Daesh diz que ataque em Londres foi feito por um dos seus combatentes

Usman Khan, de 28 anos, tinha sido libertado há menos de um ano e pediu ajuda na prisão, revelou o advogado que o defendeu. Um chef polaco e um britânico, condenado por homicídio e que se está a reabilitar, tentaram travá-lo.

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O primeiro-ministro Boris Johnson e a ministra do Interior, Piti Patel, visitaram o local VICKIE FLORES/EPA
,2017 London Bridge attack
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Vigilância da zona do Burogh Market, em Londres Peter Nicholls/REUTERS

O homem que na sexta-feira matou duas pessoas e feriu três na Ponte de Londres, antes de ser morto pela polícia, era um britânico de 28 anos que já tinha sido condenado por terrorismo e saiu da prisão há menos de um ano. O Daesh diz que era um dos seus combatentes. Mas, segundo o advogado que o representava, pediu ajuda na prisão para se desradicalizar, mas não a obteve.

Usman Khan usava um colete de explosivos falsos e usou grandes facas de cozinha para atacar pessoas que participavam numa conferência sobre reabilitação de prisioneiros condenados que se realizava perto da Ponte de Londres. Foi atirado ao chão por um grupo de civis, dois deles armados com um extintor e uma presa de narval com quase dois metros de comprimento. Khan acabou por ser morto pela polícia, depois de ter sido descoberto o falso colete de explosivos, de acordo com relatos de testemunhas e pelo que se pode ver em imagens da cena divulgadas no Twitter.

Khan, cuja familia é de origem paquistanesa (da Caxemira paquistanesa), foi condenado em 2012 por participar num grupo que pretendia explodir a Bolsa de Londres, desmantelado na altura pela polícia e pelos serviços secretos internos (MI5). Khan foi radicalizado online pela propaganda da Al-Qaeda na Península Arábica, liderada por  Anwar al-Awlaki, um norte-americano que foi morto no Iémen num ataque com drones da CIA em 2011 .

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Usman Khan tinha sido condenado em 2012

A pena a que foi condenado estipulava que devia cumprir um mínimo de oito anos de prisão, com a exigência de que os serviços de liberdade condicional avaliassem se continuava a ser um perigo público antes de ser libertado - mas acabou por ser posto em liberdade sem essa avaliação, em Dezembro do ano passado, diz a Reuters.

O advogado Vajahat Sharif disse ao Guardian que Usman Khan compreendeu que o extremismo violento era um caminho errado e que tinha aceite ter um entendimento deturpado do Islão. 

“Ele pediu uma intervenção por um especialista em desradicalização enquanto estava preso. Mas a única opção disponível era passar para a responsabilidade dos serviços de liberdade condicional, que não têm competências para lidar com criminosos por motivos ideológicos. Ele telefonou-me a pedir ajuda para conseguir a assistência de um especialista específico”, contou Sharif. Fê-lo “uma ou duas vezes”, antes de ser libertado em 2018, recordou agora. 

Quando foi libertado passou a viver numa residência para prisioneiros em liberdade condicional, e tinha de se apresentar numa esquadra todo os dias. Devia também usar uma pulseira electrónica que permitia seguir os seus movimentos, disse o advogado.

Segundo o ministro britânico da Segurança, Brandon Lewis, a polícia não procura outros suspeitos do ataque.

Civis heróis

Duas pessoas, um homem e uma mulher, morreram no atentado, e outras duas ficaram feridas e continuam hospitalizadas. Um dos feridos está em estado crítico.

Mas as atenções pós-atentado concentram-se, sobretudo, nos civis que tentaram deter Khan com armas improvisadas, a presa de narval –​ uma baleia dentada prima das belugas, em que os machos têm uma enorme presa helicoidal que se destaca na cabeça e que é na verdade um dente canino superior esquerdo muito alongado –​ e um extintor. Esta presa terá sido arrancada da parede do Fishmongers’ Hall, um edifício patrimonial junto à Ponte de Londres, por um chef polaco chamado Lucasz, relata o Guardian.

Quanto ao extintor, foi usado por James Ford, de 42 anos, condenado em 2004 a prisão perpétua por ter morto Amanda Champion, mulher de 21 anos com idade mental de 15 anos. Foi apresentado como exemplo do sucesso de reabilitação de presos e estará a cumprir a fase final da sua pena em reclusão. Aliás, estava naquele local porque participava numa conferencia sobre reabilitação de presos que decorria no Fishmonger's Hall, junto à ponte, diz o Guardian.

Criminalidade na campanha

Durante a campanha eleitoral de 2017, três atacantes tentaram atropelar transeuntes na Ponte de Londres. Próximo da mesma hora, e a poucos metros de distância, pelo menos dois homens atacaram também várias pessoas com armas brancas no Borough Market, uma zona popular de restauração. Os ataques provocaram oito mortos e pelo menos 48 feridos. O Daesh reivindicou, à data, os atentados, mas as autoridades britânicas levantaram dúvidas sobre as ligações dos atacantes à organização terrorista. Após os ataques, as críticas dos partidos da oposição incidiram sobre os cortes nas forças policiais efectuados desde a chegada ao poder do Partido Conservador, em 2010. 

No início de Novembro, as autoridades britânicas reduziram o nível de alerta terrorista de muito provável para provável, o mais baixo desde 2014. Na altura, o comissário adjunto da Scotland Yard, Neil Basu, argumentou que a diminuição significativa da actividade terrorista nos últimos meses o justificava. Porém, revelou que a polícia tinha a decorrer cerca de 800 investigações de contraterrorismo e travado 24 atentados desde o ataque de Westminster, em Março de 2017, diz o Independent

O ataque desta sexta-feira aconteceu 13 dias antes das eleições que podem decidir o futuro do “Brexit” e pode pôr na agenda da campanha o tema da criminalidade e terrorismo. “Este país nunca será atemorizado, dividido ou intimidado por este tipo de ataque”, disse o primeiro-ministro Boris Johnson em Downing Street, elogiando a coragem dos cidadãos que enfrentaram o atacante.

Este sábado, o Partido Trabalhista criticou o Governo britânico por este não ser o primeiro crime do género. O líder da oposição, Jeremy Corbyn, mostrou-se horrorizado com o ataque. “Devemos e permaneceremos juntos para rejeitar o ódio e a divisão”, disse Corbyn.

“Há grandes questões que precisam de ser respondidas”, afirmou à Sky News o mayor  trabalhista de Londres, Sadiq Khan. “Uma das ferramentas importantes de que os juízes dispunham quando se tratava de lidar com criminosos perigosos e condenados era a capacidade de emitir uma sentença indeterminada para proteger o público. [Isso] Foi-lhes retirado por este Governo”, disse Khan.

O ministro britânico da Segurança, Brandon Lewis — que defendeu, há semanas, a redução do nível de ameaça terrorista no Reino Unido — também concordou que as regras devem ser revistas. “É verdade que precisamos de analisar novamente o sistema de sentenças no que toca a este tipo de crimes violentos”, notou.