Sydney prepara-se para o fogo-de-artifício de Ano Novo cercada pelas chamas

Toda a Austrália tem temperaturas acima de 40 graus, 100 mil pessoas foram forçadas a fugir da costa do estado de Victoria e há menos animais do que se esperava a serem salvos - o inferno de chamas não dá sinais de se abater.

Montanhas Azuis
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Um canguru de patas queimadas, socorrido nas Montanhas Azuis australianas Jill Gralow/REUTERS
Montanhas Azuis
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Um opossum com queimaduras Jill Gralow/REUTERS
Coala
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Um coala sedento parou ciclistas para beber água do seu cantil INSTAGRAM/@BIKEBUG2019/REUTERS

Sydney vai manter o fogo-de-artifício de Ano Novo que torna a cidade um ícone das festas da passagem de ano, apesar dos incêndios florestais que consomem grandes áreas da Austrália, e de o próprio vice-primeiro-ministro de Nova Gales do Sul, o estado do qual Sydney é a capital, ter querido cancelá-los, porque o fogo cerca a cidade.

Se ainda fossem necessárias provas da gravidade da situação, morreu mais um bombeiro voluntário nesta segunda-feira e dois outros sofreram queimaduras quando o camião em que seguiam para combater um incêndio no estado de Nova Gales do Sul se virou, ao ser atingido pelos ventos de velocidades extremas que favorecem a progressão dos incêndios florestais.

Estes bombeiros integram o Serviço Rural de Bombeiros de Nova Gales do Sul, que se apresenta como “a maior organização do mundo de voluntários para o combate a incêndios”. São cerca de 70 mil, altamente treinados e, com a excepção de algumas chefias, não recebem salários, diz a BBC. Têm estado na linha da frente do combate ao mar de chamas em que se transformou a Austrália nos últimos meses. Pelo menos três mil destes voluntários combatem diariamente incêndios da dimensão de pequenos países europeus, como Portugal.

Com as temperaturas acima de 40 graus em todos os estados australianos, incluindo Nova Gales do Sul, os alarmes de risco de incêndio soaram em todo o estado. Circulou uma petição para cancelar o fogo-de-artifício em Sydney, que juntou mais de 270 mil assinaturas, diz a BBC, mas o Serviço Rural de Bombeiros acabou por dar luz verde às comemorações. Ainda assim, algumas comunidades decidiram aceitar a sugestão da petição e cancelaram ou adiaram os fogos-de-artifício, incluindo duas áreas de Sydney. O concelho de Parramatta anunciou que em vez de fazer estoirar os fogos no céu, ia doar o dinheiro do espectáculo ao serviço de bombeiros voluntários.

A presidente da Câmara de Sydney, Clover More, disse no entanto que cancelar o espectáculo de fogo-de-artifício teria poucos efeitos práticos e acabaria por afastar turistas, penalizando a cidade. Este espectáculo é visto por mil milhões de pessoas em todo o mundo, disse a autarca.

Mas as chamas lavram noutras zonas da Austrália. Foi dada ordem para 100 mil pessoas deixarem as suas casas em cinco subúrbios de Melbourne, a segunda maior cidade australiana, no estado de Victoria, por causa dos incêndios. No domingo, quatro incêndios descontrolados avançaram para zonas costeiras, sobretudo East Gippsland, obrigando residentes e turistas a fugir, com temperaturas acima de 40 graus e colunas de fumo que se elevaram a uma altura de 12 km, relata o Guardian.

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Os incêndios na Austrália a 26 de Dezembro vistos do espaço EPA/NOAA

Os incêndios na Austrália arrasaram mais de quatro milhões de hectares em cinco estados, e milhões de animais da fauna endémica australiana morreram ou estão a sofrer severamente com as chamas. Multiplicam-se nas redes sociais vídeos como os de um coala sedento que procura o cantil de um humano, um opossum com queimaduras graves a beber água, ao colo de uma mulher que o embrulha numa toalha, um canguru com ligaduras nos pés é embalado como um bebé.

Números oficiais citados pela Reuters indicam que 30% da colónia de coalas na costa Nordeste (entre 4500 e 8400) podem ter morrido nos incêndios. Não se sabe ao certo quantos animais selvagens terão morrido, mas avalia-se que podem milhões podem ter sido vítimas das chamas.

Tracy Burgess, voluntária nos Serviços de Informação, Salvamento e Educação sobre a Vida Selvagem (WIRES na sigla em inglês) disse à Reuters que estão a receber menos pacientes animais do que seria de esperar, e que isso é preocupante. “Estão a chegar poucos animais. Tememos que não cheguem porque já não existam, basicamente”, disse à Reuters.

O especialista em répteis Neville Burns teme que as populações não consigam recuperar durante muitos anos. “A destruição das populações de répteis vai ser enorme, e o mesmo acontecerá com as aves, mamíferos, tudo”, afirmou, enquanto cuidava de uma cobra preta de barriga vermelha salva nas Montanhas Azuis.