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Reportagem

Em Lisboa, a Greve Climática (também) foi uma festa preocupada com o futuro

A poucos dias da visita de Greta Thunberg a Lisboa e do arranque da COP 25, cimeira do clima em Madrid, os jovens portugueses em greve fazem um pedido: medidas concretas contra as alterações climáticas. “A última COP da década aproxima-se e se estas cimeiras estivessem a ser eficazes não tinha havido 25.”

“Quero um futuro que possa arruinar com as minhas próprias decisões”, escreveu uma jovem grevista num dos cartazes que saíram à rua nesta sexta-feira, 29 de Novembro, em Lisboa. É uma entre as várias centenas de pessoas — de todas as idades — que partiram da Praça Luís de Camões para pedir justiça climática e medidas concretas em matérias de energia e protecção ambiental aos deputados da Assembleia da República.

Passavam apenas alguns minutos das 10h, hora marcada para o arranque da manifestação, e já as ruas adjacentes à Praça Luís de Camões se enchiam de música. Com uma pontualidade quase britânica, começaram a ouvir-se cânticos — “Menos avião, mais imaginação” ou “Não ao carvão, sim à transição” — e o eco dos bombos, cortesia do colectivo Samba Acção. A praça encheu rapidamente. A música chamou gente, que chegou empunhando cartazes com mensagens mordazes e vontade de dançar, numa manifestação com gosto a festa. Neste final de Novembro em que o termómetro ainda bateu nos 17 graus, quem chegava juntava a voz a quem já lá estava para pedir ao “Sr. ministro” que explique por que é que “no Inverno ainda faz calor”.

Esta foi a quarta Greve Climática em Portugal — e tem um sabor especial: acontece na véspera da visita de Greta Thunberg, uma das vozes mais proeminentes na luta pelo clima, e da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP25), que vai realizar-se entre 2 e 13 de Dezembro, em Madrid. “A última COP da década aproxima-se e se estas cimeiras estivessem a ser eficazes não tinha havido 25”, atira Alice Gato, estudante universitária de 17 anos e uma das caras da organização desta manifestação. “Estamos aqui porque queremos uma COP que traga medidas vinculativas e sérias para o nosso planeta.”

Para esta activista, as greves climáticas fazem todo o sentido: “As emissões não estão a diminuir desde que começámos a fazer greves”, afirma ao P3 ainda antes de a marcha sair do Largo Camões. “Tem havido uma intensificação de movimentos pela emergência climática, uma entreajuda internacional que não acontecia tanto antes, mas ainda há poucas medidas concretas para acabar com as alterações climáticas e trazer mais justiça para aqueles que mais sofrem com essas alterações.”

Portugal é apenas exemplo disso. Apesar de receber com agrado a notícia do encerramento das centrais termoeléctricas de Sines e do Pego, Alice preocupa-se não só com a requalificação dos trabalhadores dessas centrais, mas também com a aprovação de outros projectos com impacte ambiental, como a construção do aeroporto do Montijo “ou a exploração de gás natural, visto como uma alternativa viável, mas também altamente poluente”.

“Uma certa esperança” no futuro

Pelas 10h30, os manifestantes começaram a ocupar a estrada — os primeiros passos de uma marcha que iria durar cerca de uma hora. “Quando o Governo não tem juízo e não faz o que é preciso, a Terra é que paga”, entoam os manifestantes, numa adaptação do hit de António Variações.

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Ana Paulo, 51 anos, é uma das pessoas que se vai aproximando da Rua do Loreto. É professora e participa na marcha porque as alterações climáticas já a preocupam há muito. “Faz todo o sentido estar aqui com estes jovens, que também são nossos alunos”, diz ao P3. Olha para estas manifestações “com uma certa esperança”: “Há pelo menos um acordar para o problema, uma certa consciência que se está a criar e como isto não é só a nível nacional. Nunca houve a quantidade de gente suficiente para que haja uma verdadeira mudança, pode ser que agora se consiga”.

A polícia esperava cerca de mil manifestantes e a verdade é que a Rua do Loreto se encheu — e, apesar da organização, não sobrou muito espaço para deixar passar quem seguia atrasado para o trabalho. Seguindo pela Calçada do Combro, os manifestantes nunca perderam a energia. No meio deles existe um fio conector — literalmente. É um longo pedaço de malha vermelha que várias pessoas seguram enquanto caminham, uma das acções do colectivo Linha Vermelha, que se insurge contra a construção de gasodutos.

O grupo chegou à Assembleia da República pelas 11h30 e foi recebido por alguns deputados – como Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, e Alma Rivera, do PCP —, que prontamente desceram as escadas da Assembleia para trocar algumas palavras. “O capitalismo não é verde”, um dos motes desta manifestação, é um dos assuntos queridos a ambas.

