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Um biscoito ou um castigo? Cães treinados com prémios são mais felizes

Mais stressados e pessimistas, com níveis de bem-estar mais baixos: assim são os animais treinados com castigos. Catarina Vieira de Castro e Anna Olsson estudaram o impacto que métodos “aversivos” têm nos cães a e a conclusão é simples: são mais felizes os que recebem recompensas.

A imagem é universal: um jornal enrolado, um cão assustado, um dono irritado. Educar um animal nem sempre é tarefa fácil — e “ninguém nasce ensinado” para a desempenhar. Mas as formas de educar um animal não têm todas os mesmos resultados e, mais ainda, “nem toda a gente tem noção de que existe mais do que uma forma de treinar um animal.” Quem o diz é Catarina Vieira de Castro, uma das autoras de um estudo que alerta para o impacto que o treino baseado em castigos tem no bem-estar dos cães.

A investigadora do Laboratory Animal Science do I3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto) e a líder do departamento, Anna Olsson, constataram que havia “uma grande controvérsia em torno das metodologias utilizadas para treinar animais”, mas que os estudos científicos sobre o tema tinham “evidência muito escassa”.

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Amy a comer um biscoito Nelson Garrido

Em 2017, fizeram uma primeira publicação sobre o impacto de métodos de educação mais agressivos no bem-estar dos cães: “Os estudos já existentes tendiam a indicar que havia uma associação entre a utilização de metodologias 'aversivas’ e o impacto negativo no bem-estar animal — o que significa que, à partida, provocariam mais stress”, começa por explicar Catarina, que nos recebe no I3S. À espera da bióloga, fora do instituto, ficam os seus cães, Meru, Olívia e Amy — que não participaram no estudo, mas sabem bem o quão estimulante pode ser um biscoito. Bastou ver como se mantinham quietos em frente à câmara fotográfica do P3 quando lhes era prometida uma recompensa.

Mas voltemos ao estudo. As investigações que até então existiam sobre o assunto tinham “uma limitação”: ou tinham sido conduzidas com “subpopulações de cães de laboratório ou cães militares”; ou, as que tinham sido feitas com cães de companhia, focavam-se essencialmente nas coleiras de choques — “o instrumento que provoca reacções mais emocionais ou negativas por parte das pessoas”. Por isso, as investigadoras decidiram, “há três anos”, criar o seu próprio projecto. Propuseram-se a “estudar o impacto que as metodologias ‘aversivas’ e, por outro lado, as metodologias baseadas na recompensa tinham no bem-estar dos animais de companhia. O estudo está disponível no Biorxiv, um repositório de estudos de biologia e já foi submetido para publicação numa revista científica.

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Anna Olsson e Catarina Vieira de Castro Nelson Garrido

As investigadoras procuraram escolas de treino na zona do Grande Porto: “Não mudamos nada do que os treinadores fazem, eles simplesmente treinaram da forma que estão habituados”, refere Catarina. Posteriormente, dividiram as escolas de acordo com o tipo de metodologia que utilizavam — com recompensas ou com castigos. Por metodologias “aversivas” entende-se a utilização de “coleiras de choques ou de bicos”, “gritar, bater, castigo físico ou emocional” ou qualquer comportamento que “provoque dor ou medo ao animal”. O método de recompensa é aquele em que o animal é incentivado a desempenhar determinada tarefa, em troca de uma recompensa (uma espécie de suborno, digamos). 

A amostra de 92 cães (e respectivos donos) excluía “cães agressivos ou extremamente ansiosos” e focava-se apenas nos que estavam nas escolas de treino para aprenderem “obediência básica”. Numa primeira fase, Catarina, de 35 anos, e Anna, investigadora sueca de 49, focaram-se no bem-estar dos animais “no momento em que estão a ser treinados”. Para isso, filmaram os animais em treino e procuraram encontrar comportamentos de stress — “como o bocejar, lamber os lábios ou sacudir”. No final de cada treino, as investigadoras recolheram uma amostra de saliva, para analisar os níveis de cortisol, “a hormona indicadora de stress”, e compararam com os níveis basais, isto é, aqueles que os donos dos cães recolheram quando “o animal estava em repouso, em casa”.

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Meru Nelson Garrido

O resultado: um aumento “de cerca de 10%” nos níveis médios de cortisol dos cães que eram treinados com métodos “aversivos”, em comparação com os valores basais. “No grupo dos cães que eram treinados com métodos baseados em recompensas, não tivemos praticamente alterações nos valores médios”, explica Catarina.

Numa segunda fase, procuraram avaliar “o bem-estar a longo prazo”. Prepararam uma sala do ICBAS (Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar) — “a outra instituição que acolheu o projecto” — com duas gamelas: uma, à direita, com um biscoito; outra, à esquerda, sem comida. A premissa era de que “pessoas ou animais que estejam em estados emocionais mais positivos tendem a ser mais optimistas”. Depois de apresentarem repetidamente a situação aos cães — mostrar que à direita há um biscoito, mas à esquerda não — foi criada uma “situação de ambiguidade”: e se a gamela estiver no centro da sala?

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Amy, Olívia e Meru Nelson Garrido

“A ideia é que animais que estejam numa situação de bem-estar vão ser mais optimistas e vão, por isso, correr para a gamela que está no meio da sala como se acreditassem que ela tem comida. Animais em estados mais negativos de bem-estar ou não vão à gamela ou vão de forma mais lenta, com menos expectativa”, explica Catarina. O que as investigadoras verificaram com este teste foi que os cães treinados com recompensas eram, em média, mais optimistas e, por isso, corriam para a gamela, acreditando que lá havia um biscoito.

As conclusões do estudo são simples: “Partindo do princípio que falamos de bem-estar animal, deve ser sempre usada a recompensa em detrimento do castigo.” E que mesmo que sejam utilizados métodos mais agressivos, “quanto menos, melhor”. Mas a investigadora deixa um alerta: “Há questões que se prendem com a eficácia das diferentes metodologias que ainda não estão estudadas. Portanto, eu não queria fechar já a porta e dizer para não fazermos de todo alguma coisa.”

Anna Olsson, doutorada em Ciências Agrárias, sublinha a importância da informação, ainda que nem sempre seja fácil de encontrar: “Um bom treinador é uma boa fonte de informação, a leitura também. O importante é saber que existem abordagens diferentes, para que se possa fazer uma escolha informada”, refere. Mas, por agora, é seguro dizer que mais vale um biscoito na mão do que um jornal a voar. 

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