Opinião

“Os dois Papas” e a revolução de Bento XVI

Sobre os méritos e a identificação com o Papa Francisco, não preciso de falar. Mas olhar mais atentamente para Joseph Ratzinger, talvez seja um dos benefícios colaterais deste filme.

1. O filme Os dois Papas é um filme que interpela. Merece o debate, a reflexão e até a controvérsia que entretanto gerou. O filme tem limitações e não explora todo o potencial da ideia que lhe subjaz. Tem também momentos, retratos e diálogos notáveis, a começar pela interpretação de Anthony Hopkins, encarnando a figura do Papa Bento XVI. Mas o filme, mesmo que inspirado por personalidades reais e acontecimentos verídicos, é um filme. Não é uma peça jornalística, um documento histórico, nem sequer um documentário. Não é história, é uma história. Vale pela sua dimensão metafórica e narrativa, não pela sua exactidão descritiva. Como metáfora, como história exemplar, é talvez muito mais verdadeiro e muito mais próximo do essencial do que a sua leitura acrítica, denotativa e, por vezes, conjunturalmente interessada deixa suspeitar.

2. O encontro entre Bento XVI e o Cardeal Bergoglio, encontro que domina todo o filme, não é decerto verídico. Pelo menos, na sua extensão, intensidade e profundidade. Mas não sendo verídico, nem por isso deixa de ser verdadeiro. Não deixa de ser verdadeiro naquilo que é essencial, traduzindo e significando o encontro entre dois crentes, dois homens de boa vontade, com uma lúcida consciência do momento crítico que atravessa a Igreja a que radicalmente entregaram as suas vidas. Dois homens que, munidos de percursos distintos e com mundividências diversas, se dispõem a partilha-las e a revisita-las. Duas visões que estão disponíveis para dialogar, transigir, perdoar, renunciar, aceitar. Duas visões humanas que, cientes das terríveis ameaças que as cercam, crêem ser depositárias de uma missão histórica, que absolutamente as transcende e que não podem alienar ou abandonar. A humildade e a abertura mostrada pelas duas personagens, a intenção recta e orientada ao bem comum, a capacidade de duvidar, de argumentar, de contraditar, de pôr em causa, de reconhecer e de conceder revelam um desígnio e uma aspiração nos antípodas do calculismo, do cinismo, do maquiavelismo, do mal.

3. O filme ganharia em, simetricamente ao que faz com Bergoglio, ter dado atenção ao percurso de Joseph Ratzinger. Regressar aos tempos do nazismo, à sua ascensão como teólogo, ao papel eminentemente progressista que teve no Concílio Vaticano II ao lado de Hans Küng, à regressão que fez com o Maio de 68 e ao tempo em que presidiu à Congregação para a Doutrina da Fé. É justo dizer que algumas das posições mais rigidamente conservadoras imputadas a Bento XVI, logo na parte inicial da história, não são rigorosas. Em vários domínios, apesar de uma linguagem hermética e pouco acessível, ele deixa pistas que abrem a porta a muita da pedagogia de Francisco. O problema com Bento XVI não são tanto as suas posições, mas a apropriação que certas correntes conservadoras abusivamente querem fazer delas. São, aliás, essas correntes as que mais desconforto têm com este filme que, ao invés do que insistentemente querem fazer passar, dá uma imagem bela e profundamente humana de Bento XVI (que deve muito ao perfeccionismo de Hopkins).

4. O filme de Meirelles talvez não o acentue suficientemente, mas o grande gesto revolucionário é de Bento XVI, não do Cardeal Bergoglio. Seguramente um gesto revolucionário com impacto na história milenar da Igreja. Um gesto que, aliás, a Cúria e aquelas correntes conservadoras que sempre o invocam decerto não lhe perdoarão. Esse gesto é evidentemente a renúncia ao papado. Ao abdicar da cátedra de São Pedro, Bento XVI faz uma verdadeira reforma no modo de compreender o lugar e o papel do Papa. Ao renunciar, Bento XVI tem plena consciência da ruptura que implica a sua decisão. Com a sua inteligência superior e com o seu conhecimento profundíssimo da história da Igreja, ele sabe que, depois disso, dificilmente as coisas ficarão iguais. Tanto mais que a renúncia contrasta com a estóica resistência da sua grande referência, o Papa João Paulo II. Paradoxalmente, ambos os gestos são admiráveis e defensáveis: um, pelo exemplo que dá a todos os que, por qualquer motivo, padecem de uma incapacidade; outro, pelo desapego e generosidade que traduz.  

A renúncia implica uma autêntica “dessacralização” do papado. Com tudo o que isso comporta ao nível de uma visão mais colegial e mais sinodal da Igreja; mas também da compreensão do múnus papal, não como uma “dignidade” irrenunciável”, mas como um serviço temporário. Ela revela também uma enorme humildade, capaz de reconhecer incapacidades e limites. E envia uma mensagem de que a Igreja precisa de reformas que, até pela “captura” que muitos quiseram e querem fazer de Bento XVI, ele não estaria em condições de conduzir. Para lá de, no plano pragmático, ter evitado que a sua sucessão fosse manipulada pela Cúria. O efeito “preventivo” da renúncia foi manifesto, quer porque atraiu uma visibilidade para o processo de sucessão que impedia a sua manipulação, quer porque surpreendeu possíveis “manipuladores”, quer porque a simples existência física de Bento XVI dava garantias únicas de lisura.

5. Não é nada plausível a assunção do filme de que Bento XVI terá falado antecipadamente da sua renúncia ao Cardeal Bergoglio e que tenha feito algo para que este fosse eleito Papa. Já não é de excluir que pudesse pensar que ele seria um dos sucessores mais prováveis, atentos os resultados do Conclave de 2005.

Sobre os méritos e a identificação com o Papa Francisco, não preciso de falar, tantas as vezes aqui os evoco. Mas olhar mais atentamente para Joseph Ratzinger, talvez seja um dos benefícios colaterais deste filme. Um homem que aceitou ser Papa depois de João Paulo II, legado que sempre ofuscaria qualquer sucessor. Um homem que nunca deixou de escrever como teólogo e não como Papa, separando significativamente as duas esferas (afinal não era só Papa). Um homem que plenamente consciente do significado transcendente do seu gesto, renunciou ao Papado. E, com isso, nos deu (ou deixou que nos dessem) Francisco.

SIM Pacto das cidades livres. Os presidentes de câmara das quatro capitais dos países de Visegrado firmaram um pacto pró-europeu em Budapeste contra os governos populistas dos seus Estados.

NÃO Augusto Santos Silva. Apesar das desculpas, um ministro dos negócios estrangeiros não é um sociólogo. Num governo que descura a economia, só faltava um adepto da diplomacia anti-económica.