Morreu a actriz Anna Karina, ícone da Nouvelle Vague francesa

Tinha 79 anos e morreu no sábado em Paris, de cancro. Filmou com Godard (com quem foi casada), Rivette, Fassbinder, Cukor ou Visconti. “Hoje, o cinema francês é órfão. Perdeu uma das suas lendas.”

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Anna Karina Norbert Perrau/Getty Images

A actriz Anna Karina, que foi um dos rostos do cinema de Jean-Luc Godard e filmou com alguns dos mais importantes nomes da história do cinema, morreu no sábado em Paris, aos 79 anos, noticiam este domingo o diário francês Le Monde e a agência de notícias AFP citando o seu agente. Nascida na Dinamarca e tornada estrela da Nouvelle Vague nos anos 1960, a actriz, um ícone do cinema francês, foi este ano homenageada pelo festival IndieLisboa na secção Herói Independente e revisitada num ciclo na Cinemateca Portuguesa. “A vida deu-me muito mais do que eu poderia esperar quando era miúda”, disse ao PÚBLICO em Abril. “Foram tudo presentes maravilhosos. A minha vida é um presente maravilhoso.”

O ministro da Cultura francês, Franck Riester, já lamentou no Twitter a perda de uma actriz que “magnetizava o mundo inteiro": “Hoje, o cinema francês é órfão. Perdeu uma das suas lendas”, escreveu, começando por lembrar como “o seu olhar era o olhar da Nouvelle Vague”.

Nascida Hanne Karin Bayer em 1940 — consoante a fonte, o seu local de nascimento terá sido Copenhaga ou a cidade costeira de Solbjerg —, ganhou o seu nome artístico quando chegou a Paris pela mão de outro ícone: Coco Chanel. A criadora de moda cruzou-se com a dinamarquesa de tez branca e olhos azuis acinzentados quando esta começou a trabalhar como modelo. “Vim para Paris em 1957”, relatou ao PÚBLICO numa entrevista de vida em Abril último. Queria afastar-se da mãe, figurinista de teatro (o pai era uma figura ausente), e tornar-se actriz. “Um dia, Coco Chanel veio ter comigo e perguntou-me ‘então, parece que queres ser actriz?’. Respondi que sim e ela perguntou-me como me chamava. Respondi: Hanne Karin Bayer. E ela: ‘Ah, não, impossível, se queres ser actriz vais passar a chamar-te Anna Karina’.”

Pouco depois, a sua carreira despontava. Trabalharia com Luchino Visconti, George Cukor, Jacques Rivette e, claro, Godard, que se tornaria seu marido. Filmou sete vezes com ele.

“Lendária”, chama-lhe este domingo o Le Monde, associando-a indelevelmente à Nouvelle Vague, o influente movimento cinematográfico nascido em França que mudou a história do cinema. Foi também cantora, tendo interpretado temas ao lado de outro marco histórico e cultural de seu nome Serge Gainsbourg. Este dedicou-lhe a comédia musical Anna, realizada por Pierre Koralnik, e escreveu-lhe Sous le soleil exactement, que teve grande êxito, destaca a AFP. Assinou ainda quatro romances.

Um bilhete de Jean-Luc Godard

Anna Karina fez o seu primeiro filme na Dinamarca aos 14 anos, como contou ao crítico do PÚBLICO Luís Miguel Oliveira na referida entrevista de Abril deste ano — a curta-metragem com que se estreou, A Rapariga dos Sapatos, de Ib Schmedes, também foi exibida em Portugal por ocasião do IndieLisboa 2019. O filme chegaria em 1959 ao Festival de Cannes, onde foi premiado, marcando a primeira presença de Anna Karina no conceituado encontro — em 2018, o cartaz do festival, que tradicionalmente homenageia nomes ou momentos emblemáticos do cinema, pô-la em destaque numa imagem retirada do filme Pedro, O Louco (1965), de Godard.

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O cartaz em Cannes, em 2018, com Karina e Jean-Paul Belmondo SEBASTIEN NOGIER/EPA

Conheceu Jean-Luc no final da década de 1950 quando ele quis dar-lhe um papel em O Acossado, proposta que recusou. Era muito jovem, continuava a trabalhar como modelo, fazia filmes e anúncios publicitários, recusava aparecer nua como lhe pedia o futuro marido depois de a ter visto ensaboada num anúncio para os sabonetes Palmolive.

Estava muito envolvida com o cinema, mas como espectadora. “Ia muito ao cinema. Ver filmes franceses, sobretudo, também para aprender a língua, aprender as nuances do francês falado”, contou ao PÚBLICO. Mais tarde, seria convocada por telegrama para um encontro com Godard. Foi nas filmagens do polémico O Soldado das Sombras, para o qual foi escolhida num casting, que os dois se apaixonaram. Jean-Luc Godard declarou-se num bilhete: “Amo-a. Encontro à meia-noite no Hotel de la Paix”. Casaram-se em 1961.

O Soldado das Sombras, porém, não seria o seu primeiro filme a estrear-se nas salas francesas. Primeiro viria Ce Soir ou Jamais, de Michel Deville, cuja estreia precedeu a de O Soldado das Sombras, adiada até 1963 devido à censura do regime de De Gaulle, por abordar a guerra com a Argélia. Godard voltou a querê-la em Une Femme est une Femme (1961) e os dois continuariam a filmar juntos: seguiram-se Viver a Sua Vida (1962), Bando à Parte (1964), Alphaville (1965), Pedro, o Louco (1965). Made In USA (1966) foi o último filme que fizeram juntos — tinham-se divorciado um ano antes. Em 1967, Anna Karina ainda participaria no segmento de Jean-Luc Godard em A Mais Antiga Profissão do Mundo, Anticipation ou l'Amour en l'An 2000. A conta final desta soma Godard e Anna Karina, titula este domingo o diário francês Le Figaro, são afinal sete filmes e meio

Ao longo da sua carreira, Anna Karina, que em Abril acabou por cancelar a sua vinda ao IndieLisboa por motivos de saúde (sofria de cancro), filmaria ainda com Rainer Werner Fassbinder em Roleta Chinesa (1976), com Agnès Varda em Duas Horas na Vida de uma Mulher (1961), em que contracenou com Godard, com Jacques Rivette em A Religiosa (1966), e com Visconti (“um rei”) em O Estrangeiro (1967).

Justine (1969), de George Cukor, A Ronda do Amor (1964), de Roger Vadin, Michael Kohlhaas, o Rebelde (1969), de Volker Schlondorff, A Ilha do Tesouro (1985), de Raul Ruiz, ou Le Soldatesse (1965), de Valerio Zurlini, são alguns dos seus outros filmes. Experimentou a realização com Vivre Ensemble, de 1973.

Anna Karina casou-se mais três vezes e, segundo o seu agente, o seu ex-marido e mais recente companheiro, o realizador norte-americano Dennis Berry (que fora casado com Jean Seberg), estava ao seu lado quando morreu.