa, fiquei pior. Lembro-me que tinha ataques de pânico todos os dias, de manhã, quando acordava. A única forma que eu sabia para lidar com os ataques de pânico, era meditar. Não me dei bem com a medicação, não conseguia dormir. Acabei por desenvolver uma espécie de síndrome contra a luz dos aparelhos electrónicos. Como passava tantas horas ligada, não conseguia mais lidar com ecrãs. Fui obrigada a desligar de tudo o que eu gostava de fazer. O quadro acabou de evoluir para depressão. Voltei ao médico, que a diagnosticou. Mudou-me a medicação e voltei a não me dar bem. Depois tive uma médica que me acompanhou e que disse que eu devia tentar uma cura natural, através do ioga, da meditação, da alimentação saudável, contacto com a natureza, etc. Pediu para eu ter paciência, porque ia demorar mais tempo este processo, mas que era a coisa certa para mim. Chegou a dizer-me ‘ ainda bem que não se deu bem com a medicação, porque se calhar ia tapar estes sintomas. A Ana ia achar que estava melhor, ia voltar ao trabalho e aquele trabalho não é mesmo para si’. Achei muito curioso. Fiquei dois meses de baixa. Apesar de não me sentir bem no final dos dois meses, precisei mesmo de me desvincular do trabalho e despedi-me.

Nunca deixei de dar as aulas de ioga, mesmo estando doente, porque me faziam muito bem. Progressivamente comecei a dar mais aulas, a fazer os workshops e comecei a sentir-me melhor. Passado algum tempo, finalmente percebi que eu estava a viver 100% de acordo com aquilo que eu acreditava. Eu antes estava a ensinar os outros a ser sustentáveis com o planeta, mas primeiro temos que ser sustentáveis connosco, só depois com o resto. 

A mudança tem de começar de dentro? 
Em nós. Quando cuidamos melhor de nós, mesmo através da prática do ioga, vamos ter a necessidade de cuidarmos melhor do planeta. Acabamos por nos sentirmos ligados a todas as outras pessoas, quase como se fossemos um só. Esta ligação está muito presente no ioga. 

Escreve sobre a opção de não tomar medicamentos. Não poderá ser perigoso dar esse conselho aos leitores?
Digo sempre para se aconselharem com um médico. Quando deixei a medicação, fui aconselhada por uma médica. Tenho familiares na área da saúde, estudei sempre muito sobre estes assuntos, por isso, é uma área que estou por dentro. Tenho o meu médico de família, que me acompanha. Se estiver muito mal, tenho sempre aconselhamento médico. O grande problema da medicação e foi isso que percebi em mim, com as várias medicações que tomei, é que elas podiam estar a fazer de alguma forma bem a alguns sintomas, mas depois faziam muito mal a outras coisas. O benefício que eu estava a ter, por um lado, não compensava os malefícios que estava a ter noutras áreas.

O facto de ter encontrado uma médica que foi a primeira pessoa a dizer-me que o ioga e meditação eram as ferramentas certas para mim, mostra como a medicina está a evoluir nesse sentido. Os médicos estão cada vez mais informados sobre outro tipo de ferramentas que, muitas vezes não sozinhos, mas aliados à medicação, ajudam os doentes. 

No título do livro está “Lixo Zero”. Qual é a diferença entre “lixo” e “resíduo"?
Toda a gente sabe o que é lixo. No fundo, o lixo é tudo o que pomos nos caixotes. Deveria ser resíduo porque tudo devia ter uma segunda, terceira e quarta vida. No fundo, é esta questão da economia circular. Eu falo em lixo, mas na verdade para mim, essa palavra nem devia existir. Nada devia ser lixo. Tudo o que nós usamos e depois acabamos por descartar, devia ser utilizado noutra coisa qualquer. 

O título do primeiro capítulo do livro é “Lixo Zero: uma utopia?”. É uma utopia viver sem lixo?
Lixo Zero é uma meta que nunca vamos atingir. Se nós formos ao sentido literal, é utópico. Só o facto de respirarmos e fazermos necessidades já estamos a poluir. Quando falo em Lixo Zero não considero que seja utópico porque já o pratico, ainda que com algumas imperfeições. Acredito que seja perfeitamente possível porque há exemplos de algumas cidades que têm práticas de Lixo Zero e conseguem produzir poucos resíduos e dar uma segunda vida esse resíduos. Se cidades inteiras o conseguem fazer, então nós conseguimos também, de certeza.

Texto editado por Bárbara Wong