Souto de Moura, Siza Vieira e Carrilho da Graça — todos contra a nova ponte de Tavira

A autarquia diz que “não é indiferente” às críticas, mas não está disposta a dar “uma oportunidade” para discutir alternativas ao projecto.

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A construção da nova ponte sobre o rio Gilão, em Tavira, não vai parar apesar dos protestos do movimento cívico Tavira Sempre e de um grupo de mais de duas dezenas de arquitectos. “A câmara mantém a sua opinião quanto à necessidade da existência de uma ponte neste local”, sublinha a autarquia, destacando que a obra se enquadra no projecto de requalificação das frentes ribeirinhas da cidade.

A obra tem vindo a ser contestada tendo sido alvo, recentemente, de um manifesto assinado por 24 arquitectos – entre os quais Souto Moura, Siza Vieira e Carrilho da Graça — que pede à autarquia que tenha “coragem para dar um passo atrás”, dando à comunidade “uma oportunidade, que implica parar para (re)pensar” outras alternativas ao projecto. No espaço de 1,5 quilómetros, a cidade tem cinco pontes

O município respondeu ao manifesto dos arquitectos através de uma nota de imprensa onde diz que “não é indiferente” às críticas mas não volta atrás na decisão. A obra, sublinha, “encontrar-se-á em perfeita harmonia com a paisagem patrimonial e paisagística, ao contrário do que tem vindo a ser difundido pelo movimento Tavira Sempre”. 

A decisão de mandar construir mais uma ponte sobre o rio Gilão foi tomada no tempo em que o actual secretário de Estado da Descentralização e Administração Local, Jorge Botelho, dirigia os destinos do concelho. A largura (dez metros) e o desenho fazem lembrar um viaduto de auto-estrada, o que aumenta a possibilidade de levar mais carros para dentro da cidade, diz o movimento. O município, reagindo às críticas, alega que o projecto resultou de um concurso em que participaram oito equipas multidisciplinares. O vencedor foi a empresa A2P- Estudos e Projectos, Ldª.

O movimento cívico, não conformado com a explicação, reclama a “definição de uma estratégia de intervenção urbana abrangente, que contemple não só o local específico de implantação da nova ponte, mas também o projecto da globalidade das frentes ribeirinhas da cidade”. Por seu turno, o município esclarece que esse projecto encontra-se “em elaboração (fase de estudo prévio)”. No entanto, a construção da ponte (em substituição de uma velha ponte militar, montada há 29 anos) é para continuar, independentemente do resultado do “estudo” que está a ser elaborado e cujo custo estimado é de 1,5 milhões de euros. 

A propósito das decisões tomadas sem que haja uma estratégia abrangente, os arquitectos que assinam o manifesto lembram a “ignorância sobre a complexidade, a sensibilidade e as implicações metodológicas sobre as práticas de planeamento” que tem dado maus resultados, em particular no Algarve.

A câmara contrapõe que a construção da nova ponte “contribuirá para a afirmação do sentido de identidade da cidade” e faz parte de “uma série de acções que visam requalificar o espaço público, promover novas dinâmicas nas margens [do rio Gilão], melhorar as acessibilidades e a mobilidade”. 
Argumentos que não colhem junto do movimento cívico, que acusa: “A câmara de Tavira, que continua sem saber o que fazer ao trânsito na baixa e zona do jardim do coreto, estuda agora a requalificação das margens do rio Gilão e continua a não abrir a possibilidade de debate público”. Por outro lado, prossegue, continua a “não dar resposta aos aspectos que mais controvérsia e perplexidade geram aos cidadãos: o trânsito e a largura da ponte”.

“Sendo Tavira uma das cidades melhores conservadas do Algarve, é absolutamente incontornável que qualquer intervenção urbanística/arquitectónica – sobretudo em áreas de especial sensibilidade como as ARU [Áreas de Reabilitação Urbana] – seja fundamentas num quadro de ‘pensamento em acção’ multidisciplinar”, envolvendo várias áreas do conhecimento, sublinham os arquitectos. Ora, acrescenta o movimento cívico, o que se verificou foi que as oito empresas que foram chamadas a apresentar um projecto com as ideias fechadas. O caderno de encargos, enfatizam, obrigava a que a nova infra-estrutura tivesse uma via para trânsito automóvel, um tabuleiro de 10 metros de largura, betão e aço. “Como se chegou a estas conclusões?”, questionam. 

Por fim, denunciam que a ideia da requalificação da frente ribeirinha e de mandar fazer um “estudo prévio” só surgiu depois da obra avançar.