Opinião

Guerra cultural e acefalia: ressentimento como forma

Eliminar os adversários: eis a perversão que domina a mentalidade bolsonarista, travestida na forma de uma guerra cultural conduzida por acéfalos e ressentidos.

No dia 16 de janeiro, o hoje ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, anunciou o Prêmio Nacional de Artes, a fim de apoiar diversas manifestações artísticas com uma dotação orçamentária de 20,5 milhões de reais. Em tese, nada a objetar; muito pelo contrário.

Porém, em seu discurso kamikaze, o ex-diretor de teatro não somente parafraseou um texto de Joseph Goebbels, como também lançou mão de uma estética claramente associada à propaganda nazista: música de Richard Wagner como fundo, uma impostação de voz que parecia involuntariamente saída de um número cômico, olhares e esgares dignos de um canastrão talentoso emulando Jack Nicholson em O Iluminado, de Stanley Kubrick.

Melhor não falar muito do conteúdo constrangedor das ideias do ex-cruzado bolsonarista. Um pequeno e assustador exemplo: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional (...) ou então não será nada.” Ironicamente, o ultranacionalismo tropical se baseia no Discurso sobre o Teatro, proferido por Goebbels em 1933.

Em menos de 24 horas, em virtude da repercussão do episódio, um relutante Presidente demitiu um de seus mais leais seguidores. Ao que tudo indica, o Presidente desejava preservá-lo em seu cargo. Nesse caso, mais importante do que a inevitável demissão é o enfrentamento da pergunta decisiva: como é possível que alguém com as inclinações do ex-secretário tenha chegado tão longe?

A resposta aponta para uma inédita guerra cultural no cenário brasileiro, levada adiante com entusiasmo insensato pelo governo de Jair Messias Bolsonaro. Para as artes e as universidades, seu governo é o próprio apocalipse.

A guerra cultural bolsonarista depende duma intepretação profundamente equivocada da história política brasileira; equívoco agravado por uma analogia delirante, que, por sua vez, ameaça as instituições culturais e as universidades com uma virulência que não encontra paralelo nem mesmo durante a ditadura militar, iniciada com o golpe de 1964. A maneira mais econômica de surpreender a inanidade intelectual da cruzada bolsonarista consiste em analisar o documentário 1964 – O Brasil entre armas e livros.

Trata-se de documentário revisionista realizado por uma produtora, cujo nome é um autorretrato involuntário do atual governo: Brasil Paralelo. É importante, contudo, reconhecer o alcance incomum de sua narrativa conservadora da história nacional. A produtora já atingiu nada menos do que 20 milhões de espectadores.

O eixo narrativo do filme fornece a base teórica da guerra cultural tupiniquim. Destaque-se o subtítulo: ele vale por uma síntese de todo o projeto. Eis: em 1964, os militares tomaram o poder pelas armas, vencendo uma batalha decisiva, mas perderam a guerra ao descuidar dos livros, isto é, ao deixar de impor sua visão do mundo no universo da cultura. Tudo se passa como se um obscuro acordo tivesse sido firmado entre os militares e a “esquerda” – na ideologia bolsonarista, ela é a encarnação do Mal sem banalidade alguma. Numa enigmática “distensão”, a esquerda abriu mão de disputar o poder após o fracasso da resistência armada, e, em troca, os generosos generais da ditadura entregaram à esquerda a cultura e especialmente as universidades.

Essa interpretação é tão absurda que beira o grotesco. Dois ou três fatos bastam para refutá-la.

Menos de 10 dias depois do golpe de Estado, os militares promulgaram o primeiro dos Atos Institucionais que violentaram o que restava da ordem jurídica nacional. No dia 9 de abril, no que se refere à educação pública, o AI-1, além de suspender as primeiras semanas de aula, desencadeou a “Operação Limpeza”, denominação sutil dada pelos oficiais do regime, com a finalidade de “expurgar” as universidades públicas de “elementos esquerdistas”. Reitores e professores foram cassados e tiveram seus direitos políticos revogados. Aliás, no dia 1 de abril, a União Nacional dos Estudantes (UNE) já tinha sido incendiada e reduzida a cinzas. No mesmo 9 de abril, a Universidade de Brasília sofreu a primeira de duas invasões militares. Em 9 de novembro do mesmo ano, um acuado Congresso Nacional aprovou a Lei Suplicy, extinguindo a UNE e todas as outras inúmeras entidades estudantis.

Na esteira do AI-5, o mais infame dos atos “jurídicos” da ditadura, que, ao abolir o direito ao habeas corpus, na prática liberou a tortura como política de Estado, editou-se em 26 de fevereiro de 1969 o draconiano Decreto-Lei 477, que permitia “legalmente” demitir professores e expulsar alunos. Como se não bastasse, o Ato Complementar n.° 75, de outubro do mesmo ano, bania os professores da própria profissão! Aqueles “punidos”, nos termos da lei, “ficam proibidos de exercer, a qualquer título, cargo, função, emprego ou atividades em estabelecimento de ensino”.

Esses fatos são suficientes para mostrar que o fundamento da guerra cultural bolsonarista é uma rematada caricatura, imaginada por pessoas de repertório limitado e informação wikipédica: são os autodidatas do nada.

Mas, se o mito é o nada que é tudo, a acefalia bolsonarista tornou aquela caricatura a realidade das políticas de Estado relativas à educação e à cultura no Brasil. As pontas se atam e finalmente entendemos porque o ex-secretário acreditou que sua patética performance passaria incólume. A guerra cultural liderada por incultos que hostilizam, dia sim e o outro também, as conjugações verbais e a ortografia da língua de Camões, tem como motor uma analogia delirante, cujo corolário evoca a “solução final” nazista.

Ora, se em 1964 os militares venceram a batalha das armas, mas perderam a guerra dos livros, de igual modo, a vitória do Messias Bolsonaro pelo voto, demanda o triunfo na área da cultura – ou o sucesso eleitoral não será nada. Como fazê-lo? Os ideólogos do bolsonarismo não hesitam em empregar um verbo imprudente: o passo definitivo exige eliminar a esquerda, “infiltrada” no aparelho estatal. Logo, se a ditadura alvejou indivíduos, o bolsonarismo é ainda mais radical e busca destruir por dentro as universidades e as instituições culturais.

Eliminar os adversários: eis a perversão que domina a mentalidade bolsonarista, travestida na forma de uma guerra cultural conduzida por acéfalos e ressentidos. 

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico