Patrícia Almeida

Como o Brasil está a contracenar com Bolsonaro

As eleições de Outubro tornaram ainda mais definitiva a noite que se abateu sobre a produção artística brasileira. Mas se a política roubou o palco à poesia, há nisso o tremendo fulgor que as próximas cinco semanas de DDD + FITEI tratarão de espelhar, zelando para que, mesmo havendo léguas a nos separar, nos vejamos reflectidos nesse impiedoso espelho.

Vinda do Chile, onde tal como no Brasil se tem demonstrado um problema que várias décadas de eleições livres não puderam resolver, a palavra DEMOCRACIA esmaga o palco do Teatro da Fundação Armando Álvares Penteado, no bairro privilegiado de Higienópolis, em mais uma noite da MITsp — Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Fantasmagóricas, desproporcionadas, as dez maiúsculas soletram no seu vermelho vivo, incandescente (a mesma cor sanguinária da madeira que acabou entronizada no nome do país, como lembrará outro cortante espectáculo do festival), a ferida que se abriu a 28 de Outubro, quando 56% dos eleitores brasileiros consumaram um cenário que para os outros 44% continua a parecer, meio ano depois, um pesadelo impraticável, invivível: a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República.