Uma estranha forma de pneumonia está a preocupar a China. Causa é desconhecida

As autoridades rejeitam que se trate de pneumonia atípica (ou SARS, como é mais conhecida), síndrome respiratória do Médio Oriente (ou MERS), influenza, gripe aviária ou adenovírus. Mas não sabem ao certo o que é.

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Bobby Yip/ Reuters

Há uma nova doença na China a intrigar cientistas e preocupar autoridades: ainda não se sabe o que é ao certo. Os primeiros relatos da doença – cujos sintomas são semelhantes ao de uma pneumonia, com febre alta, infecções respiratórias e lesões pulmonares – datam de Dezembro e estão, por enquanto, circunscritos à região de Wuhan. A poucas semanas das celebrações do Ano Novo lunar, em que milhões de chineses viajam dentro do país, a misteriosa doença pôs as autoridades chinesas em polvorosa.

Pelo menos 59 pessoas contraíram esta nova forma de pneumonia, todas elas em Wuhan, uma região central da China com cerca de dez milhões de habitantes. Alguns pacientes — sete, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), que lhe chama “pneumonia de causa incerta” — estão em situação crítica e foram postos de quarentena. Até agora ainda não foi referida qualquer morte. Foram ainda identificadas pelas autoridades 120 pessoas que estiveram em contacto directo com os infectados de quarentena.

Os responsáveis de Saúde chineses estão a tentar conter o surto antes do arranque das celebrações do Ano Novo chinês, a 25 de Janeiro, altura em que muitos chineses aproveitam para ir para casa. As autoridades deixam o alerta: as pessoas devem estar atentas a sintomas como febre, dificuldades respiratórias ou dores musculares, escreve o The Guardian. 

Para já há algumas certezas. A Comissão de Saúde chinesa rejeita que se trate de pneumonia atípica, mais conhecida como “síndrome respiratória aguda grave” (SARS, na sigla inglesa). O último surto desta doença começou no Sul da China e foram registados mais de oito mil casos em todo o mundo. Cerca de 800 pessoas morreram entre 2002 e 2003. O facto de o Governo chinês a ter escondido, num primeiro momento, tornou-a ainda mais mortífera. Desde 2004 que não há registo de nenhum novo caso a nível mundial e a comunidade médica considera a SARS erradicada. Os sintomas de SARS são comuns a outras infecções respiratórias virais: febre, calafrios, dores musculares, tosse e dificuldades respiratórias.

Em comunicado, as autoridades chinesas descartaram também a hipótese de se tratar de síndrome respiratória do Médio Oriente (ou MERS), influenza, gripe aviária e adenovírus.

“Informação limitada” não permite avaliar risco

Ainda não se sabe com certeza como acontece a transmissão desta doença, mas de acordo com as autoridades de Saúde de Wuhan, não há qualquer prova de que a transmissão ocorra de humano para humano.

Alguns dos primeiros infectados trabalhavam num mercado de peixe em Wuhan. Para além do peixe e marisco, vendia-se, nesse mesmo espaço, animais vivos – como pássaros, coelhos ou cobras. A transmissão da doença dos animais para os humanos ainda não foi posta de parte pelas autoridades. O mercado está fechado desde o início de Janeiro para desinfecção e o encerramento deverá — pelo menos em teoria — travar a transmissão da doença.

A OMS está a monitorizar de perto a situação e mantém contacto com as autoridades chinesas, mas descartou a necessidade de impor restrições a viagens ou comércio para já. No início de Janeiro, a OMS “pediu mais informação às autoridades nacionais para avaliar o risco”. “Há informação limitada para determinar o risco geral deste tipo de pneumonia de etiologia desconhecida.”

As pessoas tentam entretanto lutar contra a incerteza. A hashtag #WuhanSARS começou a ser usada no Weibo, o equivalente chinês do Twitter e foi, entretanto, censurada. Pelo menos oito pessoas estão a ser investigadas pelas autoridades por “espalharem rumores” sobre a misteriosa doença. “Não tenho o direito a falar e nem sei a verdade”, escreveu um utilizador naquela rede social, citado pelo New York Times. “Será que não tenho direito a entrar em pânico e salvar-me?”

Regiões e países vizinhos apertam segurança

Enquanto se tenta deslindar o mistério da nova estirpe de pneumonia, vários responsáveis fora da China continental anunciaram a adopção de medidas suplementares de segurança e higiene.

Nesta terça-feira, a chefe do executivo de Hong Kong, Carrie Lam, anunciou que os responsáveis de Saúde “reforçaram medidas em todas as fronteiras”. Desde segunda-feira que todos os passageiros de comboios que cheguem àquela região semiautónoma são sujeitos à medição da sua temperatura corporal. De acordo com as autoridades hospitalares de Hong Kong, pelo menos 21 das pessoas foram encaminhadas para as unidades de saúde locais com febre ou sintomas de infecção respiratória, mas nenhuma delas com os sintomas da estirpe de pneumonia de Wuhan.

O director dos Serviços de Saúde de Macau anunciou no domingo que o nível de alerta de emergência foi elevado para três para reforçar a prevenção e coordenação na resposta à pneumonia viral de Wuhan, o segundo mais grave da escala de cinco. Lei Chin Ion sublinhou não ter sido registada qualquer ocorrência em Macau, que tem duas ligações aéreas diárias com Wuhan. Como resultado, alguns casinos macaenses estão a realizar medições da temperatura corporal à entrada das salas de jogo, com o apoio das autoridades de Macau, escreve a agência Lusa.

Na Coreia do Sul estão a ser preparados espaços de quarentena, com pessoas destacadas para esse efeito. Em Singapura, é medida a temperatura a quem chega vindo de Wuhan.