Greta Thunberg
Greta Thunberg Carlo Allegri/REUTERS

Greta “é uma criança a ralhar com adultos” e isso irrita muita gente

Ninguém estava habituado a ter crianças no espaço público a protestar. Depois das mulheres, das comunidades LGBT+ e das minorias étnicas, “a sociedade está a aprender a ouvir as crianças”.

É um mundo invertido: Greta Thunberg tem 16 anos e ralha com os adultos para que estes parem de fazer disparates, se portem como deve ser. “Vocês estão a falhar-nos”, disse na Cimeira da Acção Climática em Nova Iorque. E isso desconcerta muitas pessoas e irrita outras tantas.

A palavra-chave pode ser: habituem-se. Lídia Marôpo, que estuda os direitos das crianças e os media, nota “uma transformação notável da posição das crianças na sociedade”. “Algumas conseguiram uma posição de relevo e colocam em cheque a visão que temos da infância, que é a de um grupo social vulnerável, que deve ser protegido, que não tem expressão no espaço público.”

Talvez fosse inevitável. Primeiro, “a sociedade começou a aprender a ouvir as mulheres”. Depois, a comunidade LGBT+ e as minorias étnicas, não necessariamente por esta ordem. Agora, diz aquela professora no Instituto Politécnico de Setúbal, “a sociedade está a aprender a ouvir as crianças.”

Para além de Greta, debaixo dos holofotes estão, por exemplo, a paquistanesa Malala Yousafzai e a luta pelo direito das raparigas à educação, a britânica Amika George e a luta pelo direito aos produtos para a menstruação, a norte-americana Emma González e a luta pelo controlo de armas e o desarmamento.

O medo do fim

Greta tinha oito anos quando ouviu falar em alterações climáticas. Explicaram-lhe que a culpa era do estilo de vida de sociedades como a sua e que, por isso, tinha de desligar as luzes e de reciclar papel. Reparou que cada um continuava a agir como se nada fosse. A preocupação foi crescendo dentro dela. Aos 11 anos, mergulhou numa depressão. Não queria falar. Não queria comer.

Cada vez mais crianças e jovens revelam preocupação com o ambiente, com a preservação da natureza. O psicólogo Rui Guimarães diz que lhe aparecem algumas no consultório com uma angústia intolerável associada à ideia de fim – da própria, dos outros, do planeta. Parece-lhe que há diversas maneiras de resolver isso. E que uma delas é partir para a acção. “Alguns podem transformar isso num desígnio.”

Ao que ela diz, a sua aventura começou em Maio de 2018. Uma composição sobre ambiente colocou-a entre os vencedores de um concurso do jornal Svenska Dagbladet. Foi contactada por Bo Thorén, da associação ambientalista Fossil Free Dalsland. “Bo tinha algumas ideias de coisas que poderíamos fazer”, escreveu, num post que publicou no dia 2 de Fevereiro. “Gostei da ideia de uma greve escolar.” Apurou-a. Começou no dia 20 de Agosto.

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Durante duas semanas, até às eleições gerais, sentou-se à frente do parlamento sueco a exigir medidas. Primeiro, era só ela e um cartaz caseiro. Depois, outros foram aparecendo. A seguir às eleições, Greta reduziu o protesto às sextas-feiras. Inspirados por ela, outros por esse mundo fora fizeram as suas greves. Chamam-lhes “Fridays for Future”. Para esta sexta-feira estão convocadas acções em mais de 150 países, incluindo Portugal. 

Na Suécia a escolaridade obrigatória é de nove anos. Se vivesse em Portugal, a menos que já tivesse terminado o secundário, Greta não poderia tirar um ano para andar pelo mundo a reclamar o direito ao futuro sem enfrentar o sistema de protecção. Nem fazer “greve” todas as sextas-feiras. O direito à greve não seria reconhecido. “O direito à greve implica o exercício de uma actividade profissional”, esclarece, por escrito, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens. “Quando uma criança não vai à escola, um dos seus direitos fundamentais não está a ser cumprido. Quando se verifica incumprimento abre-se um processo por absentismo e/ou abandono escolar.”

A socióloga Catarina Tomás, doutorada em direitos da criança, encontra sempre tensão entre protecção e participação. “Vamos fazer 30 anos da Convenção dos Direitos da Criança que inaugura o direito de participação”, recorda. “Ainda há um discurso muito instrumental dos direitos da criança. São os dias festivos [como o 1 de Junho]. São as coisas fofinhas ou engraçadas.” Greta é outro patamar. “Greta reivindica um papel significativo – simbólico e efectivo – para as crianças. Afirma que é uma criança e que é uma cidadã de pleno direito – ela não vai ser, já é”, sublinha aquela professora na Escola Superior de Educação de Lisboa. 