Para Catarina Martins, o que os jovens estão hoje a fazer “é levantarem-se pela emergência climática”, algo “extraordinário" e, por isso, “têm que ser ouvidos”. “A luta pelo planeta, pelo clima, é uma luta que se opõe aos grandes interesses capitalistas do nosso mundo e é preciso ter a coragem de fazê-lo”, concluiu, em declarações aos jornalistas. Alma Rivera falou na mesma linha: defendeu a existência de medidas concretas para parar as alterações climáticas e argumentou que o capitalismo, com o seu objectivo de lucro, “nunca será racional e nunca responderá à urgência que é a da protecção do nosso planeta”.

Excursão a Madrid para uma contra-cimeira

Por esta altura já os jovens activistas tinham tomado o palco montado para os receber. Por turnos, os colectivos ambientalistas, animalistas e feministas subiram ao palco para detalhar as razões que os levaram a manifestar-se: querem que o poder político “não ignore o que a ciência tem para dizer” e que a questão climática seja uma prioridade para o Governo. Isto sem perder o foco de casos específicos, como as dragagens do Sado.

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Porto, Portugal Paulo Pimenta
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Jakarta, Indonésia Bagus Indahono/EPA
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Seoul, Coreia do Sul JEON HEON-KYUN/EPA
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Kolkata, Índia Rupak De Chowdhuri/Reuters
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Joanesburgo, África do Sul KIM LUDBROOK/EPA
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Atenas, Grécia Alkis Konstantinidis/Reuters
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Viena, Áustria Leonhard Foeger/Reuters
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Turim, Itália Alessandro Di Marco/EPA
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Milão, Itália MARCO PASSARO / FOTOGRAMMA/EPA
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Roma, Itália Angelo Carconi/EPA
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Copenhaga, Dinamarca PHILIP DAVALI/EPA
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Rzeszow, Polónia DAREK DELMANOWICZ/EPA
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Nova Deli, Índia RAJAT GUPTA/EPA
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Banguecoque, Tailândia Chalinee Thirasupa/Reuters
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Mumbai, Índia Hemanshi Kamani/Reuters
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Yaoundé, Camarões Greenpeace Africa/Reuters
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La Defense, França Gonzalo Fuentes/Reuters
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Banguecoque, Tailândia Chalinee Thirasupa/Reuters
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Marselha, França Jean-Paul Pelissier/Reuters
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Banguecoque, Tailândia Reuters/CHALINEE THIRASUPA
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Telavive, Israel Reuters/CORINNA KERN
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Banguecoque, Tailândia EPA/DIEGO AZUBEL
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Bruxelas, Bélgica EPA/STEPHANIE LECOCQ
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Bruxelas, Bélgica EPA/STEPHANIE LECOCQ
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Bangalore, Índia EPA/JAGADEESH NV
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Marselha, França Reuters/JEAN-PAUL PELISSIER
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Aproveitaram, também, para organizar a viagem a Madrid, onde vão pedir uma “COP mais ambiciosa”. Para isso, pensam organizar uma contra-cimeira, em conjunto com alguns ambientalistas chilenos e espanhóis. Partem para Espanha na quinta-feira, 5 de Dezembro, e voltam no domingo, 8; a viagem será feita de autocarro, o alojamento vai ser solidário (provavelmente em ginásios).

No meio da plateia que os ouvia estavam Alice e Ana, ambas com 12 anos. De cartazes na mão, as duas amigas — que não são estreantes e já participaram em duas greves anteriores — contam ao P3 que hoje não foram à escola porque “não vale a pena estudar para ter um futuro se não vamos ter futuro nenhum”. Tentam fazer o melhor pelo ambiente: nos últimos tempos usam “barras em vez de frascos de champô” e Ana até deixou de comer carne vermelha. “Tem de ser por fases, primeiro a carne vermelha e depois o resto.”

E os pais, sabem por que fazem isto? “Sim. Acho que os meus pais já tinham consciência, mas não tanta como agora”, justifica Ana. “Quando eles tinham a nossa idade as pessoas não ligavam tanto porque ainda não era um problema tão grave quanto é hoje.”

Mais performance, mas com mensagem

Pelas 12h já muita gente tinha desmobilizado — e os que restavam discutiam os planos para o almoço em voz alta. Eram apenas algumas centenas de pessoas, mas os bombos não davam tréguas. O rescaldo da acção foi positivo, avalia Noah Zino, activista climático. “Desta vez apostámos mais na performance e menos em tudo o resto e achamos que correu bem. Achamos que as manifestações devem ser assim. Se as pessoas não se estão a divertir é porque algo está errado.”

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Noah faz um resumo das principais reivindicações deste colectivo: uma acção dos decisores políticos que se traduza numa forma diferente de legislar. Nomeadamente de organismos como o Parlamento Europeu, que, esta quinta-feira, 28 de Novembro, declarou estado de emergência climática, ou do Governo português, que deveria apostar numa rede eléctrica inteligente. “As políticas são feitas a quatro anos e não a pensar nas próximas gerações”, lamenta.

“Estamos num momento decisivo. Temos até 2020 para chegar ao pico das nossas emissões para depois começar a descer”, atira. “Até agora, não estão sequer a abrandar.” É o planeta que está em causa e, “quando representamos uma coisa assim, é difícil estar no lado errado”, considera.