O ministro, as cheias do Mondego e o aeroporto do Montijo

Se o ministro se preocupa, e bem, com a sustentabilidade das aldeias do Mondego instaladas no leito de cheia, por que razão não assume a mesma previdência em relação ao Montijo?

Não se espere que o ministro do Ambiente passe a ser o que ele não é e deixe de dizer o que pensa sobre temas quentes sob a sua tutela. João Pedro Matos Fernandes achou “avisado” dizer que no futuro próximo os valores de compra em segunda mão dos carros a diesel iriam baixar e não se coibiu de o dizer; quando se levantou um coro de protestos contra a demolição do Prédio Coutinho, em Viana do Castelo, e em defesa dos seus resistentes moradores, o ministro não teve medo das palavras e afirmou que, nesse caso, “os abusados somos todos nós, os poderes públicos”; e, mais recentemente, disse a propósito das cheias no Baixo Mondego que os habitantes das aldeias inundadas tinham de começar a pensar em “mudar de sítio”. O que, como era de esperar num espaço público em que os políticos são irresponsáveis até prova em contrário, lhe mereceu fortíssimas críticas.

Que os ministros devem ter o dom da moderação disso ninguém duvida. Que a moderação tem de ser exponenciada quando em causa estão pessoas ou populações a braços com particulares dificuldades, como as que desesperam por salvar os seus bens das cheias, todos estão de acordo. Mas se a oportunidade para comunicar ideias fortes e polémicas merece censura, convém não esquecer a sua substância. E aí teremos de reconhecer que, sim, os automóveis a diesel têm o futuro contado, que os moradores do Prédio Coutinho estão a desobedecer a legítimas decisões do poder judicial e que as previsões decorrentes das alterações climáticas vão tornar a viabilidade da vida humana junto de leitos de cheia muito mais difícil de garantir. Por muito que se façam obras de mitigação de efeitos, por verdadeira que seja a tese de que o Estado tem sido relapso em bacias como a do Mondego, esta é uma verdade inconveniente com a qual temos de nos confrontar.

Mas sendo verdade que vamos ter de nos afastar das zonas costeiras ou das margens de rios mais sensíveis à crise climática, também é verdade que não faz sentido algum projectar um aeroporto numa área sujeita aos mesmos riscos e vulnerabilidades. Mesmo que a pista do Montijo fique a uma cota cinco metros superior à actual, as previsões apontam para o risco de inundações e de efeitos de tsunami a partir de 2050 ou 2070. O que nos leva à questão essencial: se o ministro se preocupa, e bem, com a sustentabilidade das aldeias do Mondego instaladas no leito de cheia, por que razão não assume a mesma previdência em relação ao Montijo?