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Ninguém está habituado a ver crianças e jovens no espaço público a protestar. Gabriela Trevisan, professora na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, chama a atenção para o paradoxo que isto gera. Por um lado, há curiosidade, surpresa, encanto. Por outro, há estupefacção, incómodo, irritação. Até porque não é só a idade de Greta. É também o tom. “É uma criança a ralhar com adultos”, realça Mariana Barbosa, professora da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa. “Nós estamos habituados a que seja ao contrário.” Greta franze a testa e aponta o dedo. Citando dados científicos, exige mudança. “Travar as alterações climáticas implica mudar de vida, perder conforto”, diz ainda Mariana Barbosa. "Pensar que a sobrevivência pode estar em causa assusta. Como a mensagem dela é inatacável, atacam-na. Atacá-la ajuda a aliviar a culpa. E o medo.”

As polémicas

Num artigo publicado no Others News – Voices Againts the Tide, o jornalista Roberto Salvio arruma os detractores em quatro categorias. Há os “estúpidos”, que a criticam por tudo  e por nada – por comer banana, algo que não se produz na Suécia; por ter dois cães, que “com certeza” comem carne. Há os “ciumentos”, que se empenham em dizer que começaram nesta luta antes dela nascer, os “puristas”, que tratam de esmiuçar a sua história para “denunciar” que os seus pais são ecologistas, que a família sempre a apoiou, que é influenciada por uma conhecida activista, e os “paternalistas”, que dizem que crianças e jovens deviam era estar na escola, que não têm maturidade para assunto tão sério, que não vai conseguir lidar com a pressão.

A lista não é exaustiva. Nos últimos dias, não faltam teorias da conspiração. Há quem acuse os pais – o actor Svante Thunberg e a cantora de ópera Malena Ernmann – de estarem a ganhar dinheiro à custa dela. Também há quem a acuse de ser um fantoche nas mãos de poderosos.

No Polígrafo, Gustavo Sampaio tem desmontado parte dessa “campanha de ódio, mentiras e desinformação”. As técnicas têm sido usadas por extremistas noutras alturas. Usam, por exemplo, uma fotografia dela substituindo a cara de Al Gore Jr., antigo vice-presidente dos EUA dedicado à luta conta as alterações climáticas, pela de George Soros, empresário e filantropo judeu, húngaro e norte-americano. 

A última polémica envolve o modo como viajou para os Estados Unidos, foi num iate alimentado a energia solar. Uns criticam-na porque é um modo elitista de viajar, outros porque dois tripulantes apanharam um avião para trazer o iate de volta. E ninguém, nem ela, sabe como é que irá voltar – esta sexta-feira está em Montreal, onde participará numa das manifestações pelo clima, mas deverá viajar nos próximos meses pelas Américas de camioneta e comboio, chegando ao Chile a tempo da cimeira de Dezembro.

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Greta está atenta. “Como vocês devem ter notado, os haters estão mais activos do que nunca – vão atrás de mim, da minha aparência, das minhas roupas, do meu comportamento e das minhas diferenças [tem um diagnóstico de síndrome de Asperger, transtorno obsessivo-compulsivo e mutismo selectivo]”, escreveu esta quinta-feira. “Apresentam todas as imagináveis mentiras e teorias da conspiração. Parece que cruzarão todas as linhas possíveis para evitar o foco. Estão desesperados para não falar sobre o clima e a crise ecológica.”

Greta e Malala: amor e ódio

Lembra Lídia Marôpo que “sempre que uma criança consegue chegar a um estatuto como o de Greta ou o de Malala entra na engrenagem do sistema político. Aí as regras são as dos adultos. É difícil manter aquela ideia da protecção, da privacidade, que a criança deve ter para crescer de forma saudável. Quem está a discutir questões políticas no espaço público sujeita-se ao escrutínio público.”

Pelo acompanhamento das notícias, considera que, “de uma maneira geral, Greta é tratada como um prodígio, uma excelente oradora, com grande capacidade e mobilização, que simboliza a esperança, é capaz de emocionar dizendo verdades muito incómodas”. Começam agora as notícias que sugerem “uma ingenuidade que pode ser explorada pela indústria e pela família”. De repente, Greta é uma marioneta. Lídia Marôpo faz um paralelo com Malala. O mito é alimentado pela imprensa ocidental. O que ela defende, a escolaridade obrigatória, não é controverso por cá. No Paquistão, sim, e aí não faltam teorias da conspiração. E isso tem consequências. No dia 9 de Outubro de 2012, os Talibã alvejaram o autocarro em que seguia.