Boris Johnson
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Boris Johnson LUSA/WILL OLIVER

Megafone

A jangada britânica da Medusa

Dentro em breve, e fruto de uma maioria absoluta, o governo conservador de um país conservador de uma monarca conservadora sairá, de uma vez por todas, da União Europeia.

A bordo da jangada da fragata Medusa já só restam 15 sobreviventes, todos homens. Um segura o corpo do filho como se fosse o seu, agarrando a vida que já não tem, outro arranca os cabelos em desespero e loucura, mortos jazem aqui e ali à espera do funeral inevitável das ondas, enquanto alguns sobreviventes acenam freneticamente para um barco perdido no horizonte.

Estamos em Julho de 1816 e a jangada da Medusa traz a bordo os sobreviventes de um grupo inicial de 146 homens e uma mulher. Fruto da incompetência do seu capitão, a fragata encalhara num banco de areia 60 quilómetros ao largo da costa africana. Sem mantimentos, e movidos pelo medo e incerteza, os seus passageiros e tripulantes procuraram chegar a terra. De caminho, e ao longo de 13 dias, mataram-se e comeram-se todos uns aos outros. Quem não morreu, atirou-se ao mar. Só 15 sobreviveram, num dos episódios mais sórdidos e aterradores da história, e uma mancha por limpar por muitos e bons anos na reputação francesa. 

Hoje, enquanto a noite corre apressadamente em direcção a uma madrugada que ninguém quer, a jangada da Medusa é outra. Atravessou o Canal da Mancha e está, literalmente, à deriva no meio do Atlântico. A bordo leva 60 milhões de almas. Sabe Deus quantas chegarão ao fim. Sabe Deus quantas serão salvas. Sabe Deus quantas quererão ser salvas. Muito poucas. A loucura instalou-se.

À medida que o dia nasce, o neoliberalismo esfrega as mãos de contente. Dentro em breve, e fruto de uma maioria absoluta, o governo conservador de um país conservador de uma monarca conservadora sairá, de uma vez por todas, da União Europeia. Daqui em diante seguir-se-á a privatização profunda do resto do Estado, da saúde à educação, da justiça à administração pública, dos fundos de pensões às forças de segurança, sem esquecer os meios de comunicação e produção. Quem tiver dinheiro, viverá; quem não tiver dinheiro, que se lixe.

Fomentando a iniciativa privada, os contratos de trabalho serão reestruturados ou simplesmente eliminados: hoje és preciso, amanhã já não, os direitos, quais direitos, serão uma sombra do passado, quem está doente não trabalha e quem não trabalha não recebe, os salários, quais salários, que salários, serão o luxo de meia dúzia e uma linha no currículo de todos os outros. 

Sem meios de produção, a dívida externa aumentará, o valor da moeda cairá a pique e os bens essenciais custarão os olhos desta cara que vos olha, que ainda vos olha antes de dar os olhos, antes de comer os olhos.

Os apoios sociais passarão à história, os meios de comunicação serão encerrados ou subjugados, o desemprego subirá em flecha e a austeridade, sempre a austeridade, hasteará a sua bandeira a bordo da jangada da Medusa.

A emigração será uma realidade. Todos os dias. 

É uma da manhã, chove torrencialmente, lágrimas talvez, talvez as nossas, e acabei de acordar de um pesadelo para acordar noutro pesadelo: os conservadores ganharam com uma larga maioria absoluta. Cada país tem os governantes que merece, e o Reino Unido não é excepção. Eu votei nos trabalhistas. Hei-de morrer com a consciência tranquila. Mas nem por isso o corpo.

A bordo da jangada da Medusa, os sobreviventes atiram-se ao mar em desespero. Os restantes comem-se uns aos outros. Até chegar a minha vez. 
 

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