Crónica

Livre é desilusão

Se todos temiam que o problema fosse os momentos em que Joacine tivesse de intervir no Parlamento, foi a sua falta de intervenção que a fez perder-se.

Joacine Katar Moreira
Foto
Rui Gaudêncio

Passo diariamente pelo cartaz de Joacine Katar Moreira no Marquês de Pombal, em Lisboa. É assim há uns meses. No princípio e até às eleições, esteve acompanhada por Assunção Cristas. Como as estações do ano, o cartaz de Joacine começou por ser uma novidade, passou o Verão estoicamente ao calor, vieram as eleições e com o Outono começou a dar sinais de cansaço. Com a chuva e o frio que anunciam o Inverno, está cada vez mais desmaiado. Como o cartaz, também a deputada, o seu assessor e o partido dão sinais de terem passado rapidamente da euforia à desolação.

Primeiro, foi a novidade da candidata mulher, negra e gaga — os rios de tinta que correram sobre a capacidade de Joacine estar no Parlamento. Depois, no dia da tomada de posse, foi notícia graças ao seu assessor de saia — como somos modernos, não só temos três mulheres negras (esquecendo que antes tivemos homens com outras ascendências que não a caucasiana), mas também homens de saias! Lá se ouviram críticas a Rafael Esteves Martins a quem se pode aplicar a velha máxima do “falem bem ou falem mal, mas falem” pela decisão de levar tal indumentária para a casa da democracia, graças a ela foi ao Programa da Cristina. O bolseiro que deu umas aulas em Oxford aceitou ter um protagonismo inesperado para um assessor, colocando-se em pé de igualdade com a deputada, esquecendo-se que não foi ele o eleito. 

Se todos temiam que o problema fosse os momentos em que Joacine tivesse de intervir, foi a sua falta de intervenção que a fez perder-se. Primeiro, a falta de comunicação com o partido. Joacine não está a par do programa do Livre? Como licenciada em História Moderna e Contemporânea desconhece o conflito israelo-palestiniano? Então, por que se absteve?

Os mesmos problemas de comunicação – que o partido e a deputada reconhecem – tiveram como consequência a falha na entrega de um projecto sobre a lei da nacionalidade, considerada uma prioridade para o Livre. A proposta chegou tarde e não houve consenso entre os partidos para que se juntasse às que entraram a horas, mas Ferro Rodrigues convenceu-os a agendarem a “título excepcional” aquele projecto

Por fim, é por Joacine e o seu assessor terem problemas de comunicação que abriram uma guerra evitável com os jornalistas.

Rafael Esteves Martins por calculismo — lembram-se do “falem bem ou falem mal, mas falem”? —, ou por excesso de zelo, decidiu que a deputada não pode ser incomodada pelos jornalistas e, esta semana, pediu uma espécie de escolta, sobre a qual Ferro Rodrigues pediu explicações ao secretário-geral do Parlamento. À comunicação social, Esteves Martins disse e desdisse – ora um jornalista tinha tentado invadir o gabinete da deputada; ora afinal era outro; ora os jornalistas queriam interromper uma entrevista que Joacine estava a dar, e, por isso, lá estava o elemento da equipa de segurança, à porta... Certo é que o que vimos foi esse mesmo elemento da segurança a escoltar a deputada e o assessor pelo corredor.

Apesar de Joacine “exigir” respeito aos jornalistas, o seu assessor parece não saber o que isso é. Quando não fala a estes profissionais, Esteves Martins insulta-os nas redes sociais, revelando aquela indecisão que começa a caracterizá-lo de dizer uma coisa e o seu contrário. Por exemplo, no mesmo tweet escreve que nada tem contra os jornalistas para, a seguir, considerar o trabalho jornalístico “sujeito a desordens mentais”. Desculpe, quer explicar? Quando não atende o telefone, o alegado assessor — que aparentemente desconhece as funções de um profissional desta área da comunicação — queixa-se que o incomodam, argumenta que não tem de atender o telefone, que Joacine precisa de descansar. Cospe frases como “Comigo, não passarão”. Importa-se de repetir? É preciso os jornalistas terem escolta?

Medo. Não medo do assessor das saias, mas medo do que ele e Joacine representam: uma esquerda radical que não sabe lidar com a liberdade de imprensa ou uma esquerda que está a fazer um enorme favor aos outros partidos, revelando o quão desnecessário é o Livre no Parlamento e no país, um partido que, em tão pouco tempo, mostra as lutas intestinas e internas que só vêm dar razão a quem diz que os políticos são todos iguais.

No final da semana, ao passar pelo cartaz do Marquês de Pombal, na minha cabeça, substituí o slogan “Livre é Igualdade” por “Livre é Desilusão”. Desilusão para os que acreditaram que ter alguém novo no Parlamento poderia fazer diferença.