O flamenco pouco ortodoxo – mas com memória – de Rocío Márquez

Uma das vozes mais importantes do flamenco contemporâneo apresenta-se este fim-de-semana em Lisboa (Centro Cultural de Belém) e no Porto (Casa da Música). A cantaora traz consigo Visto en el Jueves.

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“Flamenco é memória”, acredita Rocío Márquez. É assim que uma das principais vozes do flamenco contemporâneo explica o porquê de, ao quinto álbum, Visto en el Jueves, ter decidido privilegiar um reportório mais ou menos esquecido. Na verdade, o conceito deste disco nasce de uma circunstância geográfica. Durante alguns anos, Rocío Márquez viveu perto da Calle Feria, uma das ruas mais cativantes de Sevilha, onde tem lugar, às quintas-feiras (jueves), um mercado de rua dedicado a todo o tipo de objectos em segunda-mão. “Vendem de tudo”, garante ao PÚBLICO a cantaora que este fim-de-semana traz o seu novo disco até Lisboa (Centro Cultural de Belém, sábado) e Porto (Casa da Música, domingo). “Até os objectos mais imagináveis se encontram ali.”

Durante algum tempo, Rocío frequentou regularmente o mercado, movida pela obsessão de desencantar antigos discos de vinil e velhinhas cassetes com os mais variados intérpretes de flamenco. “Neles”, lembra, “encontrei verdadeiros tesouros, autênticas maravilhas”. E à medida que passava pelos ouvidos todas essas descobertas, foi percebendo que em vários desses discos havia um tema “que estava sempre à espera que chegasse”. “Depois dei-me conta de que todos esses temas se relacionavam com qualquer coisa especial na minha história de vida – recordavam-me um momento, uma pessoa, exercitavam-me a memória. E percebi que era por isso que me causavam tanta emoção.”

Visto en el Jueves corresponde à vontade que Rocío Márquez tem de partilhar essa emoção com o seu público, resgatando temas de Concha Piquer, Rocío Jurado, Turronero ou Bambino. Para o novo disco, recolheu composições populares a partir de versões menos conhecidas mas também verdadeiras revelações – como Andaluces de Jaén, que mostra o celebrado cantaor Fosforito numa faceta “que poucos conhecem”, a de autor. “Devemos ter muito presente na memória tudo aquilo que vivemos a nível artístico e histórico para que possamos aprender e melhorar”, defende a intérprete.

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Este é também o álbum em que Rocío Márquez regressa a uma sonoridade mais tipicamente flamenca (pelo menos na aparência). Firmamento (2017) fora produzido por Raül “Refree” (músico e produtor associado aos primeiros álbuns de Sílvia Pérez Cruz e Rosalía), entre o flamenco clássico, o folclore popular, a música pop e o jazz, enquanto em Diálogos de Viejos y Nuevos Sones (2018) levara a cabo uma espantosa parceria com Fahmi Alqhai na viola da gamba. Desta vez, a voz volta a ter por principal companhia a guitarra flamenca, ainda que abordada com a liberdade estilística de Canito. “Visto en el Jueves pode parecer uma aproximação ao mais tradicional”, analisa a cantaora, “mas os arranjos e o sítio para onde os levamos estão muito na linha de Firmamento”. Nesse álbum, recorda, quis “afastar-se dos arranjos tradicionais e mudar o timbre”; desta vez, mantém uma invenção de arranjos que não se divorcia do timbre da guitarra flamenca. Mas todas estas decisões, sublinha, “não são tão mentais quanto circunstanciais e emocionais”.

Foi a emoção a guiá-la quando, há seis anos, actuou pela primeira vez com Canito. Assim que terminaram, disse-lhe logo que teriam de fazer algo juntos. “É a tensão que ele gera em palco que me atrai”, diz. “Quando algo me emociona muito fico com pele de galinha e tento seguir por aí, porque acredito que, de repente, se abre um caminho. E não é assim tão fácil encontrar aquilo que nos emociona.”

O caminho pessoal

Rocío Márquez cresceu numa casa em que se cantava flamenco e, desde cedo, ainda em Huelva, começou a aventurar-se no género de mais forte carga identitária da música espanhola. Em pouco tempo, ainda miúda, foi-se vendo enredada no circuito profissional. Das festas populares às romarias, às festividades natalícias e ao intercâmbio entre peñas flamencas (associações locais com espectáculos regulares), o seu nome começou a ser soprado de boca em boca; a vitória no concurso Lámpara Minera criou depois uma enorme expectativa junto do público mais tradicional do flamenco. “Tinha consciência de que a maioria dos aficionados esperava que continuasse nessa linha ortodoxa, mas as minhas necessidades artísticas e criativas começaram a seguir por outro lado”, recorda acerca do início da sua carreira. “E cheguei a um ponto em que ou satisfazia as pessoas ou me satisfazia a mim.” A resposta a essa encruzilhada foi dada com a gravação de El Niño (2014), o seu segundo álbum. Foi quando passou a sentir que havia um flamenco que era seu e não apenas uma reprodução dos modelos clássicos que já conhecia.

É essa busca inquieta que Rocío Márquez prossegue ainda hoje, numa altura em que o flamenco “vive um momento muito bonito”. “Creio que é um período interessante, pela variedade de propostas – não só técnicas mas também conceptuais. Temos artistas muito tradicionais e outros muito vanguardistas.” Essa variedade, acredita, desmonta um dos mitos do flamenco, de que há um único estilo certo para o cantar. Outro dos mitos, garante, é o entendimento do “flamenco como uma arte ancestral, quando não tem mais de século e meio”. “Esse tipo de mito foi importante num momento da História para a sua sobrevivência e para que crescesse como arte, mas agora devemos dar-lhe conhecimento, luz e liberdade.” É essa luz, é essa liberdade que Rocío agora reclama para o seu caminho.

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