China apela às suas empresas para investir em Hong Kong

Pequim quer mais investimento na região administrativa e um maior controlo sobre as empresas locais. É uma das medidas para tentar acalmar os protestos.

Hong Kong
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Pequim quer mais intervenção empresarial chinesa na economia de Hong Kong LUCY NICHOLSON/Reuters

A China apelou às suas maiores empresas públicas para assumirem um papel mais activo em Hong Kong, com mais investimento e controlo sobre as empresas daquele centro financeiro, disseram fontes conhecedoras do assunto, numa altura em que Pequim tenta pôr fim a meses de contestação na cidade.

Representantes de alto nível de quase 100 das maiores empresas estatais chinesas, reunidos em Shenzen, cidade fronteiriça de Hong Kong, foram esta semana instados a fazer a sua parte para amenizar a maior crise política com que a China se depara em anos, afirmaram à Reuters três executivos, um dos quais presente na reunião. 

As empresas estatais prometeram no encontro investir mais nas indústrias de Hong Kong, incluindo no imobiliário e no turismo, para criarem empregos para cidadãos locais e estabilizar os mercados financeiros, explicaram dois funcionários chineses, que pediram anonimato para poderem discutir assuntos internos. Durante a reunião não se especificaram os tipos de investimento.

Entre as empresas públicas participantes estavam a gigante petrolífera Sinopec e o conglomerado China Merchants Group, disse uma das fontes. O encontro foi organizado pela Assets Supervision and Administration Commission (SASAC), o poderoso órgão central que fiscaliza o sector público chinês e que inclui algumas das maiores empresas do mundo em indústrias como aço, energia, transporte marítimo e telecomunicações.

A SASAC não respondeu ao pedido de comentário da Reuters. Funcionários da Sinopec e do China Merchants Group também não responderam aos pedidos de comentário por telefone e email.

Às empresas foi-lhes pedido que procurem formas de deter o poder de decisão e controlar as empresas em Hong Kong e não se ficarem apenas por deter participações, acrescentou uma das fontes conhecedoras do conteúdo da reunião.

“A elite empresarial em Hong Kong não está, seguramente, a fazer o suficiente. A maioria, pura e simplesmente, não é um de nós”, disse um executivo de uma empresa estatal presente.

O chefe do Partido Comunista na SASAC, Hao Peng, apareceu na quarta-feira num fórum para a iniciativa de infra-estruturas da Nova Rota da Seda, em Hong Kong, e disse que as empresas estatais estão a procurar formas de cooperar em grandes projectos na cidade, de acordo com um comunicado da SASAC. Hao, acompanhado por um grupo de executivos de empresas públicas chinesas, encontrou-se com Carrie Lam, chefe do executivo de Hong Kong.

Serviço Nacional

Apesar das maiores empresas estatais chinesas estarem orientadas para o lucro e muitas serem cotadas na bolsa, espera-se que defendam o interesse nacional, incluindo a manutenção de níveis de emprego elevados e ajudando Pequim em iniciativas como a das infra-estruturas da Nova Rota da Seda.

Os meses de grandes e muitas vezes violentos protestos em Hong Kong começaram com uma legislação que permitiria extraditar os suspeitos de crimes para o interior da China. Os protestos foram motivados pelo que muitos dizem ser a crescente influência chinesa, prejudicando o modelo de “um país, dois sistemas” pelo qual a China governa Hong Kong desde a transferência de soberania do Reino Unido, em 1997. Uma crescente influência que também se fez com a compra de activos de empresas e de imóveis.

A economia de Hong Kong foi em tempos dominada por empresas de comércio com raízes no século XIX. Os magnatas locais começaram a dominar muitas das empresas na última metade do século XX, criando grandes aglomerados, como a Hutchison Holdings, de Li Ka-shing.

Pequim tem pressionado as empresas de Hong Kong para que sejam mais patriotas e chegou inclusive a expressar descontentamento, numa reunião, em Agosto, com as elites empresariais da cidade. Disse-lhes que não estavam a fazer o suficiente para acabar com os protestos, segundo uma notícia da agência estatal chinesa Xinhua.

Na reunião do mês passado, com cerca de 500 empresários e políticos pró-Pequim de Hong Kong, as autoridades chinesas apelaram a que “não tivessem medo e tomassem a dianteira”, para travar a violência na cidade, relatou a Xinhua.

Um dos legados da era colonial de Hong Kong, a Cathay Pacific Airways, tornou-se uma das maiores baixas entre as empresas por causa dos protestos, depois de Pequim ter exigido a suspensão de funcionários que apoiavam as manifestações. O presidente da empresa anunciou planos para se afastar em Novembro, menos de três semanas depois de o seu antecessor, Ruper Hogg, a ter abandonado devido ao crescente escrutínio das autoridades.

O operador de metro de Hong Kong, MTR Corp, também se vergou à pressão em Agosto para ser mais duro contra os manifestantes anti-governo, depois da imprensa estatal chinesa ter mostrado descontentamento por haver a percepção de que os manifestantes generalizavam a violência com facilidade.

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