Nova ponte em Tavira - a quinta em 1,5 quilómetros - leva mais carros para o centro histórico

O que não falta são pontes em Tavira. Cada um dos três últimos autarcas mandou fazer a sua obra “emblemática” – uma ponte para a história

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A nova ponte que está a ser construída sobre o rio Gilão, em Tavira, vai permitir levar mais carros para o centro histórico e pretende, por via do turismo, criar outra nova dinâmica entre as duas margens do rio. A decisão foi tomada pelo actual secretário de Estado da Descentralização e Administração Local, Jorge Botelho, no tempo que dirigiu os destinos do concelho. O equipamento destina-se a substituir uma ponte militar, erguida há 29 anos. Só que a largura (dez metros) e o desenho assemelham-se a um viaduto de auto-estrada

Com o início dos trabalhos de desmantelamento do tabuleiro da ponta militar, esta semana, surgiu um movimento cívico “Tavira Sempre” a reclamar por uma maior discussão pública sobre a obra. A infra-estrutura que está a ser retirada foi montada na sequência da grande cheia de 1989 pelo exército. Os contestatários perguntam: Para quê mais uma ponte?

A presidente da câmara, Ana Paula Martins (que substituiu Botelho), em declarações ao PÚBLICO, justificou: “A ponte está prevista em todos os três programas eleitorais do Partido Socialista”. Por conseguinte, diz não compreender a posição das vozes dissonantes. “O projecto não esteve escondido na gaveta”, sublinha.

No rio Gilão, no espaço de 1,5 quilómetros existem cinco pontes. Cada autarca parece querer deixar uma como obra emblemática do mandato. Fialho Anastácio (antigo governador civil), socialista, mandou erguer a ponte das Descobertas, Macário Correia, PSD, a ponte Santiago. Por fim, Jorge Botelho decidiu substituir a ponte militar mas agora com traços arquitectónicos.

A arquitecta Ana Isabel Santos, que defendeu uma tese de mestrado sobre “Tavira, Património do Mar - da ribeira casa nobre de quinhentos – o caso dos telhados de tesouro”, entende que se trata de um “projecto de catálogo que poderia estar em qualquer ponto do mundo”. A concepção, enfatiza, não teve em conta o facto de se localizar a menos de 150 metros da Ponte Antiga, que remonta ao período islâmico e está classificada como Imóvel de Interesse Público. Além disso, destaca, o projecto “não revela qualquer sensibilidade para com o património envolvente e para com o ambiente ribeirinho - é preciso não esquecer que o castelo de Tavira é Património Nacional”.

O antigo vereador da câmara (1989- 1994) Barata Pires, socialista, recorda: “Quando a cheia de 1989 destruiu a Ponte Antiga e a zona central da cidade ficou sem duas margens do rio, houve a necessidade de recorrer à engenharia militar para restabelecer a ligação”. Nessa altura, diz, a ponte que seria montada “provisoriamente, acabou definita”. Mas, depois disso, acrescenta, mais duas pontes foram construídas. Ao mesmo tempo foi aprovado “um plano de reabilitação da zona histórica”.

Ana Paula Martins defende-se, alegando que a ponte militar não tinha condições de segurança. Por isso, foi encerrada ao trânsito há cerca de três anos, ficando apenas reservada à passagem de peões.

O novo equipamento, orçado em 1,5 milhões de euros, prevê a circulação automóvel num sentido, mais passagem de peões e ciclovia. O movimento “Tavira Sempre”, em forma de” carta-aberta” dirigida à autarca, questiona: “Porquê trazer trânsito para o centro da cidade, contrariando as tendências mundiais?”. Ana Paula Martins, em declarações ao PÚBLICO, responde: “Ainda não está decidido se vai ter circulação automóvel ou apenas via para veículos de emergência - estamos a estudar pois o plano, em fase de elaboração, prevê a requalificação das margens do Gilão, bem como a forma como trânsito vai fluir”.

Ana Isabel Santos, que integra o movimento cívico, comenta: “É o que se chama começar a construir a casa pelo telhado”, diz a arquitecta. Por seu lado, Barata Pires defende a construção da nova ponte “mas apenas que se destine à mobilidade suave - peões e bicicletas”. Com a largura que a ponte foi traçada, adverte a arquitecta, “vai ser necessário romper com o jardim, o único espaço verde de dimensões significativas na cidade”.

António Aguiar vive na margem esquerda do Gilão, historicamente considerada a parte menos nobre da cidade. “Acho bem que façam uma ponte nova, a que existia estava podre”. Mas não está preocupado com os automóveis. “Levo cinco minutos a atravessar e não tenho carro”. O mariscador Luís Amendoeira está a favor da nova construção, mas faz notar: “Se é para atrair turistas, o que eu vejo é que eles preferem andar a pé e tirar fotografias à ponte antiga [que fica a 150 metros]”